Entrevista com Vicente Filizzola

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Atual presidente da Força Sindical do Amazonas, Vicente Filizzola nasceu no interior do Estado e veio com a família para Manaus na década de 1970. Personagem importante do movimento estudantil secundarista amazonense e um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista no Amazonas (PDT-AM), ele nos fala agora um pouco sobre sua atuação na União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas (Uesa) durante o fim da ditadura militar.

IDD: ONDE VOCÊ INICIOU SEUS ESTUDOS?

Filizzola: Eu nasci no município de Carauari, seringal Caititu, meu pai era seringalista. Depois viemos morar no Careiro, no final de 60. Estudamos lá, na escola São Francisco, fazendo a primeira série, no Curari Grande. Em 73, meu pai trouxe todos nós para Manaus. Fomos morar na rua Belém, ali perto do Parque Amazonense, e nos criamos praticamente ali. Estudando, trabalhando desde muito cedo. Em 77, eu fui para o Exército, onde passei um ano servindo e tornei-me cabo-recruta. Quando o Geisel fechou o Congresso Nacional, nós passamos três dias no quartel esperando uma reação naquele momento, mas não aconteceu nada. Saí do Exército e continuei estudando, no Colégio Ângelo Ramazzoti.

IDD: E QUANDO COMEÇA SUA ATUAÇÃO NO MOVIMENTO ESTUDANTIL?

Filizzola: Quando eu estava estudando o primeiro ano do segundo grau, no Ramazzoti, apareceu lá o Eron Bezerra e o João Pedro, em 80, convocando os estudantes para uma reunião lá no Diretório Universitário, na Epaminondas, para discutir a meia-passagem de ônibus. E aí nós fomos, eu e o Adenilton Pinto que estudava junto comigo no mesmo colégio. Ali se estabeleceu uma discussão, o presidente do Diretório naquela época acho que era o João Pedro. A partir daí começamos toda uma luta, e, de repente, engajamos no movimento. Saímos dali eu, Eron e eu não me lembro qual é a outra pessoa, mas, nós éramos da Comissão de Divulgação e Imprensa… e eu trabalhava durante o dia na Gráfica Palácio Real, na Henrique Martins. Estudava à noite. Como eu trabalhava no Centro, o Eron me ligava e dizia para irmos a tal jornal. Eu tinha certa liberdade lá na gráfica, trabalhava na parte administrativa, era mais fácil sair. Então, começou ali a nossa participação na luta política, naquele momento ainda não vinculado ao PCdoB.

IDD: A FILIAÇÃO AO PCDOB VEIO LOGO EM SEGUIDA?

Filizzola: Fui recrutado pelo partido depois, mas, naquele momento, foi mais criando uma amizade mesmo. O Eron, por exemplo, era meu amigão. A gente andava sempre juntos. O Eron tinha moto, me dava carona. Foi sempre um cara muito meu amigo naquela luta.

IDD: FALE SOBRE A O RETORNO DAS ATIVIDADES DA UESA NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1980…

Filizzola: Em 80 não tinha um presidente, era uma comissão de reconstrução, formada por mim, pelo Sandro Barçal… o Sávio já estava nessa comissão, o João Paulo, que era irmão do Sávio, o Michelângelo Boto, a Selma Barçal. E tinha outros companheiros, que era o Wilson, um cabeludo que a gente chamava de John Lennon, que também fazia parte da Uesa. Os membros da primeira chapa unificada eram eu, a Selma, minha vice, o tesoureiro era o Pinto, Lizardo era o diretor de divulgação, o Sávio era diretor também. Tenho a foto da nossa posse. Quem deu posse para a gente foi o Edison Oliveira, que tinha sido o último presidente da Uesa antes do fechamento. A posse foi no Diretório, na Epaminondas. Nós não tínhamos sede. Em 80 nós instituímos a primeira diretoria. O mandato foi de dois anos. Convocamos um congresso, o primeiro depois da reconstrução… na verdade, foi o segundo congresso… o primeiro foi para a diretoria. Foi na Biblioteca, onde tinha o auditório Alberto Rangel, parece. De lá saiu a primeira diretoria, eleita por consenso geral. O PCdoB tinha um controle grande do movimento. O Pinto era do Partidão, Lizardo era do Partidão. Tinha pouca gente do PT nos secundaristas, tinha mais nos universitários.

IDD: FOI NESSE CONGRESSO QUE HOUVE A RUPTURA DA UESA?

Filizzola: No segundo congresso, que também foi no auditório da Biblioteca Pública, foi para eleger uma nova diretoria e discutir a estratégia da entidade, porque a Ubes [União Brasileira dos Estudantes Secundaristas] tinha sido recém-construída. Só que antes desse congresso houve uma divisão no movimento. Quando entrou aí, já tinha gente do PT (Sebastião Nunes, esse pessoal todo…). Duas chapas no congresso… a minha, que comandei junto com o Sabá e os companheiros. Eu rompi com o PCdoB porque eu comecei a discordar de algumas questões do partido, o negócio do centralismo, aquelas questões todas, eu fui discordando… Nós ganhamos a eleição, só que o pessoal do PCdoB não aceitou. Eles lançaram uma chapa com a minha vice-presidente, que era a Selma. Aí não aceitaram a eleição. Nós tínhamos mais delegados que eles, ganhamos bonito. Só que eles não aceitaram, lançaram uma chapa e se intitularam eleitos. Chegou um momento que estava insuportável. Aí nós fizemos uma reunião chamando todo mundo e dissemos: “Olha, para acabar com isso, vamos fazer uma eleição direta.”.

IDD: COMO FOI ESSA ELEIÇÃO?

Filizzola: Essa eleição direta ocorreu em 1983. O Gilberto tinha sido eleito em maio desse ano. Aí chegamos nesse consenso que devia ter eleição. Todo mundo se convenceu da eleição direta, e fomos para a disputa. Lançaram três chapas. Eu lancei a minha chapa, o PCdoB lançou a chapa com o Sávio candidato a presidente, e um grupo formado pelo pessoal que não se vinculava a nenhuma corrente lançou uma chapa com o Michelângelo. O nome da chapa dele era “Vote”. O Michelângelo entra no movimento também pela corrente política do PCdoB. Essa eleição foi uma das coisas mais bonitas. Nós andamos por esse interior todo. Foi no Estado todo, quarenta mil eleitores. E era uma empolgação geral. Nós ganhamos nas grandes escolas, e o PCdoB naquele momento tinha uma certa vinculação… o João Pedro era deputado estadual. E eles jogaram pesado mesmo. Em Itacoatiara, nós fizemos um debate na escola Furtado Mendonça. Fizemos no Marquês de Santa Cruz…. foi uma eleição muito bonita. Foi uma espécie de formação da consciência eleitoral. Os votos eram contados nas cidades do interior mesmo e mandavam o resultado de lá. Aqui em Manaus foi contado na sede da Uesa, numa sede provisória no edifício Zulmira Bittencourt, na Eduardo Ribeiro, no segundo andar. Nós perdemos. Não houve briga. E a partir daí dividiu e fomos cuidar de outra situação, enquanto a meninada continuou na Uesa.

IDD: VOCÊ PARTICIPOU DO ATO PELA MEIA-PASSAGEM EM QUE A POLÍCIA INVADIU A IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO PARA PRENDER OS ESTUDANTES?

Filizzola: Nós já havíamos realizado várias manifestações. Naquele momento, a meia-passagem já estava praticamente concretizada, só faltava consolidar a execução. E nesse dia, nem eu e nem o João Pedro estávamos na manifestação. Nós estávamos na sede do governo, que estava funcionando na Sefaz, porque estavam reformando o Palácio Rio Negro. Aí fomos eu e o João Pedro e deixamos o pessoal do ato mais ou menos orientado. Só que o Sandro Barçal fez um discurso doido lá… largou a “porrada” na Polícia. Então o Sandro provocou aquele ato, provocou a polícia: “A roupa que eles vestem é o povo que paga”. E o PCdoB pregava isso, tem que ter o confronto. O Sandro falava muito bem, tinha uma oratória magnífica… e estava todo mundo lá… aí os caras ficaram putos e largaram o “pau”. Só que nós estávamos no Palácio para sermos atendidos pelo governador… era uma comissão – eu, João Pedro… – aí quando soubemos do negócio, corremos para lá… já tinha acontecido, gente presa, o Evandro Carreira se jogou dentro do camburão: “Eu vou com eles! ”. Quando nós chegamos na Praça São Sebastião, tinha um carro da polícia, um coronel fardado de branco, aquela farda de gala, o então vereador Fábio Lucena, que já tinha tomado uma, estava discutindo com o coronel. Aí nós chegamos lá, o coronel chamou a gente: “Olha, vamos acabar… a desgraça já foi feita”. E o Fábio polemizando. Chegou um momento em que o Fábio, mais pra lá do que pra cá, disse: “Cabo, se levante! Eu estou lhe promovendo a coronel e rebaixando esse coronel a cabo, em nome da democracia”. E a gente dizia: “Pelo amor de deus seu vereador, acabe com esse negócio… vamos acabar”.

IDD: VOCÊ CHEGOU A SER CONVIDADO A CONCORRER A VEREADOR EM 82, PELO PCDOB?

Filizzola: Em 82… Naquele momento, quando nós estávamos sob a orientação do PCdoB, antes da eleição, o João Pedro e o Eron me chamaram… queriam me lançar candidato a vereador… naquele momento eu não tinha a compreensão da importância do parlamentar. Eu acho que naquele momento, se eu fosse candidato, com aquela estrutura que a gente tinha por aquele grupo… o Lira foi o terceiro mais votado… se eu não fosse o primeiro, seria o segundo. Nós trabalhamos muito na campanha. Nossa chapa era Gilberto, Fábio, Artur Virgílio, Felix Valois e o “Negão”.

IDD: QUAIS ERAM OS GRÊMIOS ESTUDANTIS MAIS FORTES DAS ESCOLAS DE MANAUS NAQUELA ÉPOCA?

Filizzola: Politicamente, o grêmio estudantil do Colégio Estadual era o mais forte. O Instituto de Educação tinha uma atuação muito boa. Eu me lembro de que o Gedeão [Amorim] era professor do Colégio Estadual e ajudava muito a gente lá na época. Os grandes colégios: Estadual, Benjamin Constant, Ruy Araújo, na Cachoeirinha, Solon de Lucena tinham uma estrutura que tinha um pessoal bom lá. E tinham dois colégios que eram novos, mas que tinham uma atuação política muito importante, que eram o Petrônio Portela, no Dom Pedro, e o Rodrigo Otávio, onde é a Fundação Nokia. Essas duas escolas na época eram escolas profissionalizantes na área Eletrônica, Mecânica, Eletrotécnica. E dava um pessoal muito bom lá. Das escolas particulares tinha o Dom Bosco. E outro colégio que começou a levar gente para o movimento foi o Ida Nelson.

IDD: EM ALGUMA MANIFESTAÇÃO VOCÊ CHEGOU A SER PRESO OU AGREDIDO?

Filizzola: Eu trabalhava de dia e estudava de noite. Aí o PT convocou uma reunião quando o Lula estava preso… tinha um monte de professor preso também… aí determinaram fazer uns atos contra a lei de segurança nacional. Os figurões não queriam ir… eu, empolgado… nós fomos para essa luta. E tinha, na época, um rapaz que era da Igreja Presbiteriana. E ele tinha um Fiat com som em cima, a boca de ferro. Era eu, Lizardo, Pinto, professor Marçal e esse cara da Igreja Presbiteriana. No primeiro dia foi uma beleza… 17h a gente se programava. Eu fazia a prestação de contas lá da gráfica, me mandava lá para o PT… nunca fui PT… a sede ficava na Joaquim Nabuco, ao lado do antigo diretório do PMDB. Aí no primeiro dia foi beleza, nas feiras, no Centro, nas paradas de ônibus… era discurso relâmpago. “A lei de segurança nacional que prende o líder sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva… o professor Maximiniano da Universidade de Minas Gerais… e não sei o quê…” (risos). E eu estudava de noite… Em casa morava só eu, meus irmãos e irmãs…. Me preparei todo e me mandei lá para o PT. Na Praça 14 tinha uma feira livre. Quando nós encostamos lá para fazer o discurso, chegaram duas “baratinhas” e o sargento nos deu voz de prisão por ordem do Comando Militar da Amazônia. Ele foi educado e nos disse que nós seríamos encaminhados para o 1º DP, que ficava na Carvalho Leal, na Cachoeirinha, ao lado da Casa do Folclore.

IDD: E VOCÊS FORAM NO PRÓPRIO CARRO?

Filizzola: O Fiat velho cheio de material de som… e os cinco, lá dentro do carro… vamos para lá. Na brincadeira eu disse: “Pastor… esses caras vão levar a gente ali para aquele quartel da radiopatrulha, na Duque de Caxias, e vão encher a gente de porrada”. Quando falei isso, deu a louca no pastor e ele achou de desviar os dois carros. Ele entrou na Emílio Moreira, na contramão. Naquele dia eu vi o negócio ficar preto (risos). Os caras comunicaram o “Choque”. Aí veio aquela picape cheia de brutamontes, fecharam a gente. O carrinho não corria nada. Só que a gente saiu instruído, levava o número do advogado, que era o Valois. Fecharam a gente. Teve uma hora que eu pensei que eles iam jogar a gente num barranco ali onde é o Prosamim. Quando fecharam a gente… saíram e já vieram para dar porrada. Só que o oficial deles falou: “Não batam que eles não são bandidos. Eles são políticos!”. Aí o Marçal olhou para um e disse: “Você é meu aluno, né?!”. O cara respondeu: “Sou. Sou seu aluno. E o senhor é um professor muito escroto” (risos). Levaram a gente algemados, com aquela algema que quanto mais você mexe, mais aperta. E aí levaram a gente lá para o 1º DP. Jogaram a gente dentro de uma cela, do outro lado tinha umas prostitutas presas. Não nos deixaram telefonar… deu 5 horas, 6 horas, 7 horas da noite, e nada… aí o Marçal começou a se preocupar. Eu tinha saído do Exército e disse que nós estávamos em uma guerra e que não podíamos afrouxar ali… O Lizardo era menor de idade ainda… e os jornais tinham acompanhado nossa prisão, mas não divulgou no mesmo dia. Deu 8 horas da noite… eu comecei a pensar nas minhas irmãs que iriam ficar preocupadas… porque eu chegava em casa, botava minha roupa, trocava a farda e ia lá para o Ramazzoti.

IDD: COMO VOCÊS CONSEGUIRAM SER LIBERADOS?

Filizzola: Quando deu umas 10 horas, passou um cara com o quepe do Exército. Aí, cinco minutos depois, soltaram a gente e mandaram a gente para uma sala. O delegado, revoltado: “Se fosse comigo vocês iam ver. Só porque vocês têm esses advogados famosos, como esse Valois”. O cara não gostava do Valois. Eu disse: “Não, mas nós não estávamos fazendo nada…”. Fomos chamados de um por um, menos o Lizardo, que foi logo liberado porque era menor e não podia depor. E aí nós depomos, passamos uma porrada de horas lá, 2… 3 horas da madrugada. E a única coisa que o delegado perguntava era quem era o “cabeça”… A gente respondia: “Não tem ‘cabeça’… a gente quer a liberdade, nós estamos lutando pela democracia…”. Só que o Valois nem foi lá… então o delegado disse que nós íamos responder um processo baseado na lei de segurança nacional… depois nunca me chamaram para porra nenhuma, até hoje (risos). Isso foi em 81 ainda. Eu estava noivo ainda. No outro dia, a noiva pega o jornal e vê estampado lá… (risos).

IDD: NA CHAMADA “BATALHA DA MATRIZ”, EM 1983, ONDE HOUVE UM QUEBRA-QUEBRA NA PRAÇA DA MATRIZ NUMA MANIFESTAÇÃO CONTRA O AUMENTO ABUSIVO DAS TARIFAS DO TRANSPORTE COLETIVO, VOCÊ PARTICIPOU?

Filizzola: Ali a gente participou, mas, nossa visão era que não caberia mais aquelas manifestações. Mas a gente foi, porque precisávamos estar juntos. E o PCdoB, que passava por um momento de crise com o Mestrinho, o João Pedro era deputado estadual… e foram para cima. Fazia parte da luta daquele momento político. O PCdoB apoiava o Gilberto, nós apoiamos também…, mas, depois eles queriam fazer oposição ferrenha, e fizeram. O João Pedro rompeu depois com o Mestrinho. Mas eu me lembro daquela manifestação de 83, do quebra-quebra e também da reação da polícia.

IDD: VOCÊ SOFREU ALGUMA PERSEGUIÇÃO DA POLÍCIA?

Filizzola: Nessa nossa luta, às vezes somos até ingênuos. Um dia, eu conversando com um policial lá no Bar do Armando, o Lamego [Carlos], que hoje parece que é sociólogo, ele me contou umas histórias… “Filizzola, nós tínhamos a orientação de te seguir. E a orientação era te matar. Nós estávamos esperando só um vacilo teu. Só que tu nunca vacilou. Nós nunca te vimos envolvido com drogas, alguma coisa que nos desse motivo para te apagar. Vocês é que não observavam, mas nós tínhamos toda uma orientação para sair seguindo, vendo a vida de vocês. No teu caso, a gente te seguia”.

IDD: COMO FOI SUA PARTICIPAÇÃO NA FUNDAÇÃO DO PDT-AM?

Filizzola: Eu sempre fui muito vinculado ao Artur [Neto]. Quando ele se elegeu deputado, me disse que ia levar três pessoas para Brasília e que eu ia ficar aqui. O Nestor não quis ir. E nós ficamos. Ele levou o Gil, o Adalberto Nunes e o Láudio Heleno, que dirigia para ele. O Artur toda vez que vinha a Manaus de quinze em quinze dias, ele me ligava, a gente se reunia… e eu montei uma agência de publicidade com o Gil na época, já chegando em 84. Começamos a desenvolver um trabalho, inclusive era no porão do Machado, numa casa que ficava na esquina da Ferreira Pena com a Leonardo Malcher. Montamos uma serigrafiazinha, conseguimos um trabalho… e vinculados ao Artur. Eu gostava do professor Botinelly, a gente tomava uma cervejinha juntos. E ele começou com esse negócio de PDT, e me chamou para ajudar ele a construir o partido. E eu sempre tive uma simpatia pelo Brizola. Então resolvi ajudar. E ele me colocou como secretário da Comissão Provisória. Era eu, Simão Pessoa, Narciso Lobo, Marlinho… aí, o Artur veio e nós fomos almoçar lá naquele bar São Francisco, no Educandos, ele gostava de comer peixe lá… Aí eu disse a ele que a partir daquele momento estava largando o nosso grupo e que ia organizar o PDT com o professor Botinelly.

IDD: FICOU CHATEADO COM O ARTUR?

Filizzola: O Artur toda vez me prometia que ia me ajudar a montar um escritório etc. E eu aqui “fu(…)ido”, desempregado, casado, com a minha mulher me sustentando… E era complicado arranjar emprego por causa do meu envolvimento no movimento. Eu tenho uma cunhada que é médica e na época ela falou que ia conseguir alguma coisa para mim naquela empresa Espuma, no Distrito. O diretor lá era o Fábio Mendonça, que foi presidente da OAB… aí eu fiz todos os testes e passei. Quando fui me apresentar para ele, quando ele viu que era eu, da Uesa, do movimento… o cara me botou na rua na hora (risos) … disse que ia ter que me reavaliar… Então, eu passei por uma certa dificuldade para arrumar emprego… por isso falei ao Artur que ia ajudar o Botinelly a organizar o PDT aqui. Só vim encontrar o Artur de novo na eleição de 86, do “Muda Amazonas”. Em 85 nós apoiamos o Botinelly… e ele bateu o Aloisio [do PT]. Nós tivemos 11% dos votos dessa cidade, só com o “Pau Neles! ” e um caminhão que nós montamos, o “Bicho Folharal”, com as bocas de som … Distrito, porta de fábrica… a gente ia fazer o trabalho… o Botinelly era fod(…).

IDD: LEMBRA DE ALGUMA HISTÓRIA ENGRAÇADA COM O BOTINELLY?

Filizzola: O Botinelly, a gente chegava na casa dele, em plena campanha… naquela época não tinha candidato a vereador, era só o prefeito. Uma vez eu cheguei lá, o Botinelly estava na rede. Eu disse: “Porra, Theodoro, nós temos que trabalhar. Temos que ir para a luta!”. Ele, deitado na rede, respondeu: “Calma, que eu estou pensando Filizzola. Campanha não se ganha só nesse teu trabalho braçal, não” (risos). Ele morava no Cidade de Manaus, no 5º andar, num apartamento da família Benzecry… Ele tinha essas loucuras. Em 82, o Botinelly apoiou o Gilberto. Ele foi o responsável pela fiscalização do PMDB, treinou, fez tudo. Aí o Gilberto colocou ele como representante lá na Sudam. Ele queria terminar o mestrado dele lá no Instituto Superior da Amazônia. Ele pensava que o cargo dele na Sudam tivesse alguma importância… não tinha nem salário… aí ele ficou puto. Ele me contou que quando terminou a eleição, o Amazonino estava entrando no grupo lá naquela época. Se reuniram lá e o Botinelly falou ao João Tomé: “Precisamos organizar o partido… o partido é fundamental para garantir as eleições”. O João Tomé respondeu: “Olha, acaba com esse negócio de organizar partido, que agora nós temos o poder, temos dinheiro. Dinheiro garante essa porra. Não te preocupa, não”. O Botinelly era um sonhador…

IDD: E COMO FOI O PDT NA ELEIÇÃO DE 1986?

Filizzola: Naquela eleição de 86 do Artur, eu e o Botinelly fomos lá com o seu Umberto Calderaro pedir autorização dele para o Serafim ser candidato a vice. O Serafim escrevia no “A Crítica”. E o Serafim também vinha daquela briga contra o Gilberto. E para atingir o Gilberto ele batia no Artur…. Teve um artigo do Serafim em que ele perguntava “De que vive Artur Virgílio? Quem paga a comida da família dele?”. Então nós fomos até o Calderaro pedir permissão para o Serafim ser vice do Artur e íamos filiar ele ao PDT. Naquela mesma eleição, o Gilberto tinha mandado prender aquele coronel Cavalcante. Nós fomos fazer a filiação do Cavalcante lá dentro do quartel da Polícia Militar. O Botinelly me disse “Filizzola, vamos lá. Esse cara vai ter que ser candidato a deputado pelo nosso partido”. E ele acabou se elegendo pelo PDT. Naquela eleição o PDT fez quatro deputados estaduais: Jamil Seffair, Sabá Reis, Coronel Cavalcante e o Dr. Alfredo Campos.

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