Entrevista com Paulo Sarmento

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Ele veio para Manaus na década de 1970 e começou a participar do movimento estudantil quando ingressou na então Universidade do Amazonas. Filiado ao Partido Comunista do Brasil, foi presidente de centro acadêmico e também do Diretório Universitário. O IDD entrevista o bancário Paulo Sarmento Pessoa Filho.

IDD: CONTE-NOS UM POUCO DE SUA HISTÓRIA.

Paulo: Nasci em 21 de janeiro de 1956 na cidade de Parintins, cheguei aqui em Manaus no dia 23 de dezembro de 1973 e vim em busca de trabalho. Eu me matriculei no Colégio Estadual D. Pedro II onde estudei em 1974 e 75 e lá eu fiz o segundo e o terceiro ano do segundo grau. Em seguida, eu fiz um ano de cursinho pré-vestibular e nesse mesmo ano, 1978, eu ingressei na Faculdade de Biologia – na época era Licenciatura em Ciências – no Campus antigo ainda. E lá o pessoal da Biologia tinha uma ligação muito grande com o pessoal da Agronomia, que era quem basicamente coordenava o movimento estudantil.

IDD: AGRONOMIA ERA O CURSO MAIS POLITIZADO DA ÉPOCA?

Paulo: Sim. Eles eram os mais atuantes dentro da Universidade e a principal base do PCdoB. Posso destacar os companheiros Eron, George Tasso, João Pedro e tanto outros. O partido estava na clandestinidade, mas mesmo assim, atuávamos na organização do M.E.

IDD: E VOCÊ COMEÇOU A SUA ATUAÇÃO NO MOVIMENTO ESTUDANTIL NO PRIMEIRO ANO?

Paulo: Minha atuação começa dentro do Centro Acadêmico, ajudei na fundação do Centro Acadêmico de Biologia e fui presidente da entidade por duas vezes. O primeiro centro foi o Cuca, da Agronomia, depois, não sei exatamente a ordem, surgiram o de Medicina, Direito e dos cursos do ICHL. Em 1980, eu participei do primeiro Conselho Nacional das Entidades de Base que é uma das instancias de decisão da União Nacional dos Estudantes – UNE.

IDD: E COMO OCORREU A SUA INDICAÇÃO PARA A PRESIDÊNCIA DO DU?

Paulo: As pessoas que militavam no movimento já estavam com um pouco de desgaste, porque, como eram pessoas ligadas umbilicalmente aos partidos políticos. Os partidos eram o PT, que contava com muitos simpatizantes e militantes de diversas correntes. O presidente da diretoria que me antecedeu, é o atual procurador Públio Caio, que, aliás, era um excelente orador. Entretanto, sua administração, estava fragilizada. O PCB, conhecido como Partidão, decidiu concorrer isoladamente, mesmo sabendo que perderiam a eleição e parece-me que o candidato na cabeça de chapa era o Guto Rodrigues. Pelo PCdoB, surgiu uma tese de que o nome escolhido para a presidência deveria ser uma pessoa com uma imagem menos radical e com bom transito na área de saúde, para minar a chapa do PT. Ao final, aceitei o desafio e fomos vitoriosos com a chapa “Arrastão”.

 IDD: QUEM ERAM OS MEMBROS DA CHAPA E QUAL ERA A RELAÇÃO DE VOCÊS COM A REITORIA?

Paulo: A nossa chapa foi muito bem votada. Creio que tivemos 60% dos votos. O grupo era muito consistente, a Vanessa Grazziotin foi a minha vice e depois se tornou presidente do Diretório Universitário.  Ainda contávamos com o Tasso, Edson Ramos e tantos outros. Nós tínhamos uma boa relação com a Reitoria. O reitor da universidade era o Hamilton Mourão, professor de Física. Mas os demais dirigentes da Universidade, na sua maioria, eram de direita ou de extrema direita, como o professor Afonso Celso Maranhão Nina. É importante destacar que estávamos vivendo um processo de forte radicalização e os confrontos eram inevitáveis.

IDD: DESCREVA A FIGURA DO MAGNÍFICO REITOR?

Paulo: O Mourão pertencia a uma família tradicional, tinha grande influência nos governos do Regime Militar. A sua autoridade era sempre exercida em defesa da comunidade acadêmica. Era um cara justo. Não admitia certos abusos dos órgãos de repressão dentro da Universidade.

IDD: VOCÊ PODE NOMINAR QUEM ERAM OS DITOS “RADICAIS”?

Paulo: Radicais na época, com certeza, eram os camaradas Eron, João Pedro, Braga, Ailton. Que na realidade já atuavam muito mais na direção do Partido Comunista do que no Movimento Estudantil e, por consequência, nós seguíamos as orientações da cúpula do partido. É bom assinalar que eles possuíam muita determinação e coragem. Lembro que, uma vez, na Faculdade de Engenharia, teve uma reunião. Alguém discursava e o Eron pediu a palavra. Ele começou dizendo: “Com licença. Nós, do Partido Comunista…”. Era a primeira vez que alguém levantava a voz e dizia “Nós, do Partido Comunista”. Só se via nego se encolhendo nas cadeiras (risos). Nessas reuniões sempre alguém da Polícia Federal disfarçado, bisbilhotando, mas isso já não importava mais.

IDD: QUEM FOI O RESPONSÁVEL PELO SEU RECRUTAMENTO PARA O PCDOB?

Paulo: Eu fui recrutado pelo João Pedro. Íamos a reuniões clandestinas, marcava-se um determinado lugar, nós entrávamos no carro e baixávamos as cabeças, até chegarmos ao que se denominavam “aparelhos”. O partido possuía uma disciplina rígida e forte. Uma das maneiras de se atuar pelo PCdoB, era vendendo o jornal Tribula da Luta Operária, órgão oficial do partido.

IDD: FOI PRESO E/OU DETIDO?

Paulo: Eu nunca cheguei a ser preso, mas fui detido duas vezes, numa delas eu estava numa banca de revista na Eduardo Ribeiro e lá comprei um jornal chamado “Versus”. Dois agentes da Polícia Federal me pegaram pelo braço e me levaram para dentro de um carro estacionado na rua Henrique Martins. Lá me interrogaram por algum tempo, mas em nenhum momento me agrediram fisicamente. Fizeram algumas perguntas e pegaram a minha agenda. O detalhe é que, na época, existia o Pacto Amazônico, e esse propiciava o intercâmbio de estudantes dos países signatários. Assim, brasileiros saíam para estudar no Equador, Colômbia, Bolívia ou Venezuela, por exemplo – em menor escala, pois a qualidade do nosso ensino era superior -, e estudantes desses países amazônicos vinham para estudar em nossas Universidades. O agente pegou a minha agenda e nela tinha nomes de muitos colegas colombianos, salvadorenhos, nicaraguenses. Eles queriam que eu desse conta de cada um nome que estava lá (risos). Mas eram só colegas de aula, os estrangeiros não participavam nem do partido e nem mesmo do movimento. Talvez fossem impedidos por lei, não sei, mas não participavam.

IDD: QUAIS AS REIVINDICAÇÕES QUE VOCÊS PLEITEAVAM NAQUELA ÉPOCA?

Paulo: A meia-passagem, o Restaurante Universitário, as eleições para escolha dos diretores e reitor, também defendíamos a questão da Amazônia e começamos a atuar dentro do Conselho Universitário e lembro-me de um fato pitoresco: a minha primeira participação numa reunião em que era obrigatório o uso de paletó e eu estava somente de manga comprida, desconhecia a exigência e o Mourão, de pronto, disse que eu não participaria da reunião trajado daquele jeito. Quando eu vou saindo pela porta, tinham alguns garçons que serviam umas bandejonas com água, que eram conhecidos. Eu falei: “Cara, me dá essa tua bandeja aqui”. Peguei a bandeja, arriei no chão e continuei: “Agora, me dá teu paletó” (risos). Ele me deu aquele paletó preto. Eu saí da sala e, apesar de apertado, o vesti e voltei para a reunião. Todo mundo ficou me olhando e rindo (risos), exceto uns caras bem sisudos, como o professor Afonso Celso Maranhão Nina, que não acharam nada engraçado. Participei de muitos movimentos pelo DU, com mais frequência os que eram contra a ditadura.

IDD: É VERDADE QUE SUA GESTÃO FOI A RESPONSÁVEL PELA CRIAÇÃO DO FESTIVAL DO FESTIVAL UNIVERSITÁRIO DE MÚSICA?

Paulo: Sim. O I FUM aconteceu no Olímpico Clube, e os apresentadores foram Vanessa Grazziotin e Lino Chixaro. O II festival ocorreu nas instalações do antigo ICHL, também lançamos uma atividade cultural que eu tinha visto em Belo Horizonte, que era o Forró Universitário, que ocorria nas sextas-feiras, na sede do diretório, na Av. Epaminondas. A primeira banda contratada foi a Banda Carrapicho. Os ingressos seriam deles e o bar, nosso.

IDD: ISSO ERA PARA GERAR FUNDOS PARA AS AÇÕES DO DU?

Paulo: Havia uma verba que a universidade disponibilizava para o Diretório Universitário. Mas esses valores não eram significativos, gastávamos muito com papel, tinta, material de propaganda, pichação, passagens e outras despesas. Esses eventos ajudavam a complementar o pagamento das nossas despesas, inclusive o custeio das idas às atividades da UNE.

IDD: COMO ERAM OS CONGRESSOS DA UNE?

Paulo: Era um grande evento, com enorme diversidade de opiniões, barraquinhas vendendo livros, jornais, broches e camisas, muitas palavras de ordem, embates memoráveis entre os principais oradores das facções, até grupos de Direita participaram do congresso em que estive, em Salvador. Agora a palavra de ordem mais usada para manter a unidade na diversidade era: “A UNE somos nós, nossa força, nossa voz”. E de repente todos estavam gritando a mesma frase, tudo se acalmava e recomeçava. E era bom porque você sabia exatamente quem era quem no movimento. Quem era Esquerda, quem era Direita, quem estava em cima do muro. Hoje não se sabe mais, mas, na época, isso era muito claro.

IDD: DO QUE VOCÊ SE RECORDA DA LUTA PELA MEIA-PASSAGEM? PARTICIPOU DE ALGUMA MANIFESTAÇÃO?

Paulo: A discussão sobre a questão da meia-passagem já existia antes do meu ingresso no movimento. Lembro do ato na Praça São Sebastião, perto da Faculdade de Educação, na rua Tapajós. Começou ali a concentração, fomos cercados pela polícia. Estava presente o vereador Fábio Lucena, que ficou no meio da rua, de braços abertos e parou um caminhão da PM e se aproximou de um capitão da PM e de um soldado e disse: “Capitão, quando eu me tornar governador, o senhor vai virar um soldado raso. E você, soldado, vai se tornar um capitão” (risos). Não me recordo de outros detalhes.

IDD: E NA CONHECIDA “BATALHA DA MATRIZ”, VOCÊ ESTAVA PRESENTE?

Paulo: Sim. Aquele episódio teve a participação muito forte do pessoal da Uesa, um grupo mais exaltado de estudantes. Quando nós fizemos a avaliação do quebra-quebra ocorrido, até pra saber quem havia atirado a primeira pedra, também concluímos que havia policial infiltrado na manifestação. Quando tem uma movimentação como aquela e o clima está tenso, basta que alguém atire a primeira pedra, foi o que ocorreu. Eu também participei da manifestação que aconteceu em frente ao Palácio Rio Negro.

IDD: HOUVE VIOLÊNCIA POLICIAL TAMBÉM NESSE ATO EM FRENTE À SEDE DO GOVERNO?

Paulo: A passeata saiu pela Sete de Setembro e foi barrada na Joaquim Nabuco, mesmo assim, muita gente ainda passou pela barreira imposta. Na esquina da Major Gabriel com a Sete, quase em frente ao Palácio Rio Negro, estava o capitão Bonates. Quando vi chegarem muitos estudantes e a polícia começou a atacar, eu me “ligerei”. Eu me aproximei do capitão e perguntei se ele iria deixar os policiais baterem no pessoal, porque tinham menores de idade. Ele ficou calado e nada disse. Tinham muitos secundaristas jovens, estudantes de 14, 15, 16 anos. Ali muita gente apanhou. Na Major Gabriel, por exemplo, um garoto tentou pular um portão de ferro e não conseguiu, um policial o bateu com o cassetete diversas vezes. Nós não chegamos em frente do Palácio porque fomos impedidos. No dia seguinte, nós fomos a uma reunião na Reitoria, Arminda Mourão, filha do reitor, estava lá com marca de cassetete no corpo. Ela puxou a blusa, mostrou a marca e disse: “Olha aqui, reitor!”. A Arminda participava muito ativamente.

IDD: QUANDO VOCÊ ENCERROU SUA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO?

Paulo: Eu contribuí por mais algum tempo após o fim da minha gestão como presidente, mas nesse período eu já estava como funcionário comissionado do Basa e tinha que trabalhar oito horas por dia, isso dificultava de até frequentar a Faculdade para pagar as matérias que eram no mesmo horário. Ficou muito complicado estudar e fazer política. Hoje ainda continuo na atividade bancária, não estou mais filiado ao PCdoB, mas tenho o partido no coração.

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