Entrevista com Paulino Costa

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Paraense de nascimento, aos 15 anos nosso entrevistado veio estudar em Manaus-AM, no antigo Colégio Agrícola, ingressando, a seguir, na então Universidade do Amazonas (UA). A partir daí, começava a sua trajetória no movimento universitário, dentro do Curso de Agronomia, até o recrutamento no PCdoB. O IDD entrevista Manoel Paulino da Costa Filho, ou simplesmente Paulino Costa.

IDD: APESAR DA SUA NATURALIDADE PARAENSE, HÁ QUEM ACREDITE QUE VOCÊ NASCEU EM PARINTINS. COMO É ISSO?

Paulino: Sou natural da cidade de Alenquer, mas aos 3 anos fui morar com minha família em Parintins, aqui no Amazonas. Para todos os efeitos da amizade, do meu conhecimento, as pessoas pensam que eu sou parintinense. Até porque a minha família é natural de Parintins, minha mãe, a maioria dos meus irmãos. Mas eu nasci em 3 de janeiro de 61 no Pará, fui com 3 anos para Parintins e com 15 anos vim para Manaus, e estou aqui desde então.

IDD: SUA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO JÁ COMEÇOU NO AGRÍCOLA?

Paulino: Eu estudei no Colégio Agrícola no período de 77 a 79. Em 1981 ingressei na universidade, no curso de Agronomia. Até então eu não mantinha nenhum tipo de atividade política. O Colégio Agrícola tinha muitas restrições na área da liberdade. Era um colégio quase que em regime militar. Embora já tivesse alguns questionamentos, era difícil porque você ficava durante toda a semana. Pela parte da manhã fazia atividades práticas, à tarde a teoria.

IDD: VOCÊ TEVE ALGUMA INFLUÊNCIA DO SEU IRMÃO, O JOÃO PEDRO?

Paulino: Com certeza. Como ele, também fazia Agronomia, curso que já era envolvido na atividade política. Em 1981, quando eu ingressei no curso de Agronomia, eu já fui participando do Centro Acadêmico. Agronomia, na época, era o curso mais novo da UA. O curso foi criado em julho de 76, e eu ingressei em 81, na quinta turma. Já era organizado. O Cuca era o mais ativo, em seguida tinha o Cucos [Centro Acadêmico de Comunicação Social]. Tinha o Centro Acadêmico de Filosofia, que também era muito ativo, Medicina, Engenharia Civil… cursos relativamente bem organizados. Os mais atuantes da época eram esses.

IDD: E COMO FOI SEU INGRESSO NO CUCA?

Paulino: Todo início de ano tinha uma recepção de calouros que era feita numa área do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia], fora da universidade. No geral, era uma atividade de recepção, de boas-vindas aos novos estudantes, e, ao mesmo tempo, já tentando envolvê-los nas atividades políticas. E eu lembro que, como em todos os centros acadêmicos, do grupo de estudantes que era eleito nem todos permaneciam, por motivos variados. Muitos cargos ficavam vagos. E num desses cargos vagos eu fui nomeado através de assembleia, não foi por eleição. Não me lembro agora qual era a minha função, mas, no geral, na época tinha cargos como diretor de assuntos estudantis, que era para fazer política (risos).

IDD: NESSA SUA ÉPOCA DE CUCA, VOCÊ CHEGOU A CONHECER O RAIMUNDO CARDOSO, QUE TERIA VINDO DA GUERRILHA DO ARAGUAIA PARA FUNDAR O PCDOB NO AMAZONAS?

Paulino: Na primeira turma de 1976 do curso de Agronomia tinha uma pessoa chamada Raimundo Cardoso. Esse rapaz cearense recebeu uma missão do PCdoB, a nível nacional, do comitê central do partido, de vir para o Amazonas organizar o PCdoB aqui. E ele fez o curso de Agronomia. Ele era uma pessoa extremamente simpática, afável mesmo, com uma facilidade de cativar as pessoas. Ele veio para cá e ele que praticamente começou a organização do movimento estudantil… tinha o Eron que também tinha esses pensamentos, mas o Eron não tinha vínculo com o PCdoB, ele é da primeira turma, de 76. O João Pedro já é da segunda turma, de 77. Tinha essa alegria da juventude, essa emoção de querer participar e conhecer. Mas o Cardoso tinha essa missão: organizar o movimento estudantil.

IDD: QUAIS ERAM AS GRANDES BANDEIRAS DE LUTA DESSA ÉPOCA?

Paulino: Eu lembro que em Manaus – isso antecede ao meu ingresso na universidade -, 1980 foi o grande ano das campanhas em defesa da Amazônia. Na verdade, eram vários os movimentos para agregar a sociedade, estudantes, populares, mas, no fundo, o objetivo maior era o fim da ditadura militar. Mas eram assuntos que conseguiam agregar a sociedade. Então a luta pela defesa da Amazônia era muito grande. A defesa da Amazônia, contra a carestia, o custo de vida muito alto, inflação alta, liberdades… eram temas que conseguiam agregar a sociedade. Fora de assuntos da universidade, os temas que na época conseguiam nos unir eram esses. Aqui em Manaus existia um movimento contra a carestia, fazíamos muitas manifestações no Centro da cidade pedindo a baixa de produtos da cesta básica. Transporte coletivo era algo também que nos unia. Os aumentos eram absurdos da passagem de ônibus na época. Era algo que mobilizava a população. E na universidade a questão era o restaurante universitário.

IDD: JÁ HAVIA UMA INCLINAÇÃO SUA PARA DETERMINADA CORRENTE POLÍTICA?

Paulino: Sobre já ter uma doutrina política… Infelizmente (ou felizmente), eu não me arrependo… naquele período, quando você ingressava já tinha um direcionamento político. Por exemplo, eu era da organização estudantil, eu era da “Viração”, que era um braço do PCdoB no movimento estudantil. “Viração”, depois a UJS. Em 80 surgiu o PT…. um outro grupo da universidade era ligado ao PT. Tinha um movimento era… que foi uma diretoria do DU uma época… era “Pé na Terra”, que agregava a juventude ligada aos simpatizantes do PT. No segundo ano de Faculdade eu já fui da diretoria do DCE, no cargo de diretor de Assuntos Estudantis, a Vanessa era presidente… faziam parte Vanessa, Durango, Edson, Levino… isso é 82.

IDD: QUAIS OS PRESIDENTES DO DIRETÓRIO UNIVERSITÁRIO QUE VOCÊ SE LEMBRA?

Paulino: Quando eu ingressei, o presidente era o Públio Caio, do PT, foi eleito em 80… normalmente a eleição era em outubro, final de ano. Aí, de 82 para 83 foi a Vanessa, de 83 para 84 já foi o Edson o presidente e eu fui o vice dele. Nesse período eu assumi um pouco o DCE, porque o Edson já era finalista de Medicina. Ele se afastava muito por causa dos estudos, do estágio dele, e eu fiquei à frente do DCE.

IDD: E QUAIS AS PRINCIPAIS LIDERANÇAS?

Paulino: De referências nessa época?… Bem, nesse período a velha guarda já estava saindo, os mais antigos, tipo o Públio Caio, o Eron Bezerra, João Pedro, José Carlos Sardinha, que era médico e foi o presidente que antecedeu o Públio Caio… essa era uma turma mais da antiga… Ivancir… pessoal da vanguarda… João Jaburu… turma da antiga mesmo. A juventude que entrou era composta pela Vanessa Grazziotin, Omar Aziz, Durango Duarte, Edson Ramos, Plínio, economista, Levino, depois veio o Francisco Deodato… essa é a turma então que veio depois.

IDD: QUEM RECRUTOU VOCÊ PARA SE FILIAR AO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL?

Paulino: Então, nós todos éramos da corrente política no movimento estudantil chamada de “Viração”. E quem me recrutou foi o Francisco Braga, que era da Agronomia, ele que fez esse chamamento. Eu lembro assim que nós tivemos uma atividade e no final ele me falou assim: “Seguinte… você é um destacado companheiro no movimento estudantil. Temos analisado a sua atuação, seu compromisso, e a ‘Viração’ é a organização nossa no movimento estudantil. Mas nós temos um partido político que está na clandestinidade, não é legalizado. Nós queremos convidá-lo para ingressar no PCdoB, o partido político que nós pertencemos”. E eu já achava que era do PCdoB (risos) … eu já me considerava como tal. Mas, disse a ele que aceitava sem nenhum problema. Quando a gente recebia um convite assim, era bom, mas tinha aquele temor. Você podia ser perseguido. Por exemplo: eu trabalhava, era concursado, trabalhava no Iteram [Instituto de Terras e Colonização do Amazonas], órgão do Governo do Estado… você tinha um temor, mas tinha uma satisfação, porque é da juventude esse desejo, esse anseio do desafio, do enfrentamento. E era um negócio interessante. Eu fiquei extremamente feliz.

IDD: ESSE CHAMAMENTO EXIGIA PRECAUÇÕES. VOCÊ SE LEMBRA DE QUAIS CUIDADOS TINHA DE TOMAR?

Paulino: Na primeira reunião que eu fui, entrei no carro com uma venda nos olhos… rodamos muito na cidade e eu não tinha ideia de onde eu estava. Os locais de encontro eram os chamados “aparelhos”. Então você não sabia para onde ia. Não usávamos os nossos nomes, tinha um codinome, mas eu não consigo mais lembrar qual era o meu. Mas tinham todos esses cuidados. E esses “aparelhos” serviam para reuniões e estudos. Fazíamos muita leitura. Quando você ia para congressos da UNE, muitas livrarias se formavam ao longo do local do congresso exatamente para troca de informações. Tinha tudo quanto era livro, “ABC do Comunismo”, “A Revolução Russa”, livros de Lênin e Marx eram os mais expostos na época.

IDD: DE QUANTOS CONGRESSOS VOCÊ PARTICIPOU?

Paulino: Eu participei de três congressos da UNE: no Rio de Janeiro, Campinas e Piracicaba. No de Piracicaba acho que foi o mais conflitante, porque havia um temor que o presidente da UNE na época, o Javier Alfaya fosse preso. Ele era de nacionalidade espanhola, e apesar de naturalizado, havia esse receio de que ele pudesse ser preso e expulso do país. Foi assim um congresso muito tenso, que havia comentários dessa possibilidade. Agora, no mais, era muita rivalidade nesses congressos… a briga entre PT e PCdoB… quem conseguia eleger o presidente. Aqui no Amazonas, essa rivalidade era grande… tinha o PCB, mas, que no geral, se aliava ao PCdoB. A diretoria que eu participei, a Vanessa Grazziotin era presidente, o Lino Chíxaro, que era do PCB, era o vice-presidente. Nós tínhamos, então, essa, digamos, coligação. Eram os parceiros preferidos nas nossas coligações. Agora, PCdoB e PT era impensável esse tipo de união.

IDD: QUAIS SÃO SUAS MEMÓRIAS DA ELEIÇÃO DA SUA CHAPA NO DIRETÓRIO?

Paulino: Na nossa eleição – o Edson presidente e eu, vice-presidente -, o PT não conseguiu formar chapa. Então a principal chapa adversária nossa foi uma chapa de direita formada e apoiada pela Reitoria. O candidato deles era o Janjão, esse que foi deputado estadual. Paulo Jacob era presidente do Centro Acadêmico de Direito. O Érico Desterro, que é conselheiro do Tribunal de Contas, era o porta-voz deles, sempre teve uma eloquência, um bom discurso. Nós tivemos um debate no auditório Dr. Zerbini, onde o Janjão simplesmente não conseguiu falar nada. Tiveram que destacar o Érico para representar a chapa. O Janjão saiu pela lateral do prédio e sumiu do debate.

IDD: UM DOS GRANDES MOVIMENTOS QUE OCORRERAM NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1980 EM MANAUS FOI O REALIZADO PELOS ESTUDANTES NA PRAÇA DA MATRIZ CONTRA O AUMENTO DO VALOR DA TARIFA DE TRANSPORTE COLETIVO, EM 1983. VOCÊ PARTICIPOU?

Paulino: Sim, participei. E esse movimento, a força mesmo foi dos estudantes. Eu lembro que no dia dessa manifestação, desde de manhã começou o processo de mobilização lá no campus da UA. Eram uns aumentos absurdos nos preços das passagens de ônibus. Então a mobilização saiu da universidade para fora. Os estudantes se mobilizando, preparando faixas dentro da universidade, cartazes. Após o almoço, os estudantes começaram a pichar os ônibus contra o aumento da passagem. Isso no dia do ato público. Inclusive, um grupo de estudantes que tinham carro, descemos de carreata para a Praça da Matriz. E como a insatisfação era muito grande, não apenas dos estudantes, mas da população em geral, o ato que começou com um grupo de estudantes foi crescendo. E aí, a população insatisfeita começou a aderir.

IDD: O LOCAL DESSE ATO PÚBLICO FOI ESCOLHIDO PROPOSITALMENTE?

Paulino: Foi estratégico nós fazermos o ato ali porque era a estação central dos ônibus. E, na época, era muito maior, porque todos tinham que ir para ali. Não havia terminais. Ali era a concentração de todo mundo que saía das escolas. Quem saía do seu trabalho tinha de vir para o Centro para pegar outro ônibus. O foco era ali. E cresceu mais ainda com a presença ostensiva da polícia. Houve muitas reuniões antes desse ato público da Matriz. Eu lembro que o ponto de concentração era no DU. A sede era ali na Epaminondas. E ali eram reuniões frequentes. Nessa época do movimento estudantil todo dia tinha reunião.

IDD: VOCÊS ESTAVAM PREPARADOS PARA A REPRESSÃO VIOLENTA DA POLÍCIA NAQUELE DIA?

Paulino: Não estávamos preparados para um enfrentamento com a polícia. Pessoalmente eu não tenho essa lembrança que houvesse essa preocupação de que poderia haver esse confronto e redundar no quebra-quebra de ônibus. Na época se dizia o seguinte, que além da insatisfação, havia agentes da Polícia Federal infiltrados para causar mesmo o caos e prender e identificar pessoas que pertenciam a partidos políticos. Na época se podia prender e fazer um monte de coisas. Então o enfrentamento… com um grupo grande, a população em um número expressivo de pessoas no ato, os próprios oradores eram estimulados a fazerem aqueles discursos mais inflamados.

IDD: EM ALGUMAS FOTOS DE JORNAIS DA ÉPOCA, DÁ PRA VER UM CONTINGENTE GRANDE DE POLICIAIS. VOCÊ SE LEMBRA DO QUE FOI UTILIZADO PARA REPRIMIR OS MANIFESTANTES?

Paulino: O aparato policial era grande. Era a Polícia Militar, a Polícia de Choque, que era a mais preparada para baixar o cacete (risos), policiais fortes… eu sei que ao escurecer começou o quebra-quebra. Com os discursos inflamados e essa orientação de que nós desceríamos, aí a polícia começou a fechar… a ideia era sair da Matriz, pegar a Eduardo Ribeiro, Sete de Setembro… esse era o itinerário mais fácil e também para causar caos no trânsito. Então quando a polícia proibiu, fechou mesmo o cerco, aí os estudantes e os populares começaram a correr. Na Sete começaram os primeiros quebra-quebras de ônibus. Na época não tocaram fogo, eu não lembro. Mas, muito quebra-quebra. Eu particularmente corri para o lado da Assembleia, na praça da Prefeitura. Ali estava tendo um quebra-quebra geral mesmo. Nós do movimento estudantil, da diretoria do DCE, não tínhamos a orientação de rotas de fuga em caso de cerco policial. Agora, não posso te dizer se, no núcleo dos partidos políticos, houve essa orientação.

IDD: E DA CLASSE POLÍTICA, QUEM APOIOU ESSE ATO?

Paulino: Do geral, políticos que participavam… o João Pedro era deputado estadual, era do PMDB, mas ligado ao PCdoB. Félix Valois era deputado estadual. Mário Frota, deputado federal. O Arthur Neto era deputado federal já na época… participava, mas não era com uma presença tão intensa. Mas, nunca se negou a apoiar os movimentos. Fábio Lucena?!… Lucena foi mais para o período de 80, 81. Nessa de 83, os que participavam eram esses que eu já falei… Aparecia esporadicamente Samuel Peixoto, Messias Sampaio. Tinha vereadores… Paulo França, Antônio Lira… eram os que mais apoiavam.

IDD: VOCÊ FOI ESPANCADO NESSE MOVIMENTO NA PRAÇA DA MATRIZ?

Paulino: No quebra-quebra de 83 eu vi agressões, mas não contra companheiros. Mas, alguns foram presos, mas, que eu saiba não foram agredidos. A DOPS na época era ali na Praça da Matriz, onde foi a Urbam… agora está só escombros, está abandonado, naquela área do Porto ali. Eu sei que o Sávio, da Uesa, foi para lá, não sei se o Tasso foi preso… Eu fui preso dois dias depois numa reunião que tivemos no ICHL, junto com o professor Paulo Monte, professor Frederico Arruda e os estudantes João Jaburu e Maciel, da Pedagogia. Os policiais tentavam intimidar o movimento… “vamos prender aqui uma meia dúzia e enquadrá-los”…, mas aí o efeito foi inverso. Manifestação da sociedade, na época o arcebispo de Manaus, Dom Milton, era muito ouvido, muito respeitado, saiu a favor dos estudantes. A OAB manifestava suas posições, a Igreja… então isso também fortalecia o movimento e enfraquecia a repressão.

IDD: DIAS DEPOIS DESSE COMBATE NA PRAÇA DA MATRIZ, HOUVE UMA TENTATIVA DE SE CONVERSAR COM O GOVERNADOR GILBERTO MESTRINHO PARA CHEGAREM A UMA SOLUÇÃO. VOCÊ ESTAVA LÁ TAMBÉM?

Paulino: Eu não participei da reunião que aconteceu no Palácio Rio Negro. Eu lembro do fato, mas… eu não sei se foi a Vanessa ou o Edson quem representou o diretório… não, não, quem representou o diretório foi a Gina Gama. Na verdade, essa reunião já era mais para pacificar. Não era uma reunião que buscava intensificar o confronto. Já era uma negociação para ver se chegava a um consenso, algum tipo de vitória. Tinha o barulho, tinha o auê, mas nós queríamos conquistar alguma coisa para demonstrar a organização e a força dos estudantes e da sociedade.

IDD: POR FALAR EM GILBERTO MESTRINHO, HAVIA UMA RELAÇÃO COMPLICADA DELE COM O PCDOB?

Paulino: A relação do PCdoB com o governador Gilberto Mestrinho era de amor e ódio. Sabia bater. O primeiro ato dele após essa manifestação foi publicar uma nota na TV e na imprensa com nomes e codinomes, demitiu companheiros que trabalhavam no Governo do Estado. Ele batia, mas sabia também conciliar. Sabia atender aos pleitos. Era guerra e paz ao mesmo tempo. Quando ele tinha que bater, ele batia. Quando nós tínhamos que bater, nós batíamos. No geral, nós éramos os mais agressivos, porque era uma exigência da sociedade em relação a muitos aspectos. Mas sabíamos conviver. Por exemplo, quando a gente tinha que pleitear alguma coisa a favor do movimento estudantil, fazia… eu não lembro de concessão. Claro, numa mesa de negociação, você tem que perder alguma coisa, tem que abrir mão de alguma coisa. Mas, concessão para facilitar a vida dele, eu não lembro de ter feito isso.

IDD: MAS O “BOTO” TAMBÉM AJUDAVA BASTANTE O MOVIMENTO, PRINCIPALMENTE QUANDO HAVIA CONGRESSOS ESTUDANTIS FORA DO ESTADO. VERDADE OU MENTIRA?

Paulino: Eu me lembro de apoios do Gilberto para o movimento estudantil fundamentais e importantes. Congressos da UNE, que naquela época os congressos tinham uma feição muito das lutas democráticas. Ao mesmo tempo em que brigava pela universidade pública gratuita, o fortalecimento das universidades, o pleito era muito a favor das liberdades, do retorno da democracia. O Gilberto sempre ajudou e apoiou… Congressos da UNE, por exemplo, você sair de Manaus com 50, 70 estudantes, se não tivesse apoio do poder público, dificilmente conseguiria. E no meu período que participei do DCE, sempre contribuiu com caravanas de estudantes. O primeiro Festival Universitário de Música dentro da Ufam, que tinha premiações valiosas, a estrutura tinha que ser grande, eu lembro do apoio que o Governo do Estado deu foi expressivo. Gilberto também sempre ajudava o Restaurante Universitário. Numa época em que o restaurante quase fecha, houve campanhas, estudantes foram às ruas, nas esquinas, pedindo apoio financeiro, o governo ajudou…. Hoje, por exemplo, o transporte coletivo: Governo do Estado libera o ICMS para o diesel. Na época o Governo do Estado fez algum tipo de concessão que ajudava na manutenção do restaurante. Governo do Estado e Prefeitura ajudavam.

IDD: VOCÊ CITOU O FESTIVAL DE MÚSICA. TEM LEMBRANÇAS DOS FESTIVAIS DA UNIVERSIDADE?

Paulino: Sobre os festivais de música… Nossa gestão – o Edson, eu, Levino, Durango, Omar, Vanessa – foi quem deu o toque no sentido de trazer o festival para dentro da universidade. Porque o primeiro festival universitário tinha sido no Olímpico, em 82. Aí o segundo já foi no antigo ICHL, na Emílio Moreira, em 83, ainda um negócio pequeno. Já o terceiro, que foi no Campus, aí sim o festival explodiu, tornou-se um negócio grandioso, isso em 1984.

IDD: E COMO ERA SUA ATUAÇÃO NO PCDOB?

Paulino: No PCdoB, quando eu ingressei, era secretário político na área dos estudantes. Eu fiquei no movimento estudantil, não concluí meu curso de Agronomia, fiquei na universidade até 84. Depois que saí do DCE, eu recebi uma tarefa de organizar o PCdoB no movimento popular no bairro do Coroado. Eu fui morar no Coroado. Ingressei numa das organizações mais importantes do movimento popular em Manaus, que era o Coroado. Tinha uma estrutura muito boa. Tem uma entidade chamada CDCC (Conselho de Desenvolvimento Comunitário do Coroado). Eu fui morar no Coroado para atuar nesse movimento. Dois anos depois eu fui presidente, onde fiquei por quatro anos lá.

IDD: É VERDADE QUE VOCÊ AJUDOU NA FUNDAÇÃO DO BAIRRO ZUMBI DOS PALMARES?

Paulino: Com outros companheiros, nós organizamos a criação do bairro Zumbi dos Palmares, em 86, com um grupo de companheiros do PCdoB que organizou aquela invasão. Era um negócio pequeno, para cerca de 300 famílias. Depois virou uma cidade. Nós do PCdoB organizamos o Zumbi, inclusive teve um alagoano, o geógrafo Paulo Vicente, que sugeriu que nós homenageássemos Zumbi. Na época fizemos uma assembleia com um grupo de moradores para definirmos o nome. Tinha uma novela que tinha um personagem chamado Sassá Mutema, e queriam porque queriam botar esse nome (risos). Nós nos desdobrando para valorizar e explicar quem era Zumbi do Quilombo dos Palmares (risos). Eu sei que aprovou Zumbi.

IDD: MAS HOUVE CONFRONTO NA CRIAÇÃO DO ZUMBI?

Paulino: Uma senhora chamada de irmã Helena liderava uma invasão no bairro São Sebastião, no Aleixo. Mas ali houve confronto e foi longa a ocupação, demorou muito. E como para nós interessava ter um grupo grande – o que nós tínhamos era pequeno para ocupar o Zumbi -, alguns companheiros nossos foram por trás da irmã Helena, sem ela saber, e falaram para o pessoal que nós estávamos organizando uma invasão na frente do São José Operário e dizendo que lá tinha muita terra. E um grupo veio. Só que essa nossa área era uma área pequena, ficava entre duas áreas de religiosos: uma área pertencente aos salesianos e a outra, às irmãs maristas. Era uma área pequena, devoluta, pertencia ao Estado. Só que a área que tinha era imensa. E tinha uma parte que pertencia ao Paulo Farias, que era dono de imobiliária, dono de grandes terras aqui, e a irmã então depois viu que vingou a ocupação lá do Zumbi… ela levou esse grupo que estava tendo dificuldades, levou para a área de prosseguimento do Zumbi. E lá houve confronto, inclusive a morte de uma pessoa.

IDD: COMO VOCÊ VÊ O MOVIMENTO ESTUDANTIL DE AGORA?

Paulino: Hoje existe movimento estudantil, mas dentro de outra realidade. Acho que cada momento tem uma forma de atuação. Aquele nosso papel de reivindicar, denunciar, foi importante. Mas hoje tem, de maneira diferente, com menos barulho. O que os estudantes não podem perder é o seu poder de reivindicar, de contradizer. Você não pode ser omisso. Acho que você tem que passar na universidade sendo um bom estudante, se esforçar para ser um grande profissional, mas não pode ser omisso e indiferente aos problemas da sociedade.

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