Entrevista com Neliton Marques

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Ele foi um dos pioneiros do curso de Agronomia da Universidade do Amazonas. Fundador do Cuca (Centro Universitário e Cultural de Agronomia), foi militante estudantil ligado ao PCdoB numa época em que seu pai preferia um filho morto a comunista. O professor Neliton Marques é o entrevistado do IDD.

IDD: Professor, antes de tudo, vamos às apresentações iniciais: quem é Neliton Marques?

Neliton: Eu me chamo Neliton Marques da Silva, sou amazonense, nascido em 1956 na cidade de Manaus. Cresci na avenida Joaquim Nabuco e morei durante 22 anos na 1.340, uma casa geminada ali próximo do Hospital da Beneficente Portuguesa. Era de uma família classe média. Meu pai era engenheiro agrônomo e eu trabalhava como auxiliar de desenhista arquitetônico, no escritório do Severiano Mário Porto, lá na Ramos Ferreira. Era uma época em que o pai queria que o filho aprendesse um ofício e ele me levou para lá com 13 anos. Com 14 anos eu fiquei lá durante o período que eu estava fazendo o ginásio lá no Colégio Brasileiro e acabei me identificando com a Arquitetura. Pelo fato de estar fazendo estágio lá, minha primeira opção seria fazer Arquitetura. Só que naquela época não tinha o curso de Arquitetura em Manaus. O curso que mais se aproximava seria o de Engenharia Civil.

IDD: E aí vem o ingresso na Universidade do Amazonas…

Neliton: Sim. Em 1975, tentei Engenharia Civil no meu primeiro vestibular, mas não consegui passar. E quando foi em julho de 1976, talvez por um pouco de influência do meu pai, que era engenheiro agrônomo, eu fiz o vestibular para Engenharia Agronômica. Passei em julho de 76 e me formei em agosto de 1980. Foi exatamente nesse período que eu conheci e passei a fazer parte da militância estudantil. Ele é marcado entre os anos de 1976 a 1980, e, depois, já como professor da universidade, a partir de 81. Nesse período, vivíamos ainda na ditadura militar, era Geisel já em transição para o presidente Figueiredo, portanto, em plena ditadura. Vivia-se os anos da distensão lenta, gradual e progressiva. Era um momento de muita exceção ainda.

IDD: E como era essa exceção dentro da UA?

Neliton: Ainda vivíamos sob o decreto 477, que proibia aluno de participar de atividades políticas. Então havia todo um cerceamento. Partidos de esquerda estavam proscritos. Um deles era o PCdoB. E nessa época eu conheço alguns colegas que entraram, que faziam Agronomia, como, por exemplo, o João Pedro, o Eronildo (que hoje é professor da universidade, já foi secretário). E eu ajudei na época a fundar o primeiro centro acadêmico, que era o Centro Universitário e Cultural de Agronomia, o Cuca, se não me falha a memória, em 1977 ou 1978, mais ou menos por essa época.

IDD: Você já estava no PCdoB nesse momento?

Neliton: A gente criou o Cuca e na época eu já me identificava com a causa ambiental. Ainda não fazia parte do PCdoB, mas a convivência com os colegas que já tinham certa ligação com o partido, acabou por fazer eu me identificar com a linha programática, com aspectos ideológicos e os princípios que gravitavam em torno da proposta do PCdoB. Mas a minha militância maior se deu no âmbito da área ambiental.

IDD: Você sempre militou pela causa ambientalista?

Neliton: Nós usávamos de certa forma a fachada do movimento ambientalista como mecanismo de participação política, já que nos mostrar como militantes de um partido proscrito, um partido ilegal, significava prisão, tortura, todo um processo de repressão que havia na época. Eu comecei a militar e ajudei a fundar, em 1978, a Amapam – Associação Amazonense de Proteção Ambiental. Depois participei da direção, depois teve o Chico Braga. Então vivia-se nos anos em que a gente se manifestava contra a internacionalização da Amazônia, contra o projeto Jari e pela valorização dos povos indígenas. E nós atuávamos junto com o pessoal do Grupo Cucuro de apoio à causa indígena, que ficava sediado na avenida Joaquim Nabuco. Era aonde nós tínhamos espaço político para as nossas discussões e a nossa militância. Usávamos, de certa forma, duas organizações: a Amapam, da qual eu participava mais ativamente, e, no âmbito da militância estudantil, o Cuca. Eram esses dois abrigos que usávamos… hoje se diria que “se aparelhava”. O Cuca foi o primeiro centro acadêmico e tinha um poder mobilizador, porque vivia-se um momento de restrição das liberdades democráticas, e o Cuca era o canal de mobilização estudantil para as principais reivindicações.

IDD: E qual foi a primeira grande movimentação do Cuca?

Neliton: O Cuca liderou a primeira greve estudantil na universidade, em 1978 ou 79, quando nós afastamos o chefe do Departamento de Ciências Agrárias, professor Evandro Graça. O movimento entendeu que ele não atendia ao padrão mínimo de qualidade como docente, como dirigente, como administrador e estava nos prejudicando. No entendimento que se tinha ele não atendia aos anseios e aos interesses do setor estudantil. Nós nos mobilizamos, foi uma luta política, e conseguimos afastar. Na época o reitor era o professor Mourão. Foi a primeira greve vitoriosa dos estudantes.

IDD: Como era a convivência das correntes ideológicas que existiam na universidade nesse período?

Neliton: Nessa época havia dois grupos que se digladiavam: os trotskistas e os marxista-leninistas. Eram basicamente esses dois grupos que tinham visões e táticas de lutas diferenciadas e que, no acirramento do processo, de qual era o melhor encaminhamento, eram nítidas as divergências no processo, as discussões políticas. Como eu falei, a minha militância orgânica se dava fortemente na área ambiental. Então, particularmente, eu me colocava mais como um simpatizante do PCdoB. Só que isso, para as forças de repressão… isso não existe. Naquela época, ou você era vinculado ou participava, uma vez que a gente era monitorado pelas forças de repressão. Eu me lembro de um episódio em que mandaram uma carta anônima lá para casa, foi meu pai quem abriu essa carta e ficou assustado. E ele me perguntou: “Você é comunista?”. A família não sabia dessa minha militância.

IDD: Como foi a reação da família ao descobrir que você era militante de esquerda, por meio de uma carta?

Neliton: Para a minha família foi um choque essa situação da carta porque era uma família classe média, de inspiração não conservadora, mas liberal. Lembro que meu pai dizia que ele preferiria ter um filho morto a ter um filho comunista. Meu pai era bem conservador. Então, para ele foi um choque quando ele soube que eu estava envolvido na militância estudantil. E eu não me assumia como comunista, me assumia como ambientalista, com forte sensibilidade para as causas sociais e ambientais. Era assim que eu me colocava e assim que eu militava, e isso acabou marcando toda a trajetória ao longo da minha história de vida.

IDD: E a carta tinha remetente?

Neliton: Eu lembro que essa carta era assinada por um grupo chamado Falange Pátria Nova [grupo paramilitar de direita], dizendo que eu era vinculado a uma organização internacional sob a orientação de Babrak Karmal [fundador do Partido Democrático Popular do Afeganistão, de ideologia marxista-leninista], que as forças de repressão identificavam como comunista e que tinha suas ramificações no Brasil, e cuja uma das células eu participava. A Falange Pátria Nova tinha elementos infiltrados no movimento estudantil e no corpo docente. Eu comecei a receber essa primeira carta, veio uma segunda mais incisiva, já ameaçando. Outros também receberam. E nessa segunda investida eu fui obrigado a enterrar alguns livros que eram considerados livros proscritos, ilegais. Por exemplo, a “Dialética da Natureza”, de Engels, “O Estado e a Revolução”, de Lênin. Esse material a gente conseguia clandestinamente pelo próprio partido, que viabilizava a aquisição desses livros… “O Capital”, de Marx… enfim, que eram livros tidos como subversivos. Eu lembro que botei em um saco plástico e reforcei com outro saco plástico e enterrei. Marquei o local e tudo (risos). Depois recuperei e tenho até hoje alguns deles. Porque eu marquei o local. Eles foram muito bem embalados… as traças não conseguiram passar pela barreira (risos).

IDD: Com esse fato você pensou em desistir da militância?

Neliton: Não. Ao contrário: esse episódio marcou bastante porque, em vez de significar um acovardamento, ele me fez reafirmar minhas convicções de que era necessário lutar cada vez mais. E aí foi quando eu comecei a participar mais fortemente das ações do centro acadêmico, comecei a me envolver mais com a direção mesmo do Cuca e isso foi até o período que eu me formei, em 10 de agosto de 1980.

IDD: Você participou de alguma administração do Diretório Universitário?

Neliton: Não cheguei a participar diretamente do Diretório Universitário, só do Cuca, como vice-presidente do Chrisólogo. Inclusive, foi o próprio Chrisólogo quem me alertou quanto a essa perseguição, porque o pai dele era militar. E é muito interessante porque, quando foi em 1982, eu me casei com a Vera Helena, que também militava no movimento estudantil e também era simpatizante de algumas causas. E eu lembro que ela teve o currículo e a indicação preterida porque a ficha dela estava vinculada à figura do Neliton, que, para as forças de repressão, estava fechado com os comunistas. Eu lembro que ela tinha conseguido um emprego numa empresa de telecomunicações ligada ao Governo Federal. E ela não foi selecionada. Teve o nome dela rifado por causa do vínculo matrimonial comigo.

IDD: O episódio das cartas, de certa maneira, deixou você ressabiado. Você passou a ter mais cuidado ainda?

Neliton: Havia todo um clima de perseguição e de monitoramento dos nossos movimentos que, de certa forma, se não inibia, ele gerava em nós certa cautela nas ações. Então, tínhamos alguns cuidados, alguns códigos que a gente usava para poder fazer. Meu comportamento beirava entre a cautela e a paranoia. Nós estamos falando de uma época em que não tinha o instrumento do uso do celular. Nossa comunicação era feita basicamente na base do pé de ouvido. Esse era um elemento fundamental. A gente se reunia sempre em locais nunca repetidos, tinha essa questão.

IDD: Como vocês se despistavam do monitoramento?

Neliton: Nós realizávamos eventos de fantasia, tipo torneio de jogo de futebol. Nós fazíamos o torneio, mas o objetivo não tinha nada de recreativo. Outro exemplo: fazer um seminário para discutir a melhoria do curso de Agronomia. Em muitos dos seminários o que se tratavam eram as questões políticas. E as questões mais organizacionais, isso já era traçado em ambientes mais restritos, com certo cuidado com determinadas figuras que nós suspeitávamos serem “olheiros”. Havia muitos infiltrados. Eram “olheiros” que depois a gente acabou constatando que estavam ali realmente para monitorar e repassar a informação. Mas nunca cheguei a ser preso. Meu único momento de tensão foi esse fato que eu citei, as ameaças, ameaças inclusive de sequestro e coisas assim que fizeram com que eu aprimorasse mais os cuidados com a minha segurança física.

IDD: Havia apoio do corpo docente da UA à militância?

Neliton: Os professores da Agronomia eram majoritariamente todos de fora, principalmente de Minas Gerais. O grosso dos professores era de Minas Gerais e uma pequena parcela de São Paulo. Então eram professores que foram formados num ambiente conservador. Estou falando da universidade de Viçosa, de Lavras, da Esalq [Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo] … eram escolas dentro de um ambiente extremamente conservador, que achava que aluno era para estudar e não para participar de atividades políticas. Eles nos consideravam como um grupo rebelde, um grupo do contra… usavam esse termo, até chulo: “Lá vem a turma do contra”. Incomodava o fato dos estudantes de Agronomia serem extremamente politizados. Era nítido isso. Nós não tínhamos no contexto do corpo docente um apoio politicamente explícito. Havia alguns professores um pouco mais liberais que de certa forma nos apoiavam, mas de forma extremamente tímida. De um modo geral, eles tinham uma postura de rejeição.

IDD: O Cuca era procurado por alunos de outros cursos para fazer reivindicação de melhorias?

Neliton: Como o centro acadêmico de Agronomia era o mais organizado e mais articulado, naturalmente eles exerciam uma liderança no contexto do movimento estudantil. Tanto que a direção do Diretório Universitário foi fortemente influenciada e até mesmo dirigida por estudantes da Agronomia. O Eronildo esteve à frente do Diretório Universitário. O João Pedro também. Então, havia sim essa conexão dos estudantes de outros cursos, principalmente do curso de Engenharia Civil. Um dado importante é que o curso de Agronomia foi criado junto com outros dois cursos: o de Geologia e o de Estatística. Só que o curso de Agronomia, pelo perfil dos estudantes que faziam parte na época, eram pessoas de diferentes lugares da região amazônica, ele acabou por capitanear todo um processo de insatisfação no contexto da própria universidade, que vivia sob a égide da ditadura: reitor indicado pelo governo militar, dentro da reitoria tinha o SNI instalado lá dentro, com figuras que faziam todo esse trabalho de monitoramento do setor estudantil e de professores.

IDD: E pelo lado da direita, qual curso batia de frente com o Cuca?

Neliton: O curso de Direito era o que possuía o perfil mais de direita e que entrava em choque conosco. Era nitidamente um curso com tendências conservadoras. Claro que você tinha algumas exceções ali dentro, mas era um curso que a gente tinha muita dificuldade de interagir. Lembro-me de algumas assembleias que nós realizamos, principalmente durante a campanha, a enorme dificuldade que a gente tinha. Na época, o curso de Direito funcionava na “Jaqueira”, lá na Praça dos Remédios, e eu me lembro de uma cena em que os alunos de lá proibiram a gente de fazer panfletagem. Tem uma escadaria. Vedaram a escadaria e não permitiram que a gente fizesse campanha nas salas de aula. Para ver a que grau chegava o acirramento das posições políticas que traduziam aquele momento, aquela pluralidade de ações. Eu considero que foi uma época muito rica de aprendizado de crescimento político. Uma formação política importantíssima e que acabou moldando a formação profissional e intelectual de muita gente.

IDD: Quais eram as principais lideranças da época?

Neliton: Desse tempo eu me lembro de algumas figuras que eram referências. Tinha o Vicente Filizzola que era líder do movimento secundarista. Tinha o Públio Caio, o Raimundo Cardoso, o João Pedro, o Eronildo, o Francisco Braga, o Chrisólogo, o George Tasso, Arminda Mourão, que era filha do reitor, foi militante, participou ativamente do movimento. Eram figuras expressivas no movimento e que passaram a ser referências. A Gina Gama, a Vanessa Grazziotin, a Selma Barçal… essa turma que, no conjunto, liderava esse processo nos diferentes cursos. Lamento que isso se perdeu bastante…

IDD: Você é da primeira turma a se formar no curso de Agronomia?

Neliton: Sim. Em agosto de 1980 forma a primeira turma de Agronomia, uma turma de cinco alunos. Então, os primeiros cinco agrônomos. Éramos eu, o Francimar, que hoje é professor da UFAM, a Marinice Cardoso, que era a única mulher dessa turma que se formou – hoje ela é pesquisadora da Embrapa –, o João Trajano, que mora hoje em Rondônia, e o José Neves, da Ceplac [Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira], que está na Bahia. De uma turma de trinta, formaram-se cinco. É interessante porque a história do curso de Agronomia começa em 1909, junto com a criação da universidade, e encerra em 1942. Meu pai foi da última turma da primeira safra e eu sou da primeira turma da segunda safra… e aí é recriado o curso de Agronomia. Aí, em 1981 eu entro na universidade como professor colaborador e em 1982 eu entro como professor do quadro.

IDD: E com isso vem a militância na Associação dos Docentes da UFAM, a ADUA?

Neliton: Sim. Cheguei a participar de processos de eleição, montei uma chapa, concorri com o saudoso professor Silvério Tundis, mas a nossa chapa não ganhou. Lembro-me que foi uma eleição bastante polarizada. Era o final dos anos 80. Eu era coordenador de um projeto chamado Projeto Coari. O professor Silvério Tundis também militava já na ADUA… um processo normal dentro da pluralidade de visões políticas. E a gente entendeu que devíamos montar uma chapa, só que a nossa chapa não logrou êxito.

IDD: A ADUA atuava com a classe estudantil nas manifestações pela meia-passagem do transporte coletivo?

Neliton: Não, a ADUA não teve uma posição proativa na luta pela meia-passagem. Ela foi mais de coadjuvante nessa luta. A luta pela meia-passagem foi fortemente calcada no movimento secundarista com o envolvimento do DU.

IDD: Mas, segundo os jornais da época, a ADUA teve que se sair em defesa de um professor que foi acusado de estar armado com uma espingarda na manifestação da chamada Batalha da Matriz, ocorrida em setembro de 1983 na Praça 15 de Novembro, no Centro. Você se recorda de alguma coisa?

Neliton: Sobre o caso do professor Fred Arruda ter comprado uma arma, no ato público de setembro de 83…. Foi um caso isolado, não necessariamente vinculado à ADUA que estava em seu primórdio, nascendo. Havia uma disposição dos professores de se organizarem, de ter um espaço político de articulação e de organização. E o professor Fred Arruda liderava, na época, um interessante movimento que era o Projeto Jaraqui, um espaço público de articulação, de discussão em praça pública. O Fred sempre esteve vinculado, sempre militou na área ambiental – ele é professor do ICB, Instituto de Ciências Biológicas. O campo de estudo dele sempre foi até hoje as plantas medicinais. Ele adentrava na floresta para coletar o material botânico, para os seus estudos farmacológicos, plantas bioativas e usava isso [a espingarda] por uma questão meramente de segurança. Então, num ato de delírio, o Gilberto Mestrinho polarizou, colocando isso como uma ameaça… já tinha até o número da arma publicado no jornal.

IDD: Então quer dizer que o governador Gilberto Mestrinho tentou incriminar o professor Fred Arruda?

Neliton: A questão é que o Fred liderava esse projeto, que, na verdade, usava “projeto” como um nome de fantasia. Tratava-se realmente de uma tribuna de discussão sobre diferentes temas, que acontecia todo sábado de manhã na Praça da Polícia, naquele coreto. Era um microfone, uma caixa de som. Elegia-se ali o tema e se chamava um expoente. Lembro que participou o professor Warwick Kerr, do Inpa, a professora Martha Falcão. Eu mesmo participei, na época, pela Amapam, e falava sobre diferentes temas… Projeto Jari, problemas da arborização da cidade de Manaus… Enfim, sobre vários temas que eram abertos ao público. E isso acabou incomodando o Gilberto, porque lidava com questões que incomodavam o governo democrático do Mestrinho dos anos 80, que o PCdoB, na época, apoiou.

IDD: Como era essa relação do Gilberto Mestrinho com o PCdoB nessa época?

Neliton: A relação do Gilberto com o PCdoB era de morde e assopra. O Sávio, num dos comícios, era o animador, que puxava o comício… O Sávio era ligado ao partido… então já era uma posição explícita de aliança, numa época que o partido não tinha espaço, era proscrito, era ilegal… estou falando aí de 82…. Tanto é que o João Pedro foi eleito deputado estadual pelo PMDB, ele sendo do PCdoB. Naquela época, a leitura que se fazia era essa. Não havia espaço para você respirar, uma vez que o partido era ilegal, clandestino. Então o que se tinha como espaço que possibilitava certo arejamento de ideias e de discussão? Era o PMDB, que na época era MDB, que reunia todas as correntes… era o “partidão”. Não o “Partidão” do PCB, mas um grande guarda-chuva que albergava diferentes correntes políticas internamente: estavam os trotskistas, estavam os marxistas, convergência, Libelu [Liberdade e Luta: corrente de inspiração trotskista] e por aí vai (risos). É inegável que o Gilberto era muito hábil. Ele se utilizava do oportunismo político para trazer essas forças para apoiar determinados projetos, mas, isso tinha limites. E esses limites… O Gilberto era intolerável. Não podemos nos esquecer de que, embora ele tenha sido eleito o primeiro governo democrático pós-regime militar, ainda estávamos na ditadura.

IDD: E hoje, existe movimento estudantil?

Neliton: Eu vou dizer que não. Movimento estudantil, nos moldes que foi o movimento estudantil dos anos 70 e dos anos 80… Hoje o movimento estudantil perdeu o seu foco. Eles estão fortemente aparelhados por partidos, com foco não na agenda estudantil, mas na questão mais de aparelhamento, de atendimento de agendas pouco estruturantes. De um modo geral, o movimento estudantil hoje perdeu o foco. Não se tem uma bandeira que aglutine, que passe a ser uma força propulsora de liderança, de grandes bandeiras, com agendas bem claras e específicas no contexto ambiental, no contexto político, no contexto da própria agenda acadêmica. Então, eu acho que eles perderam o foco. A nossa luta, na época, era uma luta de caráter fortemente ideológica. A militância se dava baseada em uma pauta. Causas que considerávamos nobres e que por elas a gente lutava. Talvez hoje possam analisar isso como certa ingenuidade, dizendo que nós éramos uns idealistas, sonhadores. Talvez sim, mas, tínhamos um elemento norteador e motivador que nos engajava a canalizar toda a nossa energia para lutar por uma causa, que não tinha como objetivo a questão do “se dar bem”. Hoje, e eu falo isso como docente, observando a trajetória do movimento estudantil na universidade, eu noto isso claramente: o elemento que mobiliza o estudante é o elemento fortemente oportunista. Agregar para poder criar canais que me favoreçam no plano pessoal. Para uso político, mas não no sentido aristotélico, da democracia grega. O uso é político do ponto de vista individualista, das coisas mequetrefes.

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