Entrevista com Michelângelo Botto

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Ele foi líder estudantil secundarista entre as décadas de 1970-80. Integrou a diretoria provisória que reestruturou a Uesa no fim da ditadura militar, foi preso algumas vezes e chegou a ser espancado pela polícia dentro da igreja São Sebastião, em repressão a um ato público pela meia-passagem. O IDD entrevista o jornalista e advogado Michelângelo Botto.

IDD: Você nasceu no Rio de Janeiro, capital, e veio para cá em meados da década de 1970. Onde você estudou em Manaus e quando iniciou sua atuação no movimento estudantil?

Botto: Eu vim para Manaus em 1974 quando meu pai foi transferido do Rio de Janeiro para cá. Ele é funcionário público federal, hoje está aposentado como procurador do INSS, Dr. Joaquim Botto. Iniciei minha atividade no movimento estudantil secundarista no dia 30 de dezembro de 1978. Foi exatamente no movimento em que ia ocorrer uma caminhada cívica na Igreja Matriz. Na época eu estudava no Ida Nelson. Estava na 6ª série e tinha treze anos de idade. Houve uma convocação para essa caminhada cívica que iria haver em defesa da Amazônia, no dia 30 de dezembro de 1978. Antes dessa data, eu já tentava passar para os meus colegas de colégio que naquele período do regime militar nós tínhamos que fazer alguma coisa para combater e tentar reverter esse quadro para um sistema democrático.

IDD: Então antes mesmo da participação nessa caminhada, você já tinha essa consciência de luta estudantil pela democracia?

Botto: Eu já tinha isso em mente porque meu pai sempre me passava aqueles jornais “Pasquim”, eu lia muito o “Jornal do Brasil”. Então eu comecei a ter conhecimento através do meu pai, pela formação que ele tem e me passava, e também a curiosidade que eu tinha em tentar reverter essa situação. Até porque eu era um adolescente que sempre liderei de alguma forma. Aos treze anos de idade a primeira coisa que eu fiz foi estudar um pouco o que estava acontecendo para poder repassar aos colegas. Isso eu tentava, pelo menos dentro da sala, logo no 6º ano. É claro que era um período também onde o próprio colégio Ida Nelson tinha um quadro… acho que a diretora, não sei se o nome dela era Ivone, não me recordo bem…, mas o Ida Nelson era um sistema muito duro. Para você entrar na escola, tinha que entrar no horário. Para você sair, a mesma coisa. Eu comecei a me rebelar em algumas situações, fui até chamado na direção da escola.

IDD: E como era, naquela época, ser um rebelde com causa dentro de um colégio tradicional e linha dura?

Botto: Não posso afirmar com certeza qual era a linha ideológica do Ida Nelson na época, mas eu acredito que eles não defendiam muito as minhas teses. Eu era um adolescente um pouco rebelde nesse sentido aí. Dentro da sala de aula eu acho que até cheguei a brigar com alguns colegas, porque, como o Ida Nelson na época era uma escola, vamos dizer assim, de pessoas endinheiradas, e eu era de classe média… claro que meu pai era funcionário público federal e queria me colocar no melhor para estudar. Eu acabei indo para lá e estudei a 5ª e a 6ª séries. Dentro do Ida Nelson era complicado você tentar fazer qualquer movimento por qualquer tema, porque eu acho que a grande maioria de lá era ligado de certa forma ao sistema. Não tinham ainda em mente que poderia se fazer um movimento e se rebelar contra isso. Acredito até porque, pelo o que eu falei sobre a situação financeira. Eles estavam bem… então ali não deu para se fazer muita coisa. Realmente uma passagem muito pequena.

IDD: Ao que parece, essa inquietação era uma característica sua desde cedo. Tinha apoio dos seus pais?

Botto: Eu sempre fui além do meu tempo. Nunca me conformei. Qualquer coisa que acontecesse, eu queria saber o porquê. Não tinha medo de conversar com diretora, com supervisão, com coordenação de colégio. Eu tentava fazer um trabalho praticamente isolado, porque eu ainda não tinha despertado… quer dizer, despertado eu até teria despertada a questão da liderança, mas, como o colégio era particular e havia um regimento interno muito duro, eu não tive como “decolar” ainda. Mas, fora do colégio eu comecei. Meu pai me apoiava. Eu dizia para ele que estava tendo certos comportamentos de liderança mesmo, de conversa dentro do colégio. Falava para ele que estava despertando uma coisa nesse sentido. E ele apoiou, porque era um advogado também e me passava os jornais, aqueles jornais de vanguarda… eu sempre fui um leitor, desde a época que eu morava no Rio de Janeiro.

IDD: E como foi esse primeiro ato que você participou em 1978? Quais as reivindicações?

Botto: A pauta desse ato era a caminhada cívica em defesa da Amazônia, na Praça da Matriz. Então, houve uma convocação e eu fui para lá e fiquei exatamente ao lado das lideranças, os professores universitários, das pessoas que eram conhecidas e ligadas ao movimento ecológico. Existia uma ameaça de se invadir a Amazônia, e, paralelo a isso, a situação do regime militar que estava duro, acho que era o governo Figueiredo que estava iniciando. E ele em vez de abrir como tinha prometido, não aconteceu isso aí. Não aconteceu de imediato como estavam falando.

IDD: Houve repressão policial?

Botto: Nós pegamos ainda a repressão forte… o movimento na Praça da Matriz ele foi de certa forma reprimido. Não houve a caminhada cívica em defesa da Amazônia. O ato foi impedido pelas forças de segurança infiltradas no próprio movimento. O secretário de segurança da época era o coronel Oliveira Lemos e o delegado do DOPS era José Elci Barroso Braga. Foram os dois que informaram que a passeata não seria realizada. Nós chegamos à praça. Foram colocados cartazes, algumas faixas. Eu não sei qual seria o percurso da passeata, porque eu não participei das reuniões para esse ato público. Eu fui convocado, acho que li no jornal alguma coisa… ou chegou algum panfleto no colégio.

IDD: Você se identificou como estudante do Ida Nelson?

Botto: Não. Até porque não fui representando o colégio, fui de forma voluntária. Porque eu já vinha acompanhando nos jornais essa preocupação de que os Estados Unidos queriam invadir aqui. Havia uma preocupação muito grande de professores universitários. Vários debates foram realizados na Assembleia Legislativa, quando era lá no Centro. Uma delas eu cheguei a participar. Sentei lá no plenário e fiquei só escutando. Então eu pensei que iria ter essa caminhada. Cheguei a ficar do lado dos líderes do movimento, quando esse delegado do DOPS chegou e avisou que não haveria movimento algum. Mas aí, as lideranças começaram a fazer o ato público. De alguma forma eles começaram a protestar lá. Eu me recordo que algumas pessoas foram presas, se não me engano, cinco pessoas, inclusive uma mulher. Eu me lembro que, para realizar esses movimentos, tinha de avisar 48 horas antes. E parece que nesse ato não tinham avisado nada, ou, se avisaram, foi pelo telefone. Não houve a oficialização de um documento. Parece que foi esse o argumento que foi dado.

IDD: Você se recorda de alguma liderança conhecida que estava nesse ato?

Botto: Vendo as fotos que eu tenho no arquivo dessa época que saíram no jornal – e depois nós fomos parceiros mais na frente, no movimento estudantil -, eu vi, no mesmo ângulo, o João Pedro. Mas eu não saberia dizer na época o que ele era, porque eu sei que ele foi presidente do DU, mas lá na frente, já no movimento estudantil, dois três anos depois. A única pessoa que eu posso identificar e lembrar como uma das lideranças desse ato era o João Pedro.

IDD: Então esse foi o seu batismo no movimento estudantil?

Botto: A partir daí eu entrei definitivamente no movimento estudantil. Tanto é que, no ano posterior, em 1979, não sei se em janeiro ou fevereiro, eu e um colega fomos, de forma voluntária, no jornal “A Crítica” e demos uma entrevista dizendo que nós estávamos lá para protestar e também alertar às autoridades para essa possibilidade de invasão. Eu abracei essa causa, como se fosse minha… aí sim começou a despertar uma liderança… Depois dessa entrevista eu fui para João Pessoa, morar na casa da minha tia, irmã da minha mãe.

IDD: Mas foi seu pai que mandou você a Paraíba, para lhe afastar do movimento?

Botto: Já estava muito rebelde, adolescente querendo protestar. Mas, não foi uma viagem providencial por causa dessa rebeldia e nem porque teria havido alguma perseguição direta por causa dessa entrevista. Fui para João Pessoa porque queria morar fora para ver até como poderia funcionar isso aí, despertar mais. E aí, em João Pessoa, eu entrei, também muito novo, ainda com treze anos, no movimento estudantil. Participei do setor jovem do extinto MDB. Entrei lá, participei e através disso aí eu entrei também na primeira greve dos estudantes do Brasil…. e no Nordeste o movimento estudantil era mais avançado. E quando eu entrei no movimento estudantil, cheguei a ir a Recife para a recepção do Miguel Arraes quando ele chegou do exílio, em 1979. Na época eu participei da greve geral dos estudantes, participei do movimento estudantil pela meia-passagem, em João Pessoa. Participei das greves e de todos os movimentos universitários. E eu estudava em um colégio particular também, o Pio XII, colégio ligado à Igreja Católica.

IDD: E sua família na Paraíba também apoiava sua atuação estudantil?

Botto: Quando eu cheguei a João Pessoa, houve uma certa dureza, porque meu avô foi coronel da Polícia Militar da Paraíba e chegou a ser comandante da PM. Mas, por incrível que pareça, meu avô me apoiava. Ele só pedia que eu tivesse cuidado. Nunca chegou para mim dizendo para não fazer isso ou aquilo, não ir para o movimento. Eu até chegava a acompanhá-lo em algumas homenagens que foram realizadas na Câmara Municipal de João Pessoa porque ele foi diretor do trânsito lá por muitos anos e foi coronel da PM, teve uma atuação muito grande. Havia um pouco de receio, mas eu tentava administrar o movimento estudantil com a parte de liderança que estava despertando mais ainda e estudando. Eu não deixei de estudar, tirei muitas notas boas no Pio XII e isso para mim foi importante nessa minha passagem pela Paraíba em 1979. E é aí que eu tenho um primeiro contato com um partido, no caso, o MDB. Não podia ter participação partidária, mas eu me infiltrei lá de alguma forma e entrei. Isso meu avô não sabia. Inclusive eu tive o contato com o Ulisses Guimarães, Humberto Lucena, que foi presidente do Senado e um grande líder na Paraíba.

IDD: E quando você retorna a Manaus?

Botto: Fiquei em João Pessoa por um ano. Passei de ano para a 8ª série e vim passar as férias em Manaus, achando que voltaria para João Pessoa. Aí meu pai disse que eu não voltaria mais. Então eu voltei para o Ida Nelson, já nos meus quatorze anos, em 1980. E então entrei no movimento estudantil pela meia-passagem. Em 2 de maio desse ano foi feita uma grande manifestação passeata e a conquista dos 25% do abatimento. A passagem na época era Cr$ 4,50 e ficaria em torno de Cr$ 3,00. Foi realmente uma manifestação histórica. Deu muito estudante na rua. Não lembro ao certo qual foi o trajeto, só sei que nós terminamos na Praça São Sebastião.

IDD: Aí já é o período da reestruturação da Uesa?

Botto: Quando voltei a Manaus que eu entrei no movimento estudantil secundarista, nós organizamos uma direção provisória para a Uesa. Ela não tinha ainda uma diretoria, porque não podia se fazer movimento no regime militar. Eu fiz parte da diretoria provisória da Uesa, acredito que já como secretário-geral. O presidente era o Vicente [Filizzola] e a vice era a Selma [Barçal]. A partir daí a luta pela meia-passagem virou uma constante. A gente ia nos colégios, as pessoas realmente incorporaram isso aí como se fosse uma luta de cada um, porque nós vivíamos num momento de crise nacional, uma crise muito grande. A passagem de ônibus aumentava como se aumentasse a gasolina hoje em dia. Então, alguma coisa tinha de ser feita para conter isso aí, porque as autoridades perdiam totalmente o controle. Qualquer pedido de aumento que chegava na Prefeitura ou no Governo era acatado, porque tinha de passar pela Comissão de Transporte ou uma coisa assim, EMTU… e aí nesse momento é que a gente teve de intervir e nós dividíamos o trabalho. Nós não tínhamos carro, não tínhamos dinheiro, não tínhamos nada. E tínhamos de ir aos colégios fazer abaixo-assinado, reunião, eu tinha de estudar, outros também tinham de estudar, outros compromissos… E a gente dividia quais colégios cada pessoa iria visitar.

IDD: Havia uma parceria entre Diretório Universitário e Uesa?

Botto: De certa forma, sim. Só que a Uesa, eu acredito que era mais forte, porque qualquer movimento que o DU chamava não dava muita gente.  Quando éramos nós que mobilizávamos, eram milhares de pessoas. Quando era uma reunião para decidir algumas coisas com representantes dos colégios, dava mais gente. Sempre deu mais secundaristas do que universitários. Havia um certo “cada um na sua”. Mas a gente respeitava o movimento universitário porque, queira ou não queira, foi ali que começou tudo para se rebelar contra a ditadura e outras pautas que iam surgindo, como a questão que eu falei do meio ambiente, da Amazônia. Tinha o centro universitário do curso de Agronomia, o Cuca… esse que foi o grande precursor na área universitária. Mas, nós tomávamos nossas decisões sem ter influência nenhuma. Pelo menos até o conhecimento que eu tinha, nós tínhamos líderes do movimento estudantil que eram identificados pelo nome, mesmo numa diretoria provisória. Mas a gente sabia o que a gente queria e nós fomos para as ruas, de madrugada. Quantas vezes a gente fez panfletagem nas ruas, fazendo pichação, pegando dinheiro de um e de outro, para comprar tinta. Mas a gente tinha o compromisso com os estudantes.

IDD: Quais eram as grandes lideranças secundaristas dessa época?

Botto: As grandes referências do movimento estudantil secundarista da minha época, que participaram comigo da diretoria, eram João Paulo, Vicente, Selma, Sávio, Sandro… assim, de imediato, essas são as pessoas que eu lembro, mas tinha mais gente. Na primeira eleição direta, já tínhamos feito todas as conquistas.

IDD: Há quem diga que, em Manaus, o período da ditadura não foi tão violento quanto foi em outras capitais. O que você acha?

Botto: As pessoas pensam que a gente, aqui em Manaus, não sofreu com a ditadura… nós sofremos sim. Houve sim repressão forte, como no caso que falei, em 1978, no ato público em defesa da Amazônia, na Praça da Matriz. Pessoas foram presas pelo regime militar porque se rebelaram. Pessoas infiltradas no meio lá começaram a identificar algumas lideranças. E o aparato policial, que tinha muita gente da PM, da Polícia Federal e da Polícia Civil, todo mundo infiltrado acabou por reprimir de alguma forma os estudantes que estavam lá, as pessoas do povo que foram se solidarizar com esse movimento em defesa da Amazônia.

IDD: Você chegou a ser preso alguma vez?

Botto: Na minha contagem, acho que fui preso umas duas ou três vezes. Uma delas, inclusive, o papai soltou todo mundo. Nós fomos levados para o porão da Polícia Militar, na Praça da Polícia… não me recordo bem se foi porque eu estava vendendo o jornal “A Tribuna Operária”, porque uma vez aconteceu no Distrito. Eu estava vendendo realmente e chegou repressão lá, uma viatura, e recolheu todos os jornais. E mesmo a gente sendo menor, adolescente, a gente foi parar dentro do “camburão”. Depois é que no meio do caminho vieram avisar que éramos menores de idade. Aí nós fomos na parte da frente. Sempre tinha nos movimentos gente infiltrada do SNI, do Exército, da Polícia Federal. Tinha sempre alguém querendo saber alguma coisa nossa. Alguém que levava uma máquina fotográfica. Sempre a gente via gente filmando de alguma forma.

IDD: Você se lembra de ter apanhado em algum desses atos?

Botto: Sim. Na manifestação realizada no dia 29 de agosto de 1981, na Praça São Sebastião, de reivindicação de passe único nos ônibus e contra o aumento no valor das passagens. Já havia um aumento protocolado, foram muitos pedidos de aumento. Já estava virando bagunça. Existem depoimentos em jornais que dizem que tinha pouca gente nesse ato público. Negativo. Nesse dia que invadiram a igreja São Sebastião tinha muito estudante, sim. Diria até milhares. O que aconteceu foi o seguinte: já existia uma zum zum zum de que não podia se chegar próximo da Praça São Sebastião, que poderia haver uma repressão. Falava-se nos bastidores, mas não se tinha a certeza disso aí. Então, o que aconteceu: quando nós chegamos à Praça São Sebastião, principalmente os líderes, nós verificamos que o aparato policial chegou cedo. Já estava formado o cordão de isolamento em torno da praça. E os policiais militares realmente estavam de mãos dadas. Na época, o presidente da Uesa, o Vicente, não estava nesse ato. E dentro da diretoria, a segunda pessoa era eu, o secretário-geral. Nesse ano eu já estava estudando na Escola Técnica. O Vicente estava negociando alguma outra demanda no Palácio, tentando conversar com alguém do governo, não me recordo agora qual era o tema, mas foi por isso que ele não estava nessa manifestação. Ele e o presidente do DU, João Pedro, estavam juntos.

IDD: Como foi a articulação dos estudantes para essa manifestação, já que a praça estava isolada pela polícia?

Botto: Nós reunimos e começamos a fazer o ato em frente da igreja, na porta principal. Quem estava lá, ficou. Só que os estudantes ficaram espalhados, porque, como eles não puderam ficar na praça, realmente ficou um grupo pequeno de corajosos na frente da igreja. Nós fizemos o ato, tentamos chamar para a igreja para, exatamente, dizer às autoridades que estavam ali que nós não íamos deixar de fazer o ato público só porque a polícia estava lá impedindo a passagem dos estudantes. Mas, milhares de estudantes ficaram no entorno da praça. Ficaram em cima do teatro, observando, porque ali tinham adolescentes… pessoas que estavam realmente receosas de serem vítimas da violência. Eles ficaram com medo. Muitos estudantes espalhados. Eles não deixaram de comparecer ao ato… estavam espalhados. Mas nós, com determinação, decidimos que íamos fazer o ato público em frente à igreja. E aí nós começamos… inclusive eu fui uma das pessoas que usei o microfone para me manifestar e também passar ao restante dos oradores, eu que comandei isso aí. Como secretário-geral, eu passava para os líderes que iam se inscrevendo, para falar aos estudantes, mesmo eles distantes. Tinha um carro de som na frente e dava para escutar alguma coisa.

IDD: Em que momento começou a violência da polícia contra os estudantes?

Botto: A certa altura, não sei se foi o Sandro [Barçal]… na hora em que ele se manifestou, ele falou alguma coisa que foi interpretada pelos policiais como sendo uma ofensa. Algo como “larga essa farda e venha nos apoiar”… A partir do momento que o Sandro falou, houve uma ordem… não sei se partiu dali mesmo ou se chegou essa informação… eu sei que de repente, em questão de segundos, a igreja foi invadida pelo aparato policial. A gente via as viaturas da Polícia de Choque chegarem uma atrás da outra. Eram aquelas “veraneios” antigas. Aí ficaram bem na frente. Nós ali, em pequeno grupo, na frente da entrada principal… quando houve a ordem de começar, parece que as viaturas quando chegavam era exatamente para pegar a gente, meter na viatura e ir embora presos. Foi essa a condição. E aí, quando o Sandro falou, realmente começou a violência. Eles estavam aguardando um motivo para agirem. Alguma coisa que pudesse provocar uma situação maior. E foi o que aconteceu. Quando ele falou ao microfone… e eu estava um pouco atrás dele, outras lideranças estavam também… os policiais invadiram a igreja e começou um quebra-pau lá. Eles invadiram a igreja porque nós corremos para lá… era o único refúgio que tínhamos. Nós fomos espremidos… se a gente fosse para fora, iríamos apanhar mais… pelo menos eu acho que todos pensaram assim.

IDD: Foi uma estratégia de proteção da coordenação o fato de vocês ficarem na entrada principal da Igreja de São Sebastião?

Botto: Nós não fizemos aquilo para nos refugiarmos dentro da igreja, não foi isso. Nós fizemos o ato público, pedindo a meia-passagem, dando prosseguimento ao que a gente queria, mas a gente não tinha ideia que isso poderia acontecer, que eles iam invadir, porque tinham adolescentes, menores de idade ali, havia adultos, professores ali também. Tinha estudantes universitários, tinha pessoas bem ligadas ao movimento que apoiaram, mesmo o ato sendo comandado pela Uesa.

IDD: Mesmo assim, com igreja ou sem igreja, os policiais invadiram o templo para caçar vocês?

Botto: Foi uma questão automática, porque nós estávamos cercados. Para fora não ia dar jeito mesmo, porque as viaturas estavam todas na frente da igreja, tudo cercado. E aí houve a invasão mesmo da igreja e teve um momento em que alguém, acho que um policial, deu três tiros e foram parar na vidraça de cima da igreja. O policial que fez isso, ele fez para atingir a um de nós. A igreja ficou toda quebrada. Eu apanhei que… não sei como, fui parar na sacristia. Eles usavam aqueles cassetetes de dois metros, que a polícia ainda usa até hoje, aqueles de choque. Eu recebi duas botinadas nas nádegas e pancadas de cassetete nas pernas, e fui bater na sacristia, lá dentro. A igreja estava aberta, mas o padre não estava lá, só alguns religiosos que estavam fazendo orações. E nesse dia parece que ia até ocorrer um casamento. Depois desse episódio, a Igreja passou a apoiar a gente. A Igreja de São Sebastião ficou fechada por vários dias. Colocaram até um cartaz na frente, explicando o motivo do fechamento. Dom Milton Corrêa era o arcebispo. O governo Lindoso teve de se desculpar nesse dia, porque muitas prisões aconteceram. Teve gente que sofreu pancada na cabeça, era sangue… foi um absurdo. Foi como se tivesse tido um dia de cão, mesmo dentro do templo da igreja, templo que deveria ser respeitado. A repressão violenta da polícia no ato da Praça São Sebastião foi um divisor de águas. O Governo e a Prefeitura no regime militar, representados pelo Lindoso e pelo prefeito José Fernandes começaram a ver que nós tínhamos proposta, nós tínhamos conhecimento. Nós sabíamos que a passagem estava cara demais e que algo tinha de ser feito.

IDD: Você conseguiu escapar da polícia nesse dia?

Botto: Eu consegui escapar da igreja, apesar de ter apanhado bastante. Mas não houve ferimento muito grave, apenas o inchaço das pernas e a dor nas nádegas por ter recebido botinadas várias vezes. Porque os caras iam batendo em quem vinha na frente… aí eu fui rebolando até chegar à sacristia e depois me escondi atrás do portão principal da igreja, no lado direito. Fiquei atrás ali enquanto o barulho acontecia. Quando acalmou um pouquinho foi que eu consegui fugir. Mas, mesmo assim, eu fui reprimido lá fora também. Quando eu cheguei em casa, meus pais não chegaram a ver alguma coisa. Mas, como falei no início, o papai me apoiava. Eu já ia direto para as manifestações sem avisar a eles, porque como eles já sabiam, era como se fosse um trabalho constante. Já fazia parte do meu dia a dia estudar, ir para o movimento estudantil, ir para a Uesa. Tinha também meus trabalhos internos da Uesa, porque eu era secretário-geral. Nunca meu pai me pediu para sair do movimento. Ao contrário, eu tinha o apoio dele.

IDD: Esse ato teve desdobramento? Vocês conseguiram alcançar o objetivo pretendido?

Botto: No dia 3 de setembro daquele mesmo ano, os estudantes voltaram à praça. A luta continuou. E nesse dia foi o dia do célebre discurso do Fábio Lucena, que disse que aquele novo ato era realizado diante de três templos: o da arte, simbolizado pelo Teatro Amazonas, o divino, representado pela Igreja São Sebastião, e, no meio dos dois templos, o da liberdade, que seria a praça conquistada pelo povo. Porque a praça, no ato público anterior, tinha sido fechada pelo aparato repressor dos policiais. E nós conseguimos fazer de volta o movimento na praça. “A praça é do povo como o céu é do condor”. O discurso do Fábio foi muito aplaudido, os políticos que estavam lá também. Todos apoiaram, falaram muito bem do nosso movimento, que deveria continuar e que o processo de tentar negociar continuava. Depois de várias reuniões com o governador Lindoso e o prefeito José Fernandes, finalmente, em 1º de novembro de 1981, foi implantado o passe único para os estudantes. Ou seja, não demorou muito de agosto, quando aconteceu o ato, para novembro. Quer dizer, realmente foi um divisor de águas ali. Eles passaram a identificar que nós estávamos com seriedade, fazendo a coisa certa. A gente não queria utilizar o movimento estudantil, uma entidade de classe como a Uesa, que já existia desde antes do regime militar, apenas para fazer baderna.

IDD: Você lembra quando começou a luta pela meia-passagem estudantil em Manaus?

Botto: Eu entrei no movimento em 1978. Não me lembro de ter tido alguma coisa antes disso. Mas claro que já existia em outros Estados. Nós tínhamos conhecimento de movimentos em prol da meia-passagem. E isso também era uma das bandeiras de luta para nós reconquistarmos a democracia, derrubando o regime militar. Também era uma das bandeiras de luta.

IDD: E quando você se afilia ao PCdoB?

Botto: Nesse período mesmo período eu também entrei no PCdoB. O partido andava na clandestinidade. Não lembro quem me recrutou, mas, com certeza foi alguém da diretoria da Uesa, que eu não me lembro agora. O mais impressionante é que nós íamos para os “aparelhos” com os olhos vendados. Às vezes o carro em que a gente ia parava nos cantos, pegava as pessoas e a gente usava uma máscara preta, uma coisa assim de pano. Era colocado no local e às vezes a gente andava vinte, trinta minutos… então eu não sabia… não sei se era de propósito para não identificar, mesmo com os olhos vendados. A gente ia para esses lugares para estudar. A grande vantagem do movimento estudantil da época é que a gente estudava todos os grandes líderes antigos da Revolução Russa. Por que o PCdoB apoiava a Albânia… todas essas reuniões eram documentadas de alguma forma. Então a gente estudava a história, o que era Trotsky, por que o PT era assim, por que o PCdoB era “assado” … a gente tinha uma base, por que a luta que poderia avançar para uma luta armada, de guerrilha… tudo isso aí a gente estudava.

IDD: Você quis logo entrar no partido ou havia alguma dificuldade?

Botto: No início recusei. As pessoas me procuravam e, inicialmente, não aceitei. Achava que era melhor trabalhar no movimento estudantil, sem pender para qualquer corrente. Sempre preferi trabalhar com todos. E eu realmente recusei bastante os convites do PCdoB. Sabia mais ou menos quem estava lá. Mas depois resolvi entrar. Estava estudando na Escola Técnica, e eu entrei querendo avançar.  Comecei a acompanhar essas reuniões de “aparelho”. Nesse tempo a referência do PCdoB era o Eron. Eu tenho fotos nos “aparelhos” com o Eron e com a Gina Gama. Nesses “aparelhos” eu aprendi muito porque a gente estudava. Passava noites… até tarde. O almoço ou o jantar eram servidos lá mesmo. Eu participei dos “aparelhos” só do movimento estudantil secundarista. O Eron era o nosso coordenador, que tinha mais condição de influenciar na liderança. Só que, numa das fotos que eu tenho, no “aparelho”, só apareceu eu como líder estudantil, numa dessas reuniões. Não me lembro de ter participado em “aparelho” com o Sávio, com a Selma, com o Vicente. E acho que eles também participavam de forma isolada, em dias diferentes com o Eron também. Eu acho que o coordenador dos universitários devia ser o João Pedro.

IDD: Você tinha algum medo dessa situação de ter os olhos vendados nesses deslocamentos até ao “aparelho”?

Botto: Sim. Porque, como era de olhos vendados, e eu não sabia para onde eu ia, nesse meio tempo poderia vir a repressão, poderia ser preso… alguma coisa acontecer. Jovens e adolescentes, meninos… O próprio Vicente dizia “são praticamente meus filhos” … porque tudo era menor de idade. Nós sempre ficávamos com aquela sensação de que poderia acontecer alguma coisa, devido à pressão psicológica. Fui identificado pelo regime militar como líder da Escola Técnica, que eu era o cara lá dentro. Eu pulava muro, mandava abrir porta. E foi quando houve uma perseguição violenta em relação a mim dentro da Escola Técnica. Eu só não fui reprovado porque estudava mesmo.

IDD: Você passou a ser perseguido na Escola Técnica?

Botto: Sim. Porque havia superiores ao diretor Jorge Humberto que diziam a ele: “Você tem que neutralizar essa liderança que tem aí. Porque o fulano é o cara aí”. E eu estudava Mecânica, não era um curso prestigiado. Geralmente era Eletrônica, Eletrotécnica…, mas eu era de Mecânica e estava dominando a situação de manhã, à tarde e até à noite. E o que aconteceu? Eu fui praticamente expulso da Escola Técnica. Foi feito um processo contra mim para me expulsar, eu e um colega lá que depois entrou no movimento… eu e ele fomos suspensos, mas só o meu processo que ia descambar para isso aí. Foi no dia 22 de maio de 1982, no congresso da Uesa, que foi anunciado que o diretor da Escola Técnica, Jorge Humberto, queria me expulsar. Nesse processo, eu não fui expulso porque houve uma intervenção, na época, do Artur Virgílio, que era suplente de deputado federal, e ele se manifestou na imprensa, ele tinha uma coluna no jornal “A Notícia” e escreveu também, além de outras situações que me fizeram conter um pouco a situação. Mas eu não fui expulso por muito pouco. Às vezes não queriam que eu entrasse na sala de aula para estudar, e eu ia. Não fui “estudante profissional”. Era o único pedido que meu pai fazia: o de não ser “estudante profissional”.

IDD: Você teve alguma decepção no movimento?

Botto: Sim. Para explicar isso, preciso falar desse Congresso da Uesa que aconteceu na Biblioteca Pública do Estado em 1982. Ao final desse encontro, a Uesa ficou dividida, porque o Vicente era presidente da Uesa e a Selma era a vice, e nesse congresso houve uma divisão, houve até briga, cadeirada entre as facções. Uma com o Vicente e a outra com a Selma. O Vicente era do PCdoB, mas, acho que rachou. E aí há essa chapa da Selma em que nós fomos eleitos. Eu fui eleito não como secretário-geral, mas como diretor de esportes, com a Selma sendo presidente. E o Vicente fez a chapa dele, não me recordo qual foi o nome, e foi empossado na Praça Sebastião, e a Selma em outro lugar. Duas Uesas. Isso foi a gota d’água para a derrocada da entidade. Eu sempre achei que essa divisão não deveria acontecer. Mas, aconteceu. E o que poderia resultar disso aí? Divisão do movimento estudantil, divisão das lutas… tudo era dividido. O pessoal perguntava se era a Uesa da esquerda ou da direita. Aí a imprensa não sabia mais identificar quem eram os líderes. E começou a repercutir negativamente isso. Eu sempre observando que alguma coisa estava errada, que precisava ser ajeitada. Foi anunciado que, para resolver a situação, seria feita uma eleição direta, primeira eleição direta do movimento estudantil. Aí eu disse lá dentro do PCdoB: “Olha, eu não sou ‘estudante profissional’, eu não vou parar meus estudos por conta da Uesa. Eu me lanço candidato a presidente da entidade. Nós vamos resolver esse problema da divisão. E nós vamos ser eleitos e vamos fazer um trabalho de continuidade, mas sendo de forma unificada, pegando todas as correntes estudantis que se formaram nesse período e vamos unir”.

IDD: E o PCdoB aceitou seu pedido?

Botto: Infelizmente, o PCdoB, o aparelho estudantil secundarista sob a coordenação acho que do Eron e de outras correntes lá dentro não aceitaram e lançaram o Sávio, que era, de certa forma, “estudante profissional”, porque parece que ele estava parado desde a 7ª série. Não sei nem qual era o colégio dele. Eu tinha colégio, era matriculado e cumpria meus deveres, mesmo com toda pressão psicológica, perseguição do regime militar, da polícia, mas eu continuei a estudar. Eu merecia a vaga de presidente. Era eu que era para ter sido lançado e ter sido eleito. Mas, resolveram lançar o Sávio. Foi quando eu disse: “Diante dessa situação eu estou me retirando. Não faço mais parte da corrente de vocês. E podem ter certeza que eu vou lançar uma chapa. Pode ser que eu não ganhe, mas eu vou lançar uma chapa”. E aí eu procurei o Vicente [Filizzola] e disse: “Eu vou me lançar. Você vai se lançar? Porque a gente poderia fazer uma chapa unificada de oposição ao que está aí, porque quem vem é o Sávio”. O Sávio era diretor de imprensa, mas, na realidade, quem fazia esse trabalho maior de imprensa era eu. Eu que arquivava tudo, era o secretário-geral, fazia as atas. A pessoa que estudava, que sempre estava ali, nunca faltei uma reunião. Não estou dizendo que o Sávio não tivesse sua liderança…, mas, decidiram por ele. Qualquer um que fosse lançado naquele momento pelo PCdoB seria eleito. Mas, infelizmente, eles não colocaram o meu nome para concorrer.

IDD: Alguma vez disseram a você o motivo por não terem lhe escolhido?

Botto: Até hoje eu queria saber o porquê disso. Nunca me falaram. Nas reuniões eles não diziam. Porque as reuniões internas tinham crítica e autocrítica. Cada um fazia uma crítica para um, para outro e fazia sua autocrítica sobre determinado assunto. E se anotava e caminhava. Mas, não tenho assim conhecimento do motivo pelo qual eu não fui o candidato. Mas eu me posicionei, como sempre, dizendo que não tinha nada contra fulano ou cicrano…, mas que não iria participar. Acho que eles me ofereceram lá outro cargo para compor a diretoria, mas eu não aceitei. Estava disposto a fazer a minha chapa. Com o Vicente também não houve acordo, porque acho que ele queria ser presidente de novo.

IDD: E você lançou sua candidatura assim mesmo?

Botto: Sim. Lancei a chapa “Vote”. Lancei sabendo que dificilmente poderia vencer, mas fui para demarcar terreno. O nome da chapa era “Vote” para chamar à atenção dos estudantes, que meu objetivo era a unificação. Meu discurso era esse. As pessoas não entenderam esse nome. Eu sabia que não ia vencer, mas minha intenção era chamar a atenção das pessoas para elas votarem. Era a primeira eleição democrática da Uesa. Foi quando eu procurei o governador Gilberto Mestrinho, e ele me apoiou. Ele me deu dinheiro e me deu alguns ônibus. Eu tive, vamos dizer assim, uma estrutura mínima para a eleição. Percorri alguns municípios do Estado. Não era tão conhecido quanto o Vicente no interior, mas, na capital eu acho que até tinha um bom conhecimento, porque eu estava em todas as reuniões, no Congresso, tudo. Mas aí foi, de certa forma, com pouca estrutura que eu tive mais de quatro mil votos. Fui para a eleição firme. Mandei fazer panfleto. Mandei “rodar” material. Quer dizer, o dinheiro não foi em vão. O governador me ajudou, mas eu investi na campanha. Paguei os ônibus para levar os estudantes. Quer dizer, eu fiz a campanha que tinha de ser feita, encampando essa luta sozinho, praticamente. Até para formar a chapa foi um pouco difícil, mas fiz. Pessoas que acreditavam em mim.

IDD: E qual foi o resultado dessa primeira eleição direta da Uesa pós-regime militar?

Botto: Como disse, tive mais de quatro mil votos. Com essa votação, na época, eu conseguiria ser um deputado estadual tranquilamente. O Vicente teve mais de dez mil votos e o Sávio, vinte e tantos mil votos. No total, acho que foram mais de quarenta mil votos naquela eleição. Particularmente, para mim foi uma vitória, porque eu estava totalmente fora. Pertencia a uma corrente e tive que pular fora rapidinho para montar uma chapa e marcar terreno. Na época eu teria me eleito deputado estadual, o Vicente seria federal. O próprio Sávio, federal também. Foi uma eleição que marcou. Essa eleição da Uesa foi em 31 de maio de 1983. Ao final do pleito, expedi uma nota logo depois do resultado, apoiando a diretoria eleita, coisa que eu acho que o Vicente não fez. Se fez eu não vi, porque ele também era de oposição, ele seguia a Selma. Aí o Sávio assume. Coloquei uma nota na imprensa, de apoio à diretoria que tinha sido eleita, e, naquele momento, informava também que estava me retirando do processo, até porque eu tinha dito já lá atrás, no PCdoB, que eu ia terminar o ano letivo, e eu só poderia ser presidente da Uesa naquele ano, naquela eleição, porque no próximo ano eu já estaria em outra situação. Podia entrar na universidade, fazer um pré-vestibular. Eu segui o ritmo certo escolar. E terminei por aí.

IDD: Esse foi o motivo para o seu afastamento do movimento estudantil…

Botto: Eu fiquei desiludido com o movimento estudantil secundarista por eu ter feito tudo, e na hora que era para eu ter sido naturalmente candidato a presidente… E seria eleito, seria eu, não tinha dúvida disso. Apoiado pelo PCdoB, eu não tinha dúvida que seria eleito. Tanto é que o movimento estudantil até hoje, quando é apoiado por eles, sempre as pessoas vencem, porque eles têm uma estrutura, uma base bem sólida nesse sentido. O que ficou um pouco frustrante foi isso aí: não ter sido eleito o presidente da Uesa. Militante atuante, com história… Pensava que poderia ser eu. E o Sávio poderia esperar um pouco mais, já que ele era “estudante profissional”, poderia ser o próximo. Logo em seguida seria ele o presidente, sem problema algum. Mas só que não reconheceram que eu estava terminando o ano. E eu não ia ficar reprovado para esperar mais um ano. Não é que eu radicalizei. Mas, não deu, não deu.

IDD: E não continuou mais com nenhum tipo de movimento popular?

Botto: Depois de encerrar meu ciclo no movimento estudantil secundarista, fui para o Acre realizar um sonho que eu tinha, que era de ser repórter de TV. Tinha feito vestibular aqui em Manaus para Comunicação, mas não tinha passado. Eu já trabalhava na imprensa. Fui da Rede Amazônica, TV Educativa, Ajuricaba… eu era editor de imagem. Na TV Educativa houve uma oportunidade de eu ser apresentador de um programa, o antigo TV Jovem, que depois virou Entre Outras Coisas. Mas eu fui para o Acre e lá acabei realizando esse sonho, onde trabalhei por 25 anos. Lá eu fui fundador do sindicato dos jornalistas. Continuei militando de alguma forma. Participei da primeira greve da televisão acreana. Tornei-me jornalista profissional pelos meus mais de trinta anos de atuação. E em 2007 eu me formei em Direito.

 

comentários

Uma resposta para “Entrevista com Michelângelo Botto”

  1. Belmond Botto disse:

    Esse é meu pai, que fez a diferença mesmo sem um grande apoio partidário, mas fez o que fez, imagina se tudo tivesse saído como planejado, onde ele teria chegado? Não se sabe… o que se sabe é que é Michelangelo Botto é um grande homem e um homem que realizou sonhos e obteve muitas conquistas. Parabéns, você é demais!

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