Entrevista com José Carlos Sardinha

compartilhe

Natural da cidade de Lorena-SP, nosso entrevistado nasceu em 1º de janeiro de 1955. Na década de 1970, veio a Manaus apenas para prestar vestibular, e não saiu mais da capital amazonense. Mesmo se considerando extremamente tímido, foi presidente da chapa que retomou para a esquerda o Diretório Universitário da antiga UA, então comandado pela direita conservadora. Estamos falando do médico José Carlos Sardinha.

IDD: COMO FOI ESSA SUA VINDA DE SÃO PAULO PARA O AMAZONAS?

Sardinha: Cheguei a Manaus para fazer vestibular mais ou menos no fim de 1975. Sou o mais improvável estudante de Medicina e médico que você possa imaginar. Na minha adolescência, não passava pela minha cabeça de jeito nenhum ser médico. E eu tinha terminado o segundo grau em 72 em Lorena, e em 73 e 74 eu estava perdido. Não tinha condições intelectuais para passar em qualquer vestibular de São Paulo. Trabalhei na construção civil, fui peão de obra, ajudei na construção de hidrelétricas. Fui trabalhador de supermercado… E o tempo foi passando e parecia que jamais eu seria capaz de fazer um curso superior. Até que um irmão que morava em Rondônia me convidou para passar uns dias com ele, isso em junho de 75, e ao chegar lá, ele falou que em Manaus tinha Medicina. Aí eu aceitei.

IDD: E VEIO MORAR ONDE?

Sardinha: Eu tinha outro irmão com família em Manaus. Então ele conseguiu que um cunhado dele me recebesse. Era uma casa num conjunto onde hoje existe um viaduto que emenda o Boulevard com a Paraíba… Conjunto Josué Cláudio de Souza. Ali eu fiquei uns seis meses, mais ou menos. A partir do segundo semestre, comecei a dar aula no cursinho no Colégio Bandeirantes, que ficava em frente à Escola Técnica. E aí depois eu fui dar aula no Boechat [Curso pré-vestibular]. Depois eu e outros professores criamos o cursinho chamado Cretam. Aí eu fui morar onde morei praticamente todo o resto da faculdade até eu me casar. Era uma casinha na avenida Ayrão, bem ao lado do prédio da Faculdade de Odontologia, numa república. Morava com um grupo do curso de Medicina: um de Minas, o Dimas, e mais três camaradas de Goiás, que eram o Manuel, o Chafir… É nessa fase que eu me caso, na passagem do quinto ano, de 1980 para 1981, em 13 de junho… E vou morar num apartamento dado pelos parentes da minha esposa, no Cidade de Manaus.

IDD: NA UNIVERSIDADE VOCÊ ERA TÍMIDO?

Sardinha: Eu sempre fui extremamente tímido. Mas tinham duas coisas: a grande maioria das pessoas que estavam lá eram bancadas pelos seus familiares e também havia pessoas que eram de origem humilde, mas tinham família aqui. Então, eu vivia a seguinte situação: era um sujeito que não tinha exatamente quem me bancasse. Meus dois irmãos de Rondônia me mandavam uns trocados e eu tinha que me virar dando aula para sobreviver. O grosso da turma eram pessoas de classe alta aqui de Manaus. Porém, apesar da timidez, eu era um cara palpiteiro. Porque a vida inteira sempre gostei de ler. Na minha casa sempre teve o Estadão e a Folha o tempo inteiro… sempre tinha muita discussão… e eu gostava de dar meus palpites. E esses palpites não necessariamente agradavam a totalidade das pessoas, mas passava a impressão de que eu era um sujeito que parecia que enxergava alguma coisa do mundo para além das coisas da Medicina.

IDD: É AÍ QUE VOCÊ COMEÇA A PARTICIPAR DE MOVIMENTOS ESTUDANTIS?

Sardinha: Sim. Logo no primeiro semestre a gente teve uma movimentação na faculdade, liderada pelo Rogelio Casado e o Humberto Mendonça, estudantes já de 5º para 6º ano. E essa movimentação da turma do Rogelio (e eu acho que já estava também o Tirço…) era uma coisa bem direcionada para o ensino, demandas acadêmicas, biblioteca, laboratório, como fazia para formar… e tinha uma questão, que eu não me recordo bem, que era relacionada com a festa de formatura… e aí, de alguma maneira, eu começo a ter alguns contatos com isso. O fato é que eles começaram uma ação no sentido de que cada turma, todo ano, trouxesse alguns representantes. E eu sempre achei que a minha designação para isso era um negócio meio de “vingancinha” comigo: “É você que gosta de falar?!… então vai lá e nos representa” (risos). Mas isso aí tudo evoluiu para o 1º Dia Nacional de Luta, dia 19 de abril de 1977, e é feita toda uma mobilização para o Campus Universitário e é elaborada uma lista de reivindicações a serem feitas ao reitor. E, se eu me recordo bem, é a primeira grande coisa que aconteceu no sentido de mobilizar toda a universidade, que era totalmente isolada, num único espaço e com uma vertente de contestação ao poder instituído. O fato é que nesse dia eu era um dos representantes de turma e todos trabalhando para levar a maior quantidade de gente possível para o Campus, onde se daria essa manifestação. Mas ninguém tinha muita certeza de como é que aquilo seria. Nem o próprio reitor, que já era o Octavio Hamilton Mourão (e o vice era o Roberto Vieira).

IDD: FALE MAIS SOBRE ESSE PRIMEIRO MOVIMENTO…

Sardinha: A gente foi para o Campus. Como disse, ninguém tinha a menor experiência de como organizar uma manifestação. Aliás, do esperado, acho que foi para o Campus uns 10%, 20%, um grupelho de estudantes. A concentração foi no campo de futebol da FED, que estava começando. E aí chega o Mourão também… e ele mais perdido do que a gente. Uma situação muito engraçada quando eu me lembro disso (risos). Ninguém sabia exatamente o que fazer…. Acho que aí, o Rogelio Casado toma a palavra e fala: “Seu reitor, nós estamos aqui para ler uma lista…” … ele trêmulo e nervoso, nós também e o reitor mais ainda (risos). Acabou em paz a história… o reitor recebeu e disse que ia conversar conosco para ver como resolver… e todos voltamos para nossas casas. Agora, esta reunião resultou numa primeira conversa sobre a tomada do Diretório. Neste momento, o presidente do Diretório Universitário era o João Bosco Valente (que veio a ser promotor de justiça, morou aqui próximo da minha casa e faleceu há dois, três anos…). E a chapa dele se chamava “31 de Março”, nunca vou esquecer isso…

IDD: VOCÊ LEMBRA QUEM ERA O REITOR ANTES DO MOURÃO?

Sardinha: Quem foi antes dele? O Átila Lins, que eu não lembro qual era o nome da chapa. O nosso representante, o Álvaro (a gente chamava ele de Cebolinha), que era de São Paulo, ele fez um gesto assim de renúncia à participação dele na chapa… isso era uma centelha mínima de rompimento com aquela coisa de direita, de apoio à ditadura. E aí começa a rolar a história de nós compormos uma chapa.  Até então, todos os presidentes do Diretório Universitário eram da Faculdade de Direito, e com uma visão obviamente de direita. Junto a essa discussão que se dá entre os estudantes se formou também um grupo que tinha a participação de professores. Neste grupo participavam Rogelio Casado, o Humberto Mendonça já tinha ido embora para São Paulo… e participavam o Eronildo Braga Bezerra, o Raimundo Cardoso de Freitas, o Tirço, o Geraldo Gutemberg, que era de Medicina e hoje está em Brasília… aí vinha o Ribamar Bessa, o Ademar Aguirre, que era um psiquiatra, o Márcio Souza participava eventualmente, e o Aloisio Nogueira. Eventualmente participava também o Oswaldo Coelho, o nosso “Boto”.

IDD: COMO VOCÊ FOI CHAMADO PARA FAZER PARTE DESSE GRUPO E COMO FOI SUA INDICAÇÃO PARA SER O CABEÇA DA CHAPA QUE RETOMARIA O DU?

Sardinha: Eu fui chamado porque o Rogelio estava indo embora para a “residência” dele no Rio de Janeiro. Ele precisava indicar alguém da Medicina. Eu tinha pouquíssimo contato com o Rogelio, e ele me indica para fazer parte deste grupo, que seria a iminência por trás do movimento a ser construído. E lá vou eu… a reunião era na casa do Marcus Barros, no Kíssia, e eventualmente na casa do Nelson Fraiji, naquela vila que fica atrás da Faculdade. Quando eu vou para compor o grupo… eu não conhecia ninguém ali… o Rogelio era o que eu mais conhecia, e era muito pouco. E de repente eu estou lá num grupo de um monte de gente que eu não sabia quem eram… e a ideia era tomar o Diretório. E eu me perguntava o que eu tinha a ver com isso. E aí, na hora de apontarem quem seria o presidente, apontaram para mim… E eu disse: “Mas como sou eu?”. O Geraldo Gutemberg não podia porque a esposa dele, que era minha colega de turma, tinha estudado na Patrice Lumumba, em Moscou, e ele tinha antecedentes de participação no Partido Comunista. O Cardoso deu uma enrolada, que eu não me recordo agora. O Eronildo, a mesma história: já foi logo se declarando PCdoB, que tinha estado na guerrilha, que ele já era conhecido. O Tirço, porque ele ia fazer “residência’ … Todo mundo tinha uma desculpa para não ser, e só eu que não tinha. E eu acabei aceitando, nesta mesma reunião. Tudo foi definido praticamente nessa reunião.

IDD: QUEM ERAM OS OUTROS MEMBROS DA CHAPA?

Sardinha: O Eronildo e o Cardoso insistiam que o vice tinha de ser da Agronomia. Porque, naquele momento, o curso que mais mobilizava era o de Agronomia. Aí, quem é o indicado é o João Pedro. Então, aconteceu uma cena muito engraçada, porque nós fomos apresentados como se fossemos a noiva e o noivo. E nos deixaram a sós andando lá pelo Campus para a gente se conhecer (risos). A gente começou a se movimentar. Fizemos a inscrição, e aí o João não é aceito, uma história de frequência à biblioteca. Quando ele sai, a gente já estava começando a aproximação com o pessoal do ICHL… aí vem o nome do Paulo França, da Economia (irmão do vice-reitor Mena Barreto), porque ele era um cara muito popular e parecia, ou ele era de fato, o principal redator do Sim & Não, o que foi muito importante para nós porque o França começou a meter notinhas na coluna diariamente em favor da chapa. Feita a composição da chapa, aí entra o resto: o Eronildo, de Agronomia, foi diretor de assuntos estudantis, o Ricardo Parente, de Filosofia, foi o secretário, o Geraldo Gutemberg, diretor financeiro… o pessoal que frequentava a sede nesse momento era esse que eu falei, mais o José Dantas Cirilo, o Carlos Rubens, de Letras… os outros nomes não me lembro agora. Esse era o núcleo da chapa. Nós não colocamos ninguém de Direito, e mesmo assim fomos muito bem votados lá.

IDD: QUANTAS CHAPAS CONCORRERAM? VOCÊS GANHARAM COM FACILIDADE?

Sardinha: A chapa que mais nos preocupava era uma que tinha um Renê, que hoje é juiz…. Ao todo foram cinco chapas. O nome da nossa chapa era Reação, o que soou estranho para uma esquerda mais à esquerda… um nome desses (risos). Nós tivemos mais de dois mil votos… se somassem os votos das outras não ganhavam da gente. Nós só tínhamos um mimeógrafo, que só conseguia imprimir com uma tinta vermelha. Então a gente fazia as nossas notinhas com letra vermelha e pregava… aí todas as outras chapas vinham e colocavam ao redor. Ou seja, sem ter nenhuma noção de marketing, nós pautamos o marketing daquela eleição…. Não teve debate, mas teve as idas às salas… a gente se cagava quando ia à Faculdade de Direito à noite… um monte de gente olhando feio para a gente… era difícil… para mim era difícil. Nós fomos super bem votados no Campus, que a Agronomia realmente carregou tudo que tinha lá… Educação Física, as Engenharias todas… foi uma votação estrondosa. A sede do Diretório ficava na Leovegildo Coelho, onde era a gráfica da Universidade. Não me recordo se houve alguma cerimônia de posse ou transição de administrações. Cheguei ao prédio para pegar a chave e não tinha ninguém que me dissesse nada. Isso tudo em 1977… e aí desandou de vez minha vida de estudante de Medicina.

IDD: NESSE TEMPO VOCÊ JÁ SEGUIA ALGUMA DOUTRINA PARTIDÁRIA?

Sardinha: Naquele momento só havia uma coisa: ou você era a favor ou contra a ditadura. Eu tinha lá pessoas que depois foram para todas as correntes, porque na mudança da minha gestão para a do João Pedro já houve a criação dos partidos… aí já houve o racha. Mas, até então, PT, PCdoB, stalinistas, trotskistas… todo mundo estava do meu lado. As reuniões do Diretório eram sempre oito, dez, doze pessoas… e o pessoal do ICHL [Instituto de Ciências Humanas e Letras], particularmente o Ademir Ramos. O pessoal do PCdoB era operativo, de fazer as propostas de confronto. O pessoal do ICHL era um pessoal que tinha uma base cultural, filosófica… fundamento científico para as coisas. Então eu estava nesse meio aí, entre a prática e a teoria. Eu “bebia” tanto de um lado quanto do outro. E o grupo do PCB… circulava por ali, mas não agregava em nada. No racha depois, lá no ano seguinte, quando o pessoal da Medicina e do ICHL rumam para o PT, o pessoal de Agronomia e seus seguidores lá do PCdoB, alguns vão no rumo do PCB. E é aí que começa a ter algum tipo de confronto… e o pessoal do PCB muito mais aliado ao PCdoB e contra o PT que qualquer outra coisa. O articulador intelectual dessa ida para o PT era o Bessa. Porque o “Babá”, quando esteve no exílio, ele se articulou com uma corrente trotskista em Paris, e quando ele voltou, essa corrente trotskista no Brasil estava ligada à convergência socialista. Numa das primeiras reuniões que teve em caráter nacional, a diretoria decidiu que eu tinha de ir. Uma reunião em São Paulo, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

IDD: COMO FOI ESSA SUA PRIMEIRA PARTICIPAÇÃO COMO LÍDER ESTUDANTIL EM UM ENCONTRO NACIONAL?

Sardinha: Naquele momento, o movimento estava pegando… e eu me sentia um peixe fora d’água, que eu não entendia nada daquelas correntes. Quando eu chego lá (eles tinham uma logística para receber as pessoas que vinham de fora), fiquei na casa de um militante da Liberdade e Luta… e foi aí que eu comecei a ouvir pela primeira vez as divergências do trotskismo contra o stalinismo, maoísmo… e confesso que me encantei de cara com as questões do trotskismo. Eu voltei todo convencido, achando que entendia da história. E quando eu chego de volta para o grupo… é aí que o Bessa começa a colocar a vertente do trotskismo dele. Não que tenha havido embate… eu tentava me colocar, mas, ele tinha infinitamente mais fundamentos teóricos… e eu acabei aderindo à tendência dele. Tendência essa que resultou, mais adiante, na criação da convergência aqui.

IDD: FALE MAIS SOBRE A MILITÂNCIA DA CONVERGÊNCIA…

Sardinha: Então, dentro do movimento estudantil, a vertente trotskista, talvez eu tivesse sido a primeira pessoa, mas, não originou de mim o grupo da convergência que se instalou, porque depois de mim e do Bessa vem o irmão do Bessa… o Ricardo Bessa. E é o Ricardo Bessa que se alia com o Ivanci, com outros… o Vilmar. E esse grupo é que vai compor de fato os militantes da convergência. Eu e o Ribamar Bessa tivemos uma coisa preliminar, mas não tivemos o envolvimento na estruturação da militância da convergência aqui. Mas isso já mais adiante no que se refere a esse período do Diretório. Mas nesse meu ano, ano e meio à frente do Diretório, eu fiquei: de um lado, o pessoal com uma formação teórica invejável, e o ativismo do outro, e eu no meio. Eu nunca fui muito “o ativista”. O grupo deliberava, vamos fazer…, mas raramente eu era o cara que propunha. Muito ativismo aqui, muita lógica, muita prudência, muita análise do lado de cá. E aquilo ali resultava uma flecha interessante, que produziu um avanço.

IDD: COMO FOI A ELEIÇÃO DO JOÃO PEDRO, SEU SUCESSOR?

Sardinha: Nós tínhamos um acordo: “João Pedro não pode ser presidente esse ano. Ele vai ser o do próximo”. Então ficava certo. E aí ninguém lança candidato contra o João Pedro… eu nem me lembro se houve outra chapa. Mas nós não fizemos. No meio da gestão do João Pedro é que começa a se estruturar o primeiro enfrentamento entre PT e PCdoB, que é quando o Eronildo tenta se eleger. Eu acho que foi minha última participação com alguma expressão dentro do processo do movimento estudantil. Eu então fui o João Santana da eleição do Públio. Desde a denominação de “Pé na Terra”, aproveitando as duas letras do PT, o tipo de campanha que a gente ia fazer, puxando um leque de reivindicações… A convergência foi a coisa mais atuante no primeiro momento do PT aqui. O Marcus já tinha viajado. Eu nunca convivi com ele dentro do PT. Quando ele chegou, eu já estava fora.

IDD: O QUE VOCÊ SE LEMBRA DA VITÓRIA DA CHAPA DO PT SOBRE O ERON NA DISPUTA PELO DU?

Sardinha: Foi uma delícia derrotar o Eronildo… foi muito gostoso (risos). Foi divertidíssimo. Mas, a gestão do Públio foi um fiasco. O Públio é o maior orador que eu já vi na minha vida. Eu vi Paulo Brossard falar, Simon… um monte de gente… O Públio estudante foi o melhor orador que eu já vi. E aí que eu aprendi um conceito para nunca mais esquecer: poder eleitoral é uma coisa, poder político é outra totalmente diferente. E daí para frente o pessoal do PT nunca mais ganhou nada. O meu relacionamento pessoal com o João Pedro sempre foi respeitoso. A grande questão sobre o meu relacionamento com o Eronildo sempre foi ele achar que era o líder que sabia de tudo, que tinha as respostas para todas as questões.

IDD: QUAL A PASSAGEM MARCANTE QUE VOCÊ SE RECORDA DA SUA GESTÃO?

Sardinha: A última recordação de uma ação minha (1982): no sexto ano, a Agronomia faz uma mobilização por causa do restaurante do Campus. O restaurante da Medicina era muito bom, tudo certinho, não tinha problema nenhum. E nós fizemos a Medicina entrar em greve em solidariedade ao Campus. Eu não sei como medir isso, mas para mim é o auge, é o topo, é o máximo do poder de persuasão e de liderança. Só que a greve começou a demorar muito. A gente achava que ia ser uma coisa de duas, três semanas, mas aí o negócio começou a se arrastar, e aí começou a ficar no horizonte a perspectiva de se perder período. E o pessoal me pressionava: “E aí Zé… tudo bem, a gente é solidário. Mas eu vou perder meu ano, minha residência…”. Aí é feita uma assembleia no “Zerbini” [auditório da Faculdade de Medicina], e o pessoal do PCdoB enche a sala de secundaristas… e a gente vendo, mas não tinha a coragem de denunciar, porque isso ia pegar mal para a esquerda como um todo. E a gente teve que engolir uma derrota, aonde, na Medicina, a gente queria sair da greve por este objetivo, do restaurante. E sustentaria a greve pela reposição das aulas, das faltas… E aí o Eron e o João Pedro enchem de secundaristas lá para votar. Esse dia foi marcante por um monte de razões. Eu me lembro que o orador principal da nossa tendência era eu mesmo. Toda vez que eu me inscrevia, aí se inscrevia atrás um monte de gente do PCdoB, do PCB… seja lá o que eu fosse falar, eles me “davam porrada”.

IDD: VOCÊ CONSEGUIU CONTORNAR A SITUAÇÃO?

Sardinha: Quando me envolvi nisso tudo de movimento estudantil, a minha leitura era humanística clássica. No período em que eu estava no Diretório, devorei toda a literatura marxista que eu podia. Queria entender… li toneladas de Lenin…. Eu recebia o material de um monte de gente, principalmente dos professores do ICHL. E aí eu sabia da história da Revolução Russa todinha. No meio da assembleia lá, calhou: “O que eu queria dizer aqui é que qualquer ação revolucionária, ela não é uma coisa linear… ela tem um vai e vem… o caminho pode ser torto…”. Eu acabei citando, não lembro se Lenin ou Trotsky que disse assim: “O caminho da revolução não é reto igual a avenida Nevsky” … porque eu era tão enfronhado nisso, que eu sabia… foi automático… na minha cabeça eu tinha São Petersburgo… e a avenida Nevsky é a avenida principal… Quando eu acabei de falar, não vi efeito nenhum (risos)… ninguém sabia que porra era avenida Nevsky (risos). Aí eu fui tentar explicar, e ficou pior (risos)… O fato é que a gente perdeu.

IDD: MAS AINDA TEVE DESDOBRAMENTOS? GREVE DE FOME?

Sardinha: Essa reunião foi de manhã… aí eu vou para casa, almoçar com minha mulher…. Estou bem almoçando… uma aluna liga, a Marineide: “Zé, o “Pefê” pediu para te ligar… O que a gente faz agora? Nós perdemos a votação…”. Eu disse a ela que só restava então fazer uma greve de fome, e bati o telefone. Aí o “Pefê” volta para a assembleia e fala a mesma coisa que eu disse… Dizem que nesse momento sai um estudante de Agronomia e um de Medicina. O de Agronomia, o Chico Braga, vai para o Campus e entra numa sala onde a Vânia estava dando aula de Citologia, e…. entra em greve de fome… a primeira greve de fome que teve no movimento estudantil. O outro cara, o Walter Cavalcante, que era um maluquinho de Medicina, entra em greve de fome lá na Medicina também. Então o que era um repto, o que era uma blague… alguém assumiu aquilo ali… minha participação na primeira greve de fome (risos).

IDD: ENTÃO VOCÊ TINHA UM GRANDE PODER DE PERSUASÃO…

Sardinha: Já nessa época, começando as coisas do PT e, principalmente, pela participação no movimento estudantil, eu desenvolvi um talento para coordenar assembleias, que eu não tinha… nem no PCdoB tinha. Até o pessoal do PCdoB às vezes ficava incomodado com a maneira pela qual eu dirigia, porque eu direcionava mesmo o resultado e o pessoal não conseguia me pegar. Chegou ao máximo do incipiente movimento da Adua [Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas], onde a “porrada” já era maior… que, em algumas situações, para assegurar que a discussão (…) eu, ainda estudante, era chamado para coordenar as assembleias. Só que aí caiu a ficha… Depois dessa, de o pessoal ligar, e eu por telefone dizer que tinha que entrar em greve de fome, e o pessoal fazer… e aquela coisa de, em toda reunião, eu ensaiava de abrir a boca e todo mundo se calava… e se calava gente que eu admirava, que eu respeitava, que eu queria aprender, que eram não só os intelectuais estudantes, como Ricardo Parente, o Carlos Rubens e tantos outros que eu babava do conhecimento dele, como até de professores, Marcus Barros, Aloisio… Eu dizia a mim mesmo como podia estar acontecendo aquilo, se eu não sabia tanto assim. Eu devia estar aprendendo, seguindo esses caras. Eu estou aqui porque quero aprender com eles, e de repente eles estão me vendo como a pessoa que está dizendo para eles para onde é que eles vão. E eu não sou isso. Eu sou uma fraude.

IDD: COMO VOCÊ LIDOU COM ISSO? FOI O MOTIVO PARA O SEU AFASTAMENTO DO MOVIMENTO?

Sardinha: Eu tentei analisar isso com o apoio dos amigos psiquiatras. Galvão, Aguirre… todo mundo se recusou, foi muito complicado. Eu queria sentar num divã e analisar o que era isso. O que era esse poder que eu tenho de manipular, de fazer as pessoas fazerem o que eu quero, se nem eu tenho certeza do que eu quero. Se tudo que eu estou querendo que as pessoas façam, que eu estou dizendo que deve ser feito, eu não sei se realmente é o correto. Eu sei que a minha leitura sobre o movimento revolucionário é muito pouca para eu estar aqui dizendo o que um povo inteiro tem que fazer, o que uma categoria inteira tem que fazer. Foi uma coisa assim de eu me negar diante daquele papel ali. E é nesse momento que eu começo a sair. Esse olhar interior me fez ficar muito mais crítico sobre os que continuaram, principalmente sobre aqueles que desvirtuaram completamente o que tinham começado. Claro que a pessoa pode se arrepender total e completamente e mudar sua vida. Mas aqueles que continuaram com mais ou menos o mesmo discurso e passaram a ter outra prática, esses me nausearam. Quando eu me dei conta que eu não sabia o que estava dizendo para um monte de gente o que fazer, e eu não tinha ou duvidava da sustentação do que eu estava falando, eu passei a ir atrás de ler. Eu já li tudo o que eu posso sobre a Revolução Russa e as etapas, por que Lenin discordava do Stalin, o Kamenev…

IDD: DEPOIS DE VOCÊ, QUAIS OUTROS LÍDERES VIERAM DO CURSO DE MEDICINA?

Sardinha: Depois de mim, quem surge na Medicina é o Luiz Cláudio… e o João Jaburu. Eu acho que o Luiz Cláudio herdou uma parcela da ascendência que tive na Medicina. Já o João Jaburu… zero. O “Pefê” é da mesma turma do Luiz Cláudio…, mas ele não ficou aqui. Ele foi embora. Ele era mais visto como uma pessoa folclórica… aquele negócio de sempre andar sujo… Referência da direita?!…. Quando tinha eleição geral para vereador, prefeito… um monte de estudante de Medicina chegava e perguntava para mim em quem eles deveriam votar… o grosso da minha turma era assim…. Bastava eu dizer “para cá” … Eu só sei que a primeira cagada que eu fiz na vida foi fazer o povo de Medicina votar no Artur Neto. Os estudantes de Medicina, eles tinham uma posição predominantemente contra a ditadura. Mas muita gente era ligada a classes dominantes. E parece que era uma coisa assim moderninha, simpática, manifestar posições contra a ditadura, embora, quando chegasse em casa, na hora do almoço… Muito estudante de Medicina era primo, era amigo, era vizinho… tinha sempre alguma coisa com alguém que estava no poder naquela época.

IDD: VOCÊ CHEGOU A TER ALGUM PROBLEMA COM INFORMANTES INFILTRADOS NA UNIVERSIDADE?

Sardinha: A gente conhecia os caras. Tinha um monte de estudantes que eram agentes da Polícia Federal. Tinha um que se chamava “Paulo Polícia” (risos), e ele fazia os dois lados … Quando eu fui chamado pelo almirante Gama e Silva, lá no alto do prédio da Receita Federal… a gente ia fazer uma manifestação no Campus… acho que era o primeiro trote que a gente fez sem trote. Ele perguntou: “O que vocês vão fazer lá? ”. Eu respondi que era só um trote. Ele: “… aqueles filhos da puta, comunista, vermelho…”. Ele foi tão exagerado que achei até folclórico: “Se vocês fizerem… eu vou comer teu (…) na frente das tuas colegas…”.

IDD: COMO ERA SEU RELACIONAMENTO COM O REITOR MOURÃO?

Sardinha: Assim que fui eleito, meu ofício 001 foi solicitar uma audiência com o reitor. E eu lembro que todo mundo reclamava que, para falar com ele, tinha de ir lá e esperar… foi absolutamente impressionante: no horário marcado, eu cheguei lá, ele estava me esperando. E era uma sala comprida, coisa do poder. A mesa dele lá longe, um tapetão que você tinha que correr. Era na José Paranaguá. Não lembro qual era a pauta. Parecia que o cara estava com medo de mim…. Eu resolvia as coisas sozinho. A gente definia a pauta e eu ia.

IDD: TEVE ALGUMA SITUAÇÃO SUA COM O REITOR E O RAIMUNDO CARDOSO?

Sardinha: Houve uma situação impressionante: eu vivia o tempo inteiro puto com o Cardoso, porque ele era o cara que mais falava, dava palpite, sugeria. Não que ele fosse chato. Mas assim, ele era um cara que encantava todo mundo. Era impressionante o carisma dele e o poder de sedução, principalmente com as mulheres idosas. Mas, nas horas dos confrontos, dos eventos… que você tinha de botar a cara para aparecer na televisão… ele sumia! Um belo dia, eu encostei ele na parede. Aí chamei ele de filho da (…), de covarde… ele deixou eu falar tudo. E aí ele me contou a história dele… e caiu minha ficha. Nós tínhamos uma pauta de reunião com o Mourão… eu não me lembro do que era para tratar… e combinamos exatamente quem ia falar o que. Fomos para a reunião…. Chegando lá. O Cardoso começa a falar. Aí um ficou olhando para a cara do outro, porque ele não tinha sido escalado para falar. O Cardoso então tira do bolso uma planta de uma área imensa no meio do mato: “Seu reitor é o seguinte… eu sou lá do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia] e eu recebi a incumbência de vistoriar essa área que o Inpa tá querendo… mas eu estou lhe oferecendo, se o senhor tomar a dianteira, isso aqui pode passar para a universidade…”. O reitor se entusiasmou e nós ficamos com caras de idiotas (risos)… E ele arrematou: “Bom, agora o senhor vê as reivindicações dos meninos” (risos). Eu acho que foi logo nesse dia que eu dei o esporro, porque ele não seguiu a pauta… e descasquei para cima dele….

IDD: ALGUMA PASSAGEM ENGRAÇADA OU CURIOSA DO SEU TEMPO DE PRESIDENTE DO DU?

Sardinha: No dia da primeira manifestação do Rogelio Casado todo nervoso lá, o “Fogoió” [Lourival] não foi. Aí, voltamos para a república, era aniversário da Sigrid. Então, relaxados, cumprimos a nossa atividade cívica… E todo mundo tinha medo de andar com o “Fogoió” porque ele aprontava aonde ele ia… Aí, sete horas, todo mundo arrumadinho… chega o “Fogoió” e pergunta onde era a festa. Nós já tínhamos combinado que se ele perguntasse, cada um responderia que ia sair com a namorada. Mas não deu outra… quando a gente estava lá, com uma hora de festa, na vilazinha onde morava o Nelson Fraiji… o “Fogoió” entra na sala e dá de cara com o reitor, que era convidado da Sigrid. Para você ver como eram as relações: de manhã nós estávamos na manifestação e à noite o reitor estava no aniversário (risos). Mas o “Fogoió” diz na cara do Mourão: “E aí seu reitor filho de uma (…). Enchendo o c… de uísque, enquanto lá na Faculdade não tem biblioteca…”. Ele detonou toda a lista de reivindicações da manifestação para cima do reitor (risos). O “Fogoió” foi expulso da festa. Depois ele foi chamado na diretoria para se explicar. Aí ele falou para a gente: “Ué, vocês estão estranhando o quê? Não foi por isso que vocês fizeram aquele movimento todo lá?!…” (risos). Ele literalmente disse para o reitor, com todo o vigor do mundo, tudo o que o movimento queria dizer… ele foi lá bêbado e falou… O “Fogoió” era lógico, uma das pessoas mais sensatas que eu já vi no mundo. Só que era uma sensatez que extrapolava o bom senso.

IDD: ALÉM DA VIAGEM PARA A FAU-SP, VOCÊ FOI PARA ALGUM OUTRO CONGRESSO? PODE NOS CONTAR ALGUMA SITUAÇÃO INUSITADA DESSES ENCONTROS?

Sardinha: Depois da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo] eu mais ou menos que comandei a equipe que foi para o Congresso da UNE, em Salvador. Nós fomos de avião até Belém. De lá nós fomos de ônibus, dois dias de viagem. Delegação de dezoito a vinte pessoas, no máximo. Pela Medicina fomos eu e a Luíza Garnelo que é hoje uma das diretoras da Fiocruz, João Tomé, Izel, que depois virou professora, Conceição Derzi e Mário Adolfo pela Comunicação, o João Pedro, o Ailton… o Cardoso não foi. O Botineli tinha nos alertado para uma possibilidade: “Nesses congressos da UNE, é tradição começar com um encontro da delegação do Amazonas com a delegação do Rio Grande do Sul, são os extremos do Brasil…”. E aí parece que o João Pedro gostou dessa história e pegou uma bandeira do Amazonas, que é muito parecida com a bandeira americana. Quando ele levanta aquele troço, houve um ensaio de vaia (risos) … foi no Centro de Convenções, que estava em obras… Mario Adolfo fez uma charge (acho que ele tem até hoje…) com um monte de bunda… porque nós estávamos sentados no cimento, cansado… e essa charge fez um sucesso, que saiu circulando e foi sucesso no encontro todinho… “Se as nossas bundas aguentarem, a ditadura cai” (risos). Eles arranjaram para a gente uns apartamentos pequenos sem móveis e uns colchões no chão… aí dormia todo mundo naqueles trecos. Nenhum da gente falou nada no congresso. A gente não tinha nem acesso à pauta. A gente não sabia exatamente o que ia ser tratado. Moção era o que mais tinha. Eu lembro que teve uma fala do Serra [senador José Serra] enquanto último presidente…. Uma homenagem ao Honestino Guimarães, de Brasília. E aí depois o mesmo trajeto: ônibus até Belém, e de lá de avião para Manaus.

Assembleia no ginásio do mini campus no final da década de 1970. José Carlos Sardinha – Presidente do D.U.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *