Entrevista com Guto Rodrigues

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O atual presidente do Partido Popular Socialista (PPS) no Amazonas, José Augusto de Souza Rodrigues, o Guto Rodrigues, conversa com o IDD sobre algumas lembranças da sua participação no Movimento Estudantil amazonense.

IDD: DE ONDE E QUANDO SURGE SUA RELAÇÃO COM O MUNDO POLÍTICO?

Guto: Eu nasci em 30 de julho de 1951, sou natural de Manaus, filho de Agnelo Rodrigues “Carapanã”, que foi um bom jogador de futebol, um grande animador cultural e tinha uma vinculação com o “Partidão”, o PCB. Já a minha mãe, era religiosa. Portanto, eu vivi entre as relações de movimentos políticos e culturais do meu pai e a religiosidade da minha mãe.

IDD: QUAL É SUA FORMAÇÃO ESCOLAR?

Guto: Naquela época nós éramos alfabetizados, primeiramente, pelas professoras de escola particular, depois íamos para a escola pública. Eu estudei no Colégio Marechal Hermes, na Av. Sete de Setembro, local onde funcionou a antiga Câmara Municipal e hoje é o Basa, banco do qual sou funcionário. Ou seja, minha vida praticamente se estabeleceu naquele endereço. Depois passei no exame de admissão para o Colégio Estadual, uma espécie de vestibular para entrar no ginásio. Naquela época havia rivalidade entre os principais colégios públicos, ou se estudava no Colégio Estadual ou no Instituto de Educação, instituições que tinham grandes mestres. O colega que me acompanhou desde o jardim da infância até o Colégio Estadual, foi o saudoso Rogélio Casado, que era psiquiatra. Fomos, por predestinação, nesse período todo, companheiros do campo da esquerda.

IDD: E QUANDO VOCÊ SE INTERESSOU PELO MOVIMENTO ESTUDANTIL?

Guto: Em 1969 eu me destaco dentro do movimento cultural. Minha atuação começou no Colégio Estadual, onde tínhamos professores “avançados”, como o Theodoro Botinelly, que tinha ido a Moscou. Na época ele era, além de professor do Estadual, uma referência do “Partidão”. Ele foi, por muito tempo, o meu contato mais próximo. Mas o nosso grande avanço era o movimento cultural. Como compositor, assim como era o meu pai, eu participei dos grandes festivais dos anos 60, era a melhor maneira de militar naquele período.

IDD: VOCÊ USAVA A MÚSICA COMO FORMA DE MANIFESTAÇÃO?

Guto: Sim. Como exemplo disso, nós organizamos, no Colégio Estadual, um festival de música, paralelamente ao festival oficial promovido pelo governo do estado. Os principais compositores na época eram: Aníbal Beça e Celito. Num desses festivais patrocinados pelo governo do estado, eu concorri e fiquei em terceiro lugar.

IDD: E ONDE FOI REALIZADO ESSE PRIMEIRO FESTIVAL PARALELO?

Guto: O evento ocorreu na praia da Ponta Negra, em cima de uma balsa. A gente conseguiu fazer um dia do grande canto daquela juventude rebelde. Para mim foi um momento importante ter vivido aquele momento. Foi considerado o woodstock baré e eu tive o privilégio de apresenta-lo. O festival oficial também aconteceu normalmente, acho que no anfiteatro do Parque 10. Parece que o vencedor foi o Aníbal Beça, não me lembro bem.

IDD: QUAL A PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO ESTUDANTIL QUE VEM EM SUA LEMBRANÇA?

Guto: Foi nos anos 60, quando eu estudava no Colégio Estadual, a luta pela conquista da meia-entrada nos cinemas pelos estudantes. A gente quase queimou o Cine Odeon, em plena ditadura. As lideranças estudantis que estavam lá eram o Deco [Deocleciano Bentes de Souza], recentemente falecido e o poeta, também falecido, Aníbal Beça. Aliás, foi o Aníbal Beça quem jogou a primeira grande pedra na tela (risos).

IDD: CONTE-NOS SOBRE ALGUM EVENTO MARCANTE EM QUE VOCÊ TENHA SE ENVOLVIDO NA DÉCADA DE 70?

Guto: Em 1974, época em que eu trabalhava na Casa Dragão Caça e Pesca, numa manhã, quando eu me dirigia para o trabalho, o Exército havia tomado a rua dos Barés toda. O Alexandre Davi Antônio, meu empregador, era um comerciante que vendia armas. Havia uma investigação sobre possível venda armas, para a guerrilha pela Casa Dragão, ou eram armas contrabandeadas, algo assim. Bem, na condição de empregado da firma, eu fui chamado para depor no Exército. Aquilo foi uma coisa muito traumática para um jovem que ainda não tinha 20 anos de idade. Eu fiquei com medo de ser preso, mas dei o meu depoimento. Acabou que a Casa Dragão não poderia mais vender armas. Ora, era natural se vender armas ali, as pessoas compravam para levar para o interior, não tinha essa fiscalização toda. Era para se defender de onças etc. Depois do ocorrido, o Davi Alexandre achou prudente a gente dar um tempo de Manaus. Eu acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei até quase o final de 76.

IDD: E O QUE VOCÊ FAZIA PARA SE MANTER DURANTE SUA ESTADA NO RIO DE JANEIRO?

Guto: Eu vivia da música e do teatro, eu toquei na noite. Ao mesmo tempo eu consegui trabalhar com um procurador da Justiça do Trabalho. Foi ele quem me orientou para que eu voltasse para Manaus, que eu deveria fazer um concurso para o Banco da Amazônia. À época o melhor emprego era ser bancário, onde estavam os maiores salários. Você deveria ser funcionário do Banco do Brasil, do Banco da Amazônia. Eu parei de estudar e me dediquei exclusivamente a me preparar para o concurso do Basa, meti na cabeça, naquele momento, que eu iria passar no concurso, e passei. Trabalho no Basa até hoje.

IDD: QUAIS ERAM AS CORRENTES IDEOLÓGICAS PREDOMINANTES NESSA ÉPOCA?

Guto: No final da década de 70, além, do PCB – Partido Comunista Brasileiro, ao qual eu estava vinculado e que adotava uma linha mais voltada para o movimento cultural, surge o PCdoB e o PT. O primeiro, vindo da Guerrilha do Araguaia, se organizou fortemente dentro da Universidade do Amazonas; o segundo, a partir de dois fortes movimentos, um dentro da Igreja Católica, com a Teologia da Libertação e o outro com as diversas correntes Trotskistas. Portanto, haviam três grandes correntes no final da década de 70.

IDD: QUEM VOCÊ DESTACARIA COMO REFERÊNCIA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL UNIVERSITÁRIO NAQUELE PERÍODO?

Guto: O hoje médico dermatologista, Dr. José Carlos Sardinha, era uma referência da corrente Trotskista, ele foi o primeiro presidente da retomada do Diretório Universitário pelas correntes democráticas, até então dominado pela direita, vinculados a Ditadura, como o atual deputado federal Atila Lins.

 IDD:E QUAIS ERAM OS ESTUDANTES LIGADOS A DITADURA?

Sem dúvida nenhuma o grande expoente da juventude da Ditadura era o Robério Braga, que chegou a participar de um congresso da UESA, se intitulando representante, portando uma carta da diretoria do Instituto de Educação do Amazonas – IEA. Mas havia outros nomes, como Atila Lins, Beto Michiles, Plínio Valério, todos integravam a juventude da Arena (Aliança Renovadora Nacional).

IDD: FALE-NOS DA SUA VIDA ACADÊMICA.

Guto: Comecei a estudar no Cenesc, que ficava ao lado da residência episcopal, na rua Joaquim Nabuco. Lá conheci o Ademir Ramos e outros companheiros. Mas não cheguei a concluir o curso de Teologia e Filosofia, na realidade, logo depois eu passei no vestibular para o curso de Letras, eu e o Paulo Graça. Meu desejo mesmo era fazer o curso de Artes, mas esse não existia.

IDD: GUTO, DENTRO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL UNIVERSITÁRIO, NO FINAL DA DÉCADA DE 70, QUAIS ERAM AS BANDEIRAS MAIS IMPORTANTES?

Guto: No plano nacional a anistia ampla, geral e irrestrita, que favorecia o retorno das grandes lideranças partidárias que foram para o exílio durante o regime militar; a organização para a reconstrução das entidades estudantis, especialmente a União Nacional dos Estudantes – UNE, com o congresso ocorrido em 1979; e a terceira, as manifestações tanto secundaristas quanto do movimento universitário, na luta pela meia passagem.

IDD: HÁ MAIS ALGUMA OUTRA BANDEIRA DE LUTA QUE VOCÊ GOSTARIA DE REGISTRAR?

Guto: No início da década de 80, houve a luta pelo Bandejão. O restaurante universitário estava prestes a fechar e os estudantes lutaram em defesa dos alunos do Campus e da Faculdade de Medicina, para que esses tivessem direito a refeição. Esse foi um grande movimento.

IDD: VOCÊ PARTICIPOU DO CONGRESSO DE RECONSTRUÇÃO E FUNDAÇÃO DA UNE?

Guto: Sim, eu fui como delegado. Em nossa delegação foram o Sardinha, o João Pedro, Conceição Derzi, Braga, da Agronomia, o Rui Brito, Rui Marreiro, João Tomé Mestrinho, Paulo França, do curso de Economia, o Cirino, o Mário Adolfo, da Comunicação Social, o Amazonas mandou quase vinte delegados para Salvador.

IDD: QUAL A PARTICIPAÇÃO DO PARTIDÃO NAS PRIMEIRAS ELEIÇÕES DO DIRETÓRIO UNIVERSITÁRIO?

Guto: Em 1980, eu fui presidente do Centro Acadêmico de Letras. O Movimento Estudantil, como já citei, naquele momento tinha como representantes, do PT, a família Bessa, o Sardinha, o Públio Caio, a Bernadete Andrade, entre tantos outros nomes. O PCdoB tinha, dentre tantos, o João Pedro, o Eron Bezerra, Ailton Soares e o Chrisólogo. No Partidão tinha o Orlando Farias, Lino Chíxaro, Lúcia Cordeiro, Sabá Raposo e muitos outros companheiros. Apesar de estarmos separados em alguns momentos e juntos em outros, todos tínhamos os mesmos objetivos: transformar o mundo, lutar pelo retorno da democracia, pelas eleições diretas.

IDD: NA DÉCADA DE 80, DURANTE O PERÍODO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL, O QUE MAIS VOCÊ FEZ, ALÉM DE SER DIRIGENTE DO PARTIDO?

Guto: Posso destacar a minha passagem como superintendente cultural (naquele momento não havia Secretaria de Cultura), tive a oportunidade de ser convidado pelo governador Gilberto Mestrinho, por que o PCB tinha forte vínculo com o seu governo. Ali defendi diversos projetos, como o projeto “Nossa Música”e o Festival da Canção de Itacoatiara, o Fecani.

IDD: O QUE VOCÊ PENSA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL DE HOJE?

Guto: Totalmente diferente do que era. O Movimento Estudantil hoje, está refém dos governos federal, estadual e municipal. Os estudantes hoje praticamente estão vinculados às estruturas partidárias oficiais, não há luta de rebeldia, de conquistas com novas bandeiras como naquele tempo. Lamentavelmente não há independência, o Movimento Estudantil perdeu o glamour da época. Confesso que tenho muitas saudades daqueles dias.

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