Entrevista com Eron Bezerra

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Natural da cidade de Boca do Acre, engenheiro agrônomo,  dirigente estudantil na década de 1970 e figura central na organização do PCdoB no Amazonas, fala ao IDD sobre a sua atuação no Movimento Estudantil e na reorganização do PCdoB amazonense.

IDD: Sua história com o PCdoB começou quando?

Eron: Tive contato com o Partido Comunista do Brasil na Guerrilha do Araguaia, no Pará, em 72. Fui estudar em Belém o curso de Saúde Pública, com bolsa da Fundação Sesp, da Fiocruz, e havia um colega de aula que era irmão de um sargento que estava no Araguaia combatendo os guerrilheiros. Tentei chegar ao Araguaia, mas não consegui porque estava bloqueado pelo Exército. Desde então eu me entendo como um comunista. Voltei ao Amazonas e fui trabalhar em Boca do Acre, na Fundação Sesp. Daí eu pedi minha transferência para Belém, pois queria reencontrar lá o pessoal da luta.

IDD: E aí você foi novamente de Boca do Acre para Belém…

Eron: Que nada, o Sesp não atendeu a minha solicitação. Por isso escrevi uma carta esculhambando a direção deles e acabei sendo demitido. Tive de vir a Manaus para responder a um processo em abril de 75. Essa foi a razão pela qual eu estou em Manaus. O juiz que me julgou era federal e, por coincidência, tinha servido uma época em Boca do Acre. Ele olhou meu processo, viu que o Sesp tinha me demitido sob a acusação de ser subversivo. Acusação de subversão, naquela época, era sinônimo de “paredão”. O juiz pegou, olhou e disse: “Não, isso não tem nada a ver com subversão. Isso é o desabafo de um jovem que quer sair de uma cidade. Porque só sabe a tragédia que é aquilo quem já serviu lá, como eu”. Eu escapei por conta disso, e, desde então, estou em Manaus.

IDD: Você participou da fundação e foi o primeiro presidente do primeiro centro acadêmico da Universidade do Amazonas?

Eron: Eu entrei em 1976 na UA, fui fazer Agronomia, curso que foi fundado na minha turma. E a primeira providência que nós tomamos foi criar o Cuca. Minha chapa era eu como presidente e o João Pedro como vice, isso já em agosto de 77. Como era proibido ter entidades estudantis livres, pois o estatuto da Universidade vetava isso, aí eu descobri uma forma: criar um centro cultural. Daí a sigla Cuca, que significa Centro Universitário e Cultural de Agronomia. Ou seja, no nome ele não era um centro acadêmico. Fizemos isso para tentar escapar da proibição. Não adiantou. O reitor Hamilton Mourão, pai da nossa amiga e velha camarada Arminda Mourão, reuniu o Conselho Universitário e decretou a ilegalidade do Cuca por portaria oficial, publicada em tudo que é jornal de Manaus. Nós éramos proscritos. Mas mesmo assim, colocamos o Cuca para funcionar e o tornamos uma organização fortíssima, muito ativa.

IDD: Quais as primeiras movimentações do Cuca?

Eron: A primeira greve da Ufam fomos nós que fizemos, quando conseguimos expulsar um professor, de caráter duvidoso, e nós tivemos a capacidade de identificar e puni-lo. No primeiro dia, logo no nosso primeiro contato, ele chegou e disse que tinha dificuldade em dar aula em português porque havia estudado na Bélgica e só falava inglês. Um boçal. Aí veio a prova e ele fez uma pergunta que eu também nunca esqueci: “Quais as diferenças que se assemelham entre os basidiomicetos e ficomicetos?”. Ora, meu amigo, o que se diferencia não se assemelha. Todo mundo tirou zero. Nós o pressionamos e ele acabou cancelando essa prova. Mas aí, na próxima ele veio pior ainda, para nos ferrar mesmo. Na sala tinha uma amiga nossa muito estudiosa, bem CDF mesmo. O nome dela é Eda, que hoje é engenheira agrônoma do Idam. E aí nós dissemos: “A Eda vai começar a fazer a prova. Se ela disser que está compatível, paciência. Caso contrário, nós vamos pegar a prova de todo mundo e começar uma greve hoje”. O professor entregou a prova e todo mundo ficou de braço cruzado. A Eda olhou a prova e disse que não tinha jeito, era “irrespondível”. Aí cada um pegou a sua prova e foi colocando uma sobre a outra, em cima da mesa dele. E começou a greve. Nós derrotamos o professor e o expulsamos.

IDD: É nessa mesma época que você conhece o Raimundo Cardoso? Ele foi atuante na reorganização do PCdoB no Amazonas?

Eron: Essa é outra ficção que alguns contam, talvez, porque ele também insinuava isso. O Raimundo Cardoso nunca participou da organização do PCdoB no Amazonas. Ele ajudou a fundar o PT. Em 79, quando o PT foi criado, o Cardoso era do grupo de proa que fundou o Partido dos Trabalhadores aqui. O Cardoso nunca teve qualquer participação na organização do PCdoB. Ele teve participação no movimento estudantil, mas não na organização do PCdoB. Até porque o grupo dele era uma facção ligada ao Oséas Duarte, uma liderança do Ceará e que, junto com o Genoíno, estava em divergência com o partido por conta da Guerrilha do Araguaia. O grupo do Oséas Duarte e do Genoíno, do qual o Cardoso se filiava, era dessas tendências que existem, mas que não é tolerada no PCdoB, porque o nosso estatuto proíbe grupos e facções de qualquer natureza. Eles então criaram um grupo dentro do partido, e, obviamente, isso não era tolerado e eles acabaram saindo.

IDD: Mas ele era do PCdoB?

Eron: O Cardoso nunca pertenceu ao PCdoB do Amazonas. Ele teve ligação com o partido no Ceará. Aqui nunca militou como tal. Ao contrário: sempre procurou obstaculizar a fundação do PCdoB, por razões óbvias, pois ele estava em outro projeto. Ele teve ligações com o partido no período do golpe militar. Saiu do Ceará, foi para o Acre, sei lá para onde, e boiou por aqui já como estudante. Trabalhou no interior do Amazonas etc., mas, o Cardoso nunca militou no PCdoB do Amazonas. Ele teve militância no movimento estudantil aqui, sob o guarda-chuva geral do nosso grupo, mas nunca se identificou, nunca participou de nenhuma reunião do Partido Comunista no Amazonas. Isso é um recorte que estou dizendo para você com a autoridade de quem fundou o partido. Porque tem muita gente que conta a história de acordo com a sua conveniência.

IDD: Quais outros nomes eram referência entre vocês na luta democrática?

Eron: Outros nomes de referência que participaram desse primeiro momento… tinha um rapaz chamado Geraldo, que depois se bandeou para o PCB, um aluno de Medicina. Ele não era do Amazonas e foi embora. A Mônica Maia, que sumiu do Amazonas, foi para o Rio de Janeiro. O Dalcy Braga, já falecido, era estudante quando o conheci, depois virou professor e depois se bandeou. Participava, evidentemente, de um grupo mais alargado, mas não necessariamente do PCdoB… muita gente do PCB, que naquela época tinha ainda alguma força, como o Nestor… algumas pessoas do PCB que tinham alguma influência política, tinham alguma força aqui. Muito ligadas a essa área cultural e a essa área de movimento negro. O Nestor Nascimento, por exemplo, era o presidente do Moan (Movimento Alma Negra). E esse grupo fazia reuniões permanentes, de debates. E independente se era ligado ao PCdoB ou ao PT, aí tinha gente de várias tendências de esquerda, que constituiu, mais ou menos, um polo de resistência, onde se debatia de tudo. Lia Politzer, Marx, Engels, poetas, enfim… era um grupo de estudo teórico e, ao mesmo tempo, de debate acerca de alternativas da ditadura.

IDD: E já existiam as divergências de correntes de pensamento?

Eron: Sim, sim. Já naquele momento ficavam claros os pontos de vista diferentes. Enquanto nós, o pessoal mais ligado à linha marxista do PCdoB, defendíamos o enfrentamento mais duro com a ditadura militar, o pessoal que tinha esse viés já de tendência para o PT discutia e debatia as alternativas democráticas. Do PCB, o chamado “Partidão”, tem uma pessoa que está na ativa até hoje e que já era referência naquela época, que é o Guto Rodrigues, uma pessoa que teve contribuição com o movimento. O Rui Brito, que depois veio para o PCdoB. O Mariolino que tocava violão em nossas reuniões. O Nestor Nascimento que era o presidente do Moan (Movimento Alma Negra). E a gente usava um ponto de debate muito apropriado, que era o Bar do Alex, nas esquinas da Getúlio Vargas com a Saldanha Marinho. Aquilo era um “point” onde a gente passava a noite inteira fazendo a “revolução” (risos). Era ali no Bar do Alex que geralmente a gente se encontrava. Lógico que tinha momentos de debate organizado, com leitura, com textos etc., mas ali, impreterivelmente, em alguns dias da semana, a gente se reunia e batia papo até madrugada afora, discutindo isso.

IDD: Quais medidas vocês tomavam para não serem perseguidos pelos militares?

Eron: Naquele tempo tudo era clandestino e não tinha ata, não tinha registro de nada. A gente acabava reunião e rasgava tudo quanto era papel, por razão de segurança. Todo mundo tinha nome falso. Eu não vou dizer qual o meu, porque tem documento assinado até hoje por mim por aí espalhado. Mas, todo mundo usava nome frio nas reuniões. Você entrava em reuniões de “aparelho” com os olhos vendados, porque, se “caísse”, você não sabia onde era. Por mais que lhe torturassem, você não sabia dizer onde era. Agora, a gente escolhia “aparelhos” em locais chiques. Eu vou lhe dizer isso e posso revelar, até para esnobar a burguesia. Sabe onde era nosso “aparelho”? No Vieiralves. “Aparelho” não é uma sede. É um lugar escondido, que ninguém sabe o que é, onde se faziam reuniões clandestinas. À exceção de mim, que sabia onde era, porque era dirigente do partido – eu entrava lá de olhos abertos – o restante, todos entravam de olhos fechados, porque se “caísse” alguém, não sabia onde era. Nós tínhamos um “aparelho” em pleno Vieiralves, no meio da burguesia (risos). Ninguém jamais ia suspeitar. Se o Vieiralves hoje é chique, imagina em 75-76?! É como se tivesse hoje um “aparelho” na Ponta Negra.

IDD: Voltando a falar na universidade, como foram as articulações estudantis para a retomada do Diretório Universitário, que estava nas mãos da direita?

Eron: Em 78 ou 79, a gente organizou uma chapa do DU, a partir do Cuca. Nós estimulamos o Cecum, que foi o segundo centro fundado, o de Medicina, na mesma lógica (Centro Cultural de Medicina); o Cafca (Centro Acadêmico e Cultural de Filosofia); o Cucos (Centro Universitário e Cultural de Comunicação Social) … isso tudo foi criado por nós. A gente tinha gente em tudo: a Mônica, que cuidou da fundação do Cucos e era ligada ao partido; o Ricardo Parente, que foi o cara que nos ajudou a fundar o Cafca, que era de Filosofia, já falecido, e já era dessa tendência pró-PT. O movimento, desde o começo, ele tinha, a rigor, três facções muito claras: uma pró-PCdoB, pró-marxista; uma pró-PCB e uma pró-PT. A tendência maior era nossa. A do PCB menor e a do PT um pouco intermediária. Mas o PT, como sempre, não tinha unidade, eles tinham um pedaço para todo lado. Eles tinham facções entre eles mesmos, como até hoje o PT é assim. Então, nós pegamos o nosso pessoal, fizemos uma reunião. Alguns não queriam se expor muito, por razões óbvias, e outros, além de não quererem se expor, tinham impedimentos legais: um aluno, para participar oficialmente de uma chapa do DU, ele não podia ter reprovação. Tinha de ter média alta. Tanto que, legalmente, eu nunca fui do DU. Eu fui da diretoria informal, porque minha média era esculhambada (risos).

IDD: Quais as chapas concorrentes?

Eron: Para nós enfrentarmos a chapa da direita, que era encabeçada por alguém ligado ao Átila Lins, nós arrumamos um militante de Medicina chamado José Carlos Sardinha, que era um aluno aplicado, preenchia todos esses pré-requisitos. Quem o conhecia era o Geraldo, que fazia Medicina também. Ele disse: “Rapaz, eu conheço uma pessoa que preenche isso. Um cara progressista, tem uma visão boa. E é um cara muito estudioso. Ele preenche tudo isso aí”. Então fomos conversar com o Sardinha. Ele é de Lorena, do interior de São Paulo, estava chegando de viagem, lembro como se fosse hoje. Nós fomos atrás dele, conversamos, explicamos. Ele ficou meio assim. Mas aí, a vaidade gritou mais alto: o cara virar presidente do DU, de graça, que naquele tempo tinha muito prestígio. Ele topou e nós ganhamos de lavada. Aí nós botamos o Cardoso, o Paulo França era o vice. Eu e o Cirino entramos na diretoria-geral, mas não em cargos oficiais. Aí nós já montamos uma diretoria, inclusive divulgamos na campanha, uma diretoria política, porque a eleição do DU só eram três pessoas. Eram o Sardinha, o Cardoso e o Paulo França. O nome da chapa era “Reação”. Esse era um nome mais curioso, porque, hoje, se você botar um nome desses, todo mundo vai te esculhambar. Só que era uma reação à direita. Nós ganhamos de lavada.

IDD: E o “Tribuna Operária”?

Eron: Eu era coordenador do jornal “Tribuna Operária”. Ele era um polo de atração, porque tinha uma pauta muito dura de combate à ditadura. Era o principal jornal de referência. Como o PCdoB não era identificado como um partido político, a primeira identidade do PCdoB no Amazonas foi conhecida como os tribuneiros. A gente vendia de porta em porta. Vendíamos, em média, uns dois mil jornais nos finais de semana. Só era pau. Aquele episódio do Riocentro?! A gente botou na primeira capa o Figueiredo com uma bomba na boca. Aí chega a Polícia Federal, recolhe a gente, prende todo mundo. Era um parto. Todo dia você tinha que matar um leão. Os caras prendiam, tomavam o jornal, tocavam fogo. Mas a gente, na outra semana, estava com tudo lá de novo (risos). Nesse momento, eu vou secundarizando a minha participação nesse negócio de estudante e vou me dedicando mais à estruturação orgânica do partido e do jornal, que era como a gente podia resistir em melhores condições.

IDD: É verdade que você conheceu o hoje senador Omar Aziz por causa desse jornal?

Eron: Nós conhecemos o Omar assim: estamos vendendo o “Tribuna Operária”, por volta de 1982, ali no Mercado Adolfo Lisboa. A gente ficava em um coreto que tinha lá, subia nesse coreto e falava com repetição. Não tinha som, não tinha nada, porque a polícia prendia sempre, então a gente não usava som, falávamos por repetição. Pegávamos dez militantes e fazíamos por repetição. Aí, nós estamos lá vendendo o jornal, era a denúncia do Massacre de Sabra e Chatila, quando os israelenses foram lá e massacraram um acampamento de palestinos. O “Tribuna Operária” fez uma denúncia desse episódio na primeira página do jornal. Um militante chegou comigo e disse: “Eron, tem um cara ali que quer comprar cem jornais”. Eu pensei: “Porra, esse cara deve ser provocador. Deve ser da Federal”. E disse para trazerem ele. Porque, para um cara comprar cem “tribuna”, naquele período?! Das duas, uma: ou era um doido ou um agitador, um provocador que queria comprar o jornal para rasgar. Aí o Omar veio e disse que era palestino. Vendemos o jornal para ele. Nos apresentamos para o pessoal dele depois. Esse foi o contato inicial do Omar com o partido.

IDD: Depois do Sardinha, vocês conseguiram eleger, logo em seguida, o João Pedro como presidente do DU. O que aconteceu para que vocês perdessem para o PT na eleição seguinte, com você como candidato?

Eron: A razão da nossa derrota quando eu concorri foi que nós tivemos problemas com a gestão anterior, do João Pedro, que se alongou muito e isso desgastou nosso grupo. Por consequência, acabamos ficando com dificuldade de montar uma chapa. E eu tive de concorrer porque, na verdade, a gente não tinha alternativa. Não é que eu quisesse, até porque meu projeto já era outro. Mas, nós não tínhamos nomes que representassem alguma liderança maior. Montamos uma chapa que se chamava “Unidade”, lembro-me até hoje. O candidato a vice-presidente era o hoje desembargador da Justiça do Trabalho, o Jorge. Tinha também o João Avelino, que era aluno de Farmácia e que hoje é dono de uma rede de laboratórios. Nós três formávamos o núcleo principal da chapa. O presidente da chapa vencedora, do PT, era o Públio Caio, que ganhou com certa folga. Depois do Públio, nós retomamos, elegemos o Paulino, que fazia Biologia e que hoje é bancário do Banco da Amazônia. E depois veio a Vanessa. Nós retomamos e o PT voltou a ter dificuldades em nos enfrentar.

IDD: Você participou de muitos encontros nacionais durante o movimento?

Eron: Fui muito pouco para encontros nacionais. Já tinha certas ressalvas de não me expor muito. Atuei mais na área da Federação dos Estudantes de Engenharia Agronômica do Brasil, que eu fui dirigente nacional. Para o Congresso da UNE nós mandamos, salvo engano, o Mário Adolfo, que não era organicamente ligado a nenhuma corrente, era um estudante, digamos, de massa. Sardinha, João Pedro, Rui Brito, Bernadete… nós mandamos um monte de gente, não tinha um critério muito claro. Depois foi Vanessa, Tasso… geralmente alternava. Mas como meu projeto era outro, eu não podia ficar muito nisso. Primeiro porque isso expunha muito, segundo porque minha concentração de energia já estava noutro campo. Como eu fui me envolvendo muito na questão da luta urbana, depois eu fundei entidade ambiental, a Amapam (Associação Amazonense de Proteção Ambiental). Depois fundei a entidade de mutuários… eu fui o primeiro presidente da Associação de Mutuários do Amazonas. Ajudei a organizar a Fetragi, ajudei a fundar o Enclat, que era o encontro de trabalhadores, e criamos o Elus, que era o Encontro de Lideranças Universitárias, em 76. E aí começa tudo. A gente se reunia para debater tudo, mas o foco central era como derrubar a ditadura.

IDD: Você participou do movimento pelo Restaurante Universitário?

Eron: Com certeza. A Universidade tinha um restaurante parado. Então, um dia nós resolvemos comprar mil pratos de papelão, paramos a Universidade, lá no Campus. Levamos ao reitor Hamilton Mourão, o botamos em cima de um caixote e dissemos para ele falar. Ele foi lá, de paletó e gravata (risos). Ele chegou, nós pegamos um banquinho, uma caixa velha. Eu fiquei segurando e disse que ele podia subir. E ele disse: “Eu só quero saber o seguinte. Amanhã eu vou a Brasília. Vou discutir isso. Mas eu quero saber se vocês têm proposta real ou é só baderna e confusão”. Eu respondi a ele que nós tínhamos o projeto pronto, com orçamento, inclusive. Então o Mourão disse que eu ia com ele. No dia seguinte eu embarquei com o projeto pronto na mão. Eu trabalhava no Inpa e peguei com minhas amigas nutricionistas e montei um projeto, com calorias, tudo bonitinho. O MEC aprovou na hora. Um mês depois a gente já tinha comida.

IDD: Qual era o cardápio do famoso RU nessa época?

Eron: A comida do RU era um café da manhã com pelo menos duas frutas, suco, leite, ovo. Se não tivesse isso a gente derrubava e jogava fora. A gente botava um fiscal nosso na porta, inspecionando. Se a comida não estivesse no padrão que a gente queria, a gente virava as bandejas e dava prejuízo ao dono do restaurante, que tinha de fazer tudo de novo. Era assim que funcionava. E depois foi avacalhando. Hoje você pega a comida lá, é um angu. Mas funcionou assim, na porrada. Nada funciona sem pressão. Nós montamos então o RU desse jeito. Depois nós nos voltamos para a luta mais geral, a luta da meia-passagem. Reconstruímos a Uesa. Eu, pessoalmente, passei em todas as salas da Escola Técnica mobilizando para a recriação da Uesa, acho que em 79-80. Acho que o primeiro presidente da recriada Uesa foi o Vicente Filizzola. Depois o Sávio, a Selma Baçal que depois virou presidente da Ubes e que hoje é diretora da Faculdade de Educação.

IDD: Por falar em luta pela meia-passagem, o que você se lembra da chamada “Batalha de 83”, que ocorreu na Praça da Matriz contra o aumento da tarifa de transporte coletivo?

Eron: As passagens começaram a aumentar de maneira absurda. Não tinha critério, não tinha planilha. Nem sei se existia EMTU, acho que não. A Prefeitura tinha um setor lá que dizia que o valor era tanto e acabou. Não tinha planilha. Então, nós nos reunimos no “Tribuna Operária”, que funcionava bem aqui na Praça da Saudade, do lado desse prédio onde é hoje a escola da magistratura. Ali atrás era o jornal. Tinham uns 80 militantes nessa reunião. Nós decidimos que iríamos organizar uma manifestação, descer e ver como o povo reagiria. Se o povo estivesse disposto, aí sim nós enfrentaríamos. Então nós descemos. Palavras de ordem e vamos descendo. “Não é para quebrar nada”, eu dizia para todos e fomos descendo. Quando nós chegamos na Praça da Matriz, eu só vi foi a pedra cantar na janela de um ônibus. Eu sei quem foi o militante que jogou a primeira pedra. Mas eu não vou revelar, porque o cara está vivo. Ele trabalha, inclusive, num órgão público. Jogou a primeira pedra, que era o teste para ver como seria a reação. Rapaz… quando a pedra atingiu o vidro do ônibus, que quebrou, parece que tinham umas mil pessoas com pedra na mão também. Em cinco minutos, choveu pedra.

IDD: Mas o apedrejamento dos coletivos foi ordenado por vocês?

Eron: Quero deixar isso bem claro que não fomos nós que comandamos isso. A gente ia fazer apenas um teste. Um militante nosso jogou a primeira pedra, mas era apenas um teste. E o teste surtiu efeito com louvor, porque foi pedra para todo lado. E a polícia já rodeando a praça. Quando a polícia rodeou, aí a pancadaria não teve jeito, porque a gente queria sair e a polícia não queria deixar. Se a polícia não tivesse cercado a praça, não tinha tido maior problema. Talvez tivessem quebrado um ônibus ou dois, aqueles que estavam por ali. Mas, como a polícia cercou a praça e fez um cinturão que não entrava e nem saía ninguém, evidentemente que todo mundo que estava dentro da praça começou a jogar pedras nos ônibus. O objetivo era sair de lá e ir direto para o Palácio Rio Negro, na Sete de Setembro, falar com o governador. E nós fomos parar lá, mesmo com gente quebrada. Foi dispersando, a gente reagrupava e acabamos lá. Claro que eu não cheguei lá porque estava preso. Mas o resto foi para lá.

IDD: Mas houve quebra-quebra de ônibus também nos bairros?

Eron: Sim. Porque a imprensa noticiava isso ao vivo, as rádios: “Estão quebrando…”. Aí o cara ouvia isso lá no bairro dele e dizia que ia quebrar também. Porque isso correspondia a um sentimento de revolta da população. Ao todo foram depredados cem ônibus. O pau cantou. No dia seguinte, tudo que era jornal, televisão, rádio… era o Mestrinho falando ao vivo: “são marginais, delinquentes ligados ao Partido Comunista do Brasil. São baderneiros, vou mandar prender… Eronildo Braga Bezerra, vulgo Eron” (risos). Isso era para nos caracterizar mesmo como meliante (risos). Era uma piada. Hoje a gente ri, contando isso. Minha filha tinha três dias de nascida quando essas notas saíram. Eu estava preso quando minha filha nasceu. Eu me lembro da história por causa disso. Depois, o Mestrinho inventou que o Fred Arruda, que até hoje está vivo, professor da Ufam, tinha comprado um fuzil para matar os policiais.

IDD: Então a concentração na Praça da Matriz foi escolhida estrategicamente por conta do grande movimento de pessoas?

Eron: Sim, sim. Era dia de semana, tinha muito trabalhador. E a população também foi se envolvendo quando viu aquela confusão. Ali já havia uma grande concentração de pessoas, até mais do que tem hoje. A polícia foi apertando para prender as lideranças e batendo. E aí a população começou a reagir. Quando a população viu aquele monte de jovens apanhando, sendo espancados, uma parte do povo entrou na confusão também. Foi um escarcéu. Bombas de gás lacrimogêneo, de efeito moral, cavalaria, bombeiros… tinha tudo o que você pudesse imaginar. A polícia foi para reprimir com violência. No quebra-quebra todo da Praça da Matriz houve um controle, a polícia prendeu, o diabo a quatro, mas… pararam de aumentar a passagem. Então, é lógico que nós tivemos uma grande vitória, porque a passagem ficou congelada por um bom período e começaram aí as planilhas. Esse é o dado fundamental: só após o quebra-quebra é que começa em Manaus a passagem ser calculada com base em planilha demonstrada tecnicamente.

IDD: Nessa época o prefeito era o Amazonino Mendes. Como era o perfil administrativo dele?

Eron: O Amazonino tinha uma aparência de muita operosidade, diferente da tragédia que ele foi como prefeito, na história mais recente. Ele tinha um grupo de trabalho liderado por um vereador chamado Domingos Leite que fazia esse trabalho que o Eduardo Braga depois chamou de “operação tapa-buraco”. E era um cara operoso. Ele, segundo a história conta, foi ligado ao velho PCB. Eu não conheço a relação do Amazonino com essa trajetória. Eu já conheci o Amazonino como prefeito, e, evidentemente, já fazendo o trabalho dele lá de prefeito. Não vou entrar aqui nos méritos da qualidade do mandato dele ou coisa que o valha. Mas, tecnicamente, como resultado, a gestão dele foi boa, foi aprovada. Tanto que ele se elegeu com certa folga governador do Estado.

IDD: No início da década de 80, mesmo com o PCdoB na ilegalidade, vocês conseguiram eleger um deputado e um vereador?

Eron: O João Pedro se elegeu deputado estadual pelo PMDB, mas ele já era do PCdoB. Só que o partido estava na clandestinidade naquele momento. E o PCdoB atuava eleitoralmente via uma tendência popular do PMDB. O PCdoB só veio para a legalidade em 85. Nós estamos falando de 83. Na eleição de 82, nós elegemos o João Pedro e o vereador Lira. A história do Lira como vereador é a seguinte: a gente tinha aquela visão meio esquizofrênica de botar um líder popular. Aí pegamos o Lira. O primeiro salário do Lira, ele “torrou” todo em roupa. Foi para a Semog’s, que era uma loja moderna. Comprou um monte de paletó… “Lira, rapaz… e a contribuição para o partido?”. Ele responde: “Que contribuição é essa, rapaz? Vocês querem tomar meu salário?!”. “Você é militante, está na regra partidária, no estatuto. Você tem que contribuir com o partido”. Tem um texto do Lênin chamado “Como iludir o povo: com os slogans de liberdade e igualdade”, que era uma crítica que ele fazia aos sociais democratas da Rússia, que usavam esse palavreado para enganar o povo. Aí o Lira pega esse livro, só lê o título e vai para a tribuna da Câmara: “Eu estou saindo do PCdoB. Porque, olha aqui o que eles me mandaram ler: como enganar o povo” (risos). Ele não tinha formação. Por mais que a gente fizesse um esforço grande para educá-lo teoricamente, mas ele revelou desde o começo certo oportunismo. Não conseguia compreender a importância do que representava para o povo dele, para as camadas populares… um cara daquele foi o terceiro ou quarto mais votado de Manaus, uma votação espetacular. Nós concentramos toda a nossa energia na eleição dele. Nós elegemos o João Pedro deputado estadual, e ele, vereador, com a força exclusivamente do partido.

IDD: Vocês também contribuíram para a eleição do Gilberto Mestrinho como governador em 1982?

Eron: Sim, ajudamos eleger o Gilberto, o Fábio Lucena, que concorreu nessa chapa. A gente atuava dentro do PMDB, na tendência popular do PMDB. Nossa relação com o Gilberto era “pau”. Porque isso era natural. O PMDB até hoje é um partido que aceita estatutariamente as federações, porque não tem um centro único de comando. E naquele tempo era pior ainda, porque toda a frente contra a ditadura estava no MDB. A Igreja, parte da igreja progressista, comunista, trotskista… todo mundo atuava no MDB. Tanto que quando houve o quebra-quebra e depois as campanhas das Diretas Já, nós enfrentamos o Mestrinho na rua de novo. Essa maneira de repressão mais dura não era o perfil do Mestrinho. É porque ele era medroso. Ele tinha medo, pavor de um novo golpe. E ele era pressionado pelos militares para conter, senão eles ameaçavam intervir. Então ele se apavorava com isso.

IDD: Vocês tiveram muitos embates com o Boto?

Eron: O Mestrinho era uma figura. Ele não era um cara mau-caráter. Foi o único governador que eu conheço da história do Amazonas que honrava as emendas parlamentares, mesmo dos deputados de oposição. Ele tinha um comportamento mais plural. Reconhecia a luta, reconhecia a diversidade. Ninguém é obrigado a rezar pela mesma cartilha. No episódio das “Diretas” era isso. Ele tinha os cuidados dele. Tinha medo. Ele tinha sido cassado. Os militares o pressionavam, e ele tinha medo de um recrudescimento.  O que, digamos, era despropositado, porque, evidentemente, a onda de massa que estava na rua não permitiria. Ele tinha uma visão parada no tempo. Raciocinava com a cabeça de 64, o que é compreensível. Mas o mundo era outro. O mundo de 83, 84, 85 era outro. E, evidentemente, nós não tínhamos porque “alisar”. Então, a gente tinha uma radicalidade muito grande, e ele administrava. A gente se enfrentou na Praça do Congresso, mas, no outro dia, nós nos reunimos no Palácio. A luta é política.

IDD: Como foi esse enfrentamento na Praça do Congresso?

Eron: Foi na luta das “Diretas”. O Mestrinho me chamou no Palácio, a gente integrava o grupo que coordenava a campanha das “Diretas” aqui. Eu era dirigente do PCdoB, coordenador do “Tribuna Operária” e era na época já o membro da comissão pela legalidade do PCdoB. Então o Mestrinho me chamou no Palácio e disse que no outro dia ia ter um ato que com a presença do presidente do PMDB e que ele, Gilberto, tinha uma recomendação do Exército para não ter nenhuma bandeira vermelha. Eu respondi que teria sim muita bandeira vermelha, e ele me disse que ia mandar a polícia. Aí nós organizamos na “Tribuna Operária” as bandeiras em estacas, pernamancas, que era para nos defender. Nós fomos preparados também. Quando nós entramos assim, numa fila indiana, uns cem militantes com bandeiras vermelhas, a polícia tentou nos cercar e tomar as bandeiras, e nós começamos a distribuir porrada. E aí o pau cantou… Tinha um militante nosso que tinha sido cabo do Exército, chamado Ederval, que hoje é defensor público. Ele gritava para mim: “Eron, arriei mais dois”. Ele batia de estaca assim: Tum! Tum! Derrubava uns trinta soldados no meio da rua. Uns cinquenta nossos espatifados… Porrada. Abrimos um círculo, assim, no meio daquela praça ali, uma roda de porrada. Chegou o pessoal do “deixa disso”, já tinham rasgado as bandeiras, prenderam lá uns trinta dos nossos, levaram… Aí nós nos reagrupamos. Quando o Gilberto começava a falar, todo o nosso pessoal vaiava. A Vanessa gritava o nome do Mestrinho histericamente… vaiava e balançava a mão com o punho cerrado e o polegar para baixo: “Mestrinho! Mestrinho!” e fazendo o gesto (risos). A Vanessa tem cara de gringa. Não tinha como não chamar a atenção, no meio da nossa rapaziada de tez escura (risos). No dia seguinte a essa porrada toda, reunimos com o Mestrinho, normalmente. A reunião era para retomar a campanha das “Diretas”. O Mestrinho autorizou lá despesa para rodar papel, os panfletos que a gente queria. Quando a gente ia saindo, ele me chamou: “Eronildes, vem cá. É o seguinte… Contigo dá até para conversar. Mas pede para aquela tua mulher parar de me vaiar” (risos).

IDD: Era uma relação de morde e assopra com o Mestrinho?

Eron: A relação com o Mestrinho sempre foi assim. Quando tinha um congresso, a gente ia lá reivindicar passagens. Os especialistas em garimpar passagens eram o Omar e o Durango. E teve um episódio curioso, que a gente foi reivindicar passagens para São Paulo e ele respondeu: “Rapaz, por que a gente não faz esses congressos em Manacapuru, que é mais perto?” (risos). Ele era um cara muito espirituoso, uma figura muito espirituosa. Nós fizemos toda essa resistência com ele. Nunca tivemos maiores problemas de ordem pessoal com ele. Mas, evidentemente, ele tinha o modo dele de operar e nós tínhamos o nosso. Tivemos outros enfrentamentos com professores, mas isso faz parte da luta política. Então, nós levamos ao pé da letra isso na relação com o Mestrinho e com todo mundo. O fato de eventualmente apoiarmos um governo não elimina a nossa crítica e nem a pressão que nós eventualmente possamos exercer através do movimento popular, em benefício da população. Essa é a regra que nenhum militante político pode perder de vista. Porque, na hora que perder isso, ele deixou de ser um militante e virou um cabo eleitoral.

IDD: E como era participar dessas “batalhas” com a esposa do lado?

Eron: A Vanessa sempre foi uma pessoa muito ativa. Foi a primeira mulher a presidir o DCE da Ufam. Eu conheci a Vanessa da maneira mais curiosa possível: um dia, eu estou numa saleta que a gente tinha tomado da Ufam. Estou lá, escrevendo alguma coisa, um jornalzinho que a gente tinha, “O Grão”. Naquele tempo não tinha internet. A gente escrevia na mão, depois digitava em mimeógrafo. Aí entra aquela galega toda alvoroçada, perguntando quem era Eron.  Eu respondi que era eu e perguntei qual era o problema. Ela disse que tinha um professor que estava sacaneando ela.

IDD: A Vanessa Grazziotin fazia Agronomia também?

Eron: Não, ela era aluna de Farmácia. Todo mundo acha que a Vanessa fez Agronomia. Eu sentei com ela, discutimos um pouco, expliquei o que tinha que fazer. Disse que eles tinham que organizar o centro acadêmico deles, para poderem ter uma forma melhor de lutar. E eles organizaram imediatamente o Centro de Farmácia e deram uma prensa lá no professor, resolveram o problema. Aí a Vanessa começou a militar sob a nossa área de influência. Começou assim a história. Depois ela entrou no partido. Naquele tempo a gente fazia recrutamento. A gente não chamava qualquer pessoa de imediato. Se observava um ano, dois anos a pessoa para ver se não era um infiltrado, uma pessoa ligada a alguma organização de Direita, algum provocador. E a Vanessa tinha na época uns 17, 19 anos… ela tinha entrado muito nova na Universidade. E sempre revelou muito talento para essas coisas, uma capacidade muito grande de trabalho. Trabalha como um trator. E aí virou presidente do Centro Acadêmico dela. Depois virou diretora e, em seguida, presidente do DCE. Foi dirigente nacional da CPB, de professores, depois virou dirigente da entidade sindical de professores daqui. Chamava-se APPAM (Associação dos Professores do Amazonas). Tornou-se dirigente nacional da, hoje, CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). Ou seja, a trajetória da Vanessa é também do movimento estudantil, movimento sindical e movimento popular. Ela já está acostumada ao enfrentamento em manifestações. É do metiê. Para ela isso era normal. Qualquer militante entende isso como normal. Provocação, ataque… nós entendemos isso dentro da luta política. Agora, também não nos peça para jogar flores de volta. Simples assim. Nós, geralmente, temos a mão pesada quando a gente bate de volta. Essa é a nossa regra.

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