Entrevista com Arminda Mourão

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Ela nasceu em Manaus, mas despertou para o movimento estudantil na capital gaúcha. De volta à sua cidade natal, fazia manifestações dentro da Universidade do Amazonas quando o reitor da instituição era seu próprio pai. E levou “laranjada” em 1983 na chamada “Batalha da Matriz”. O IDD entrevista a pedagoga Arminda Mourão.

IDD: Quem é Arminda Mourão e como foi descobrir essa veia revolucionária lá no Rio Grande Sul?

Arminda: Meu nome é Arminda Rachel Botelho Mourão. Nasci em 31 de outubro de 1950 e sou pedagoga, com mestrado e doutorado em educação. Na época em que me casei, assinava Arminda Rachel Mourão Diederichs, mas com o divórcio voltei ao meu nome original. Meu ex-marido é gaúcho e eu passei dez anos morando no sul do país. Nesses dez anos, cheguei a participar de movimento já na segunda metade da década de 1960. Mas foi muito na folia, muito “en passant”, sem a politização. Posso dizer até que nem participei. Na década de 1970, até mais ou menos 72-73, eu vivia o chamado “milagre brasileiro”, achando tudo maravilhoso. Como meu ex-marido era engenheiro e construía silos e graneleiros para armazenamento da soja e do trigo, eu viajei com ele pelo sul do país, tudo sustentado pela firma. Então, minha vida estava muito boa.

IDD: E quando acontece o seu despertar desse “mundo perfeito”? Afinal, estamos falando de uma época em plena ditadura militar…

Arminda: Eu desperto no final da década de 1970, quando há um grande movimento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS, onde eu já estava estudando. De repente, estou no meio de um turbilhão de coisas, mudando a minha vida, porque a ditadura mudava os cursos, os currículos. E eu, que deveria me formar em 1978, acabaria tendo que me formar em 80, 81. Aquilo me revoltou, e, de repente, estava no movimento. Como eu falo bem e tenho essa presença, lá estava eu na liderança de um movimento. E aí comecei a perceber que aquele conto de fadas que eu estava vivendo não era bem um conto de fadas. Que existiam outras coisas por trás.

IDD: E já tem contato com algum partido político?

Arminda: Nessa ocasião, eu entro em contato com o pessoal do PCB. Eles começaram a me subsidiar com o jornal “Voz da Unidade”. Em Porto Alegre ainda, ingresso no movimento de professores, mas, embora já tivesse meus 28 anos, ainda sem entender bem o que se passava. Só que o “Voz da Unidade”, o PCB, ele vinha perdendo força, e, ainda em Porto Alegre, vem o jornal “Tribuna da Luta Operária” que liderava os movimentos na Faculdade de Educação. Mas o meu foco era o PT, que estava surgindo em 1979. E nessa discussão toda, eu me afasto do PT por uma simples razão: nós discutíamos, discutíamos, discutíamos, e, no outro dia, em função das inúmeras facções existentes – o PT ainda não era nem partido -, eu digo não. Perdia meu tempo, discutindo, discutindo, e lá adiante cada um faz o que quer e bem entende. Então, não precisa discutir.

IDD: É nesse momento que acontece sua proximidade com o PCdoB?

Arminda: Nesse ínterim, venho para Manaus e chego aqui em 1980. Eu entro na Faculdade de Educação da UA, transferida. Acabei me formando em 81, pois eu fazia, praticamente, uma disciplina por semestre em função das adaptações do currículo. Então, chego na Faculdade de Educação, e aí já tinha uma coisa que o PCB me fez bem: eu não fui militante do PCB, mas o que eles me subsidiaram foi a leitura do marxismo. Eu já tinha mais ou menos a teoria e decidi que tinha de me filiar a um partido. Eu sabia que no PT não me filiaria em função de como o partido era configurado, com várias tendências que brigavam muito entre si. E aí, eu lidero a 1ª Semana de Pedagogia. O centro acadêmico tinha Marilda Galvão, que hoje continua junto ao PCdoB, não mais como militante, mas ainda filiada, e Gina Gama, atualmente um quadro do PSDB. Elas eram presidente e vice-presidente do centro acadêmico. Com o auxílio da professora Jucelem Belchior Ramos, nós fizemos a 1ª Semana de Pedagogia. E é nesse evento que eu tenho um contato maior com a liderança do PCdoB. Veio a Manaus, para esta Semana, Aldo Rebelo, então presidente da União Nacional dos Estudantes, a UNE, e que é um quadro até hoje do PCdoB.

IDD: Mas você foi aceita com tranquilidade pelo partido?

Arminda: O PCdoB me olhou com ressalvas, afinal, eu era filha do Octávio Hamilton Botelho Mourão, que era o reitor da universidade, um homem excelente e tudo mais, mas que era indicado como reitor pela ditadura militar. Até porque meu pai tinha no governo dois grandes nomes, principalmente o Gabi Silva, que é primo legítimo dele e que era um dos homens fortes do SNI, o Serviço Nacional de Informações. E aí o pessoal do PCdoB achou meio esquisito a filha do reitor no partido. Mas o que o pessoal não entendia é que a minha escolha pelo PCdoB foi ideológica. A literatura vem me trazendo; o conhecimento da realidade vem me trazendo. E eu chego ao grande impasse, de que há uma constante contradição entre o capital e o trabalho, como diz Marx. E todo o processo de trabalho explorado. A minha opção pelo PCdoB foi uma opção de classe. Fiz a opção pelo PCdoB como método dialético, a teoria iluminando a prática, e a prática revisitando a teoria. E tinha toda uma discussão do processo revolucionário, onde o PCdoB tinha de estar em todas as frentes, para recrutar pessoas que fossem “reeducadas” no processo revolucionário. Era o PCdoB da resistência no Araguaia. E é nessa conjuntura que eu entro no partido. Na universidade, eu coordenava o distrito universitário. Porque funcionava da seguinte maneira: havia as células, as bases. Depois nós fizemos as bases de cada curso, e se organizava um distrito, que era o distrito universitário, coordenado por mim. Essa era a minha célula. No PCdoB eu estudei muito e continuo estudando e me aprofundando até hoje.

IDD: É nesse momento que também começa sua participação na associação dos servidores da então Universidade do Amazonas?

Arminda: O partido não tinha nenhuma entidade, nem sindical. Só tinha o movimento estudantil. E o movimento estudantil numa disputa constante. E então me deram uma tarefa que era ganhar a Assua. E aí eu digo: “Como é que eu vou ganhar a Assua se eu sou recém-chegada?”. E isso foi muito engraçado, porque eu ganhei a Assua justamente por ser filha do reitor. Ganho a Assua com uma diferença de cinco votos, em assembleia ainda, no grande Auditório Zerbini. E eu sabia que precisava ampliar a minha liderança, por isso, vou para todos os setores da universidade e formo um conselho deliberativo. Então, aquela direção que foi eleita comigo, onde tinha gente da própria Reitoria, ela foi anulada, praticamente, pelo conselho deliberativo, que era de gente de toda a universidade, que vinham para discutir os rumos da associação.

IDD: E então a Assua passa a participar das lutas sindicais com outras entidades?

Arminda: Nesse momento a Assua se destaca. Ela está no movimento sindical. Junto com a Fetagri [Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Amazonas], cujo presidente era Francisco Massena, a Assua liderou o 1º Encontro das Classes Trabalhadoras do Estado do Amazonas. Antes de nascer a CUT [Central Única dos Trabalhadores], havia uma Pró-CUT, e eu fui a representante do Amazonas na Pró-CUT. Então a gente estava em todos os movimentos, no sindical, no estudantil. A Assua começou a colaborar com o movimento estudantil quando eu entrei como presidente, em 82-83. A luta pela meia-passagem, a discussão do movimento sindical, a questão da formação da CUT, algumas questões de resistência ao processo de privatização da universidade. E aí a Assua foi criando corpo. Transformamos o estatuto, passando de uma associação exclusivamente filantrópica para uma entidade que reivindicava, ela representava os trabalhadores. Eu dirigi a Assua por dois mandatos.

IDD: Nesses movimentos já havia disputas para saber quem eram as maiores lideranças?

Arminda: Nos bastidores todos eram, por exemplo, contra o aumento da tarifa, mas havia muita polêmica sobre quem aparecia mais entre as lideranças dentro do movimento. Havia uma rivalidade muito grande entre o povo do PT e do PCdoB. Mas dentro do movimento estudantil no Amazonas, as maiores lideranças eram do PCdoB. Tinha Eron Bezerra, que foi uma das grandes lideranças do movimento estudantil na Universidade do Amazonas; João Pedro Gonçalves, outra liderança; Vanessa Grazziotin vem surgir em 1981… a Vanessa, ela foi se constituindo como liderança… nesta época ainda não era; Lúcia Antony, uma das fundadoras do PCdoB; Chico Braga ainda estava no PCdoB; Sávio, do movimento secundarista; Selma Oliveira, presidente da Ubes [União Brasileira dos Estudantes Secundaristas]…. Então o PCdoB tinha a maior liderança no movimento. Minha relação com o Diretório Universitário já é do final da gestão do Públio Caio.

IDD: Os secundaristas também tinham participação ativa no movimento nessa época?

Arminda: O movimento estudantil secundarista era muito forte e deu início ao debate dessas questões, mas isso cresce ainda mais com o universitário, que vem da Agronomia, uma ligação direta com as questões rurais, e onde há um destaque especial em defesa da universidade pública quanto às reformas que eram apresentadas tanto pela ditadura militar como posteriormente pelos governos da nova república. O movimento estudantil no Amazonas e no Brasil se colocava muito forte contra os processos de privatização que a universidade sofria e vem sofrendo. Dentre os estudantes secundaristas atuantes no movimento, eu lembro de Selma Baçal de Oliveira, que se destacou na Ubes com a questão dos grêmios. Inclusive, é nessa gestão que é incorporado na lei a possibilidade que toda escola tivesse um grêmio. E também tinha o Sávio, que já faleceu.

IDD: Fale um pouco sobre as eleições do João Pedro e do Lira, quando o partido ainda estava na clandestinidade…

Arminda: O PCdoB era agrupado, estava na ilegalidade. Então nós éramos uma facção do PMDB. E apresentamos dois candidatos – é tão esquisito eu falar “nós”… eu não me sinto mais “nós”. À época, o PCdoB apresentou dois candidatos. Um deles era o Lira que, de acordo com o PCdoB, era um operário, lá do Santo Antônio – eu, inclusive, fui contra, porque eu dizia que ele não era um operário. Pela linguagem marxista, ele era um “lumpen-operário”, ou seja, estava à margem da própria questão produtiva de uma sociedade. E apresentamos também o João Pedro. É eleito Lira como vereador, e ele passa só um mês no PCdoB. A primeira coisa que ele faz com o seu salário é gastar tudo em roupas. Ele se colocou todo bonito e esqueceu… largou o PCdoB, largou a mulher, largou os filhos, largou tudo… E João Pedro foi eleito deputado estadual. O PCdoB discutia todas as assessorias, quem deveria ser assessor, quem deveria se manter no movimento. O PCdoB ainda não tinha a via parlamentar, pois ainda priorizava a luta nas ruas, a organização nas entidades. Na época, o partido dizia, conforme Lenin diz: “cada homem a sua tarefa”. Então tinha a tarefa do parlamento, tinha a tarefa do movimento sindical, do movimento estudantil, do movimento operário, várias frentes para que se conquistasse uma organização para a mudança, não só de governo, mas a mudança de Estado. Porque há uma diferença entre o que seja Estado e o que seja governo.

IDD: E como era o governo Gilberto Mestrinho?

Arminda: Um “ditadorzinho” repressivo. Ele reprimiu o movimento de professores. A “Batalha do Igarapé de Manaus’, que tinha como principal liderança o professor Aloisio Nogueira. Agora, ele batia e assoprava, batia e assoprava. E na prefeitura, ele indicou o biônico Amazonino Mendes. No comício das “Diretas Já”, eu acho que eu tirei a orelha de alguém… Gilberto Mestrinho mandava arrancar todas as bandeiras vermelhas, tanto do PCdoB quanto do PT, e mandava prender. Vários dos estudantes foram presos. Tem até uma passagem interessante: o dr. Ederval, que hoje é defensor público, até hoje ligado ao PCdoB… a moçada foi presa e ele ia na cadeia e dizia: “Eu quero fulano, beltrano, cicrano…”, e não encontrava ninguém. E aí o pessoal já estava meio agoniado, que não encontravam ninguém…. É que a moçada deu o nome errado… então ele não conseguia tirar ninguém. Depois de ter conversado muito, ele pede para entrar e vê todo mundo preso… E aí o pessoal diz que seguiu a recomendação dada no auge da ditadura, de que não era para dizer o nome verdadeiro à polícia, só os codinomes.

IDD: Você chegou a ser agredida em alguma manifestação?

Arminda: Sim. No movimento das “Diretas”, meu filho já estava com seus 13 anos. Ele estava comigo, e nos cercaram. O homem direto lá deles, o Gregório, ele vem para cima da gente, faz uma roda e deixa eu e meu filho dentro da roda. Aí eu disse: “Quebra essa bandeira, meu filho, e me dê o lado do prego, porque eu não tenho força. E você fica com o outro”. A gente ia ser preso, ia apanhar. O meu filho era fortão, né… ele perguntou: “Pode bater, mãe?”. E eu disse: “Pode!”. Isso na Praça do Congresso. E eu continuei: “E tem mais… eles vão sair da frente, que nós vamos machucar… e nós vamos correr para o palanque. Nós não vamos correr para as laterais, senão nós vamos ser presos… para o palanque, se não deixarem entrar, derruba quem não deixar entrar. Mas nós vamos subir no palanque, porque lá nós vamos estar protegidos”. E aí nós fizemos isso. Eu só sei que, quando eu larguei o pedaço de pau, só ouvi o grito, e nós saímos correndo. O segurança do palanque não queria deixar entrar. E ele deu um safanão, e nós entramos. Na feita que nós entramos, Eron viu, né… e aí deu uma certa confusão no palanque… eu não me lembro se a gente ameaçou… só sei que quando viram que a confusão ia se tornar pública, que nós íamos dizer que tinha sido gente presa, etc., o Gilberto chamou o assessor e mandou liberar. Porque não convinha, em pleno palanque das “Diretas”, estar prendendo gente e tudo mais.

IDD: Você estava na manifestação que ocorreu na Praça da Matriz em setembro de 1983, quando houve o quebra-quebra de ônibus coletivos e os estudantes foram reprimidos com truculência pela polícia. O que você se recorda?

Arminda: A Assua mandou fazer panfleto. Os partidos também mandaram fazer. Ederval, na época, ele tinha recém-formado e ele era gráfico, trabalhou muito tempo em gráfica. Então tínhamos panfleto, megafone… Eu tinha um fusquinha, colocava a boca de ferro em cima dele. Tem umas “paradas” tão engraçadas (risos). Eu ainda estava casada… numa dessas manifestações… não sei se nessa… eu tinha levado a roupa do meu ex-marido para a lavanderia. E a polícia prendeu o fusca, cheio de panfletos. E eu pergunto para o guarda: “O senhor está prendendo o carro, né?”. Ele respondeu que sim. Eu perguntei de novo: “O senhor está prendendo o carro?”. E o guarda me confirmou. Aí eu tornei a perguntar: “O senhor que dizer alto que o senhor está prendendo o carro?”. E ele gritou: “Eu tô prendendo o carro!”. Aí eu comecei a retirar o material de dentro do fusca: “Então, o que tá dentro sai, porque o senhor tá prendendo o carro, o senhor não está prendendo o material”. O guarda ficou meio sem saber o que fazer. Eu tiro todos os panfletos, tiro a boca de ferro e tiro a roupa suja do meu marido, e deixo lá no chão. No meio da confusão, quando eu olho…. Roubaram a roupa suja…. Meu marido não era militante, um senhor respeitável, não reacionário, conservador. E aí eu chego em casa dizendo que roubaram a roupa dele.. e ele me diz que eu tinha que dar uma roupa nova… tudinho novo. E eu acabei comprando (risos).

IDD: Como foi feita a mobilização dos manifestantes nesse dia da Praça da Matriz?

Arminda: A gente ia com os megafones, a boca de ferro, fazer chamada nos bairros. Na época não tinha ainda os terminais. A gente ia no final, na Praça da Matriz, chamar as pessoas. Então era uma chamada de corpo a corpo. A ideia da manifestação era ir andando toda a Sete de Setembro até o Palácio Rio Negro. Nessa coisa, veio a polícia, veio os Bombeiros com aqueles jatos d’água, machucando as pessoas. Não houve surpresa quanto à ação truculenta da polícia. Quando se vai para a rua, é para o que der e vier. Mas, o que ocorreu? A polícia civil infiltrou pessoas dentro da manifestação para iniciarem o quebra-quebra. O povo já estava todo molhado e aborrecido com os aumentos contínuos da passagem. E houve um contágio. Como professora da área de educação, a gente discute o que é o contágio. Parece uma eletricidade, passando pelas pessoas. E quando as pessoas estão insatisfeitas, basta ter um estopim. E eu vi algumas coisas que me deixaram perplexa… o povo virando caminhonetes.

IDD: Você foi presa?

Arminda: O povo correu todo para dentro dos bares dali da área e das lojinhas, que foram fechando… e quando eu chego, não consegui entrar…. Eu não sou alta, mas, para a média da população amazonense, eu sou. Eu tento ainda me esconder, mas um tenentezinho me pega para me levar para o “camburão”. E quando ele diz “Ei, você!”, eu respondo “Vá devagar que o santo não é de barro, é de porcelana” … e ele me deu uma cutucada com a baioneta, que não chegou a perfurar, mas fez um arranhão. Quando eu vou chegando para me colocarem no “camburão”, o povo vem de lá revoltado, virando o carro… e viraram o “camburão e iam pegar o tenente… e o tenente me larga, e eu consigo fugir. Ainda fiquei meio atordoada, e quem me ajuda a fugir é Dori Carvalho, que estava na passeata. Não havia um esquema de rota de fuga. Nós não estávamos preparados para isso. Eu só sei que eu corri tanto e fui parar lá perto do IEA, e eu não queria olhar para trás… o Dori dizia “Vamos parar que eu acho que não tem mais ninguém atrás da gente”, mas eu só queria saber de correr…

IDD: Mas essa repressão mais dura foi ordenada pelo governador Gilberto Mestrinho? Porque, segundo os jornais da época, Mestrinho estava viajando e quem estava em exercício era o vice, Manoel Ribeiro…

Arminda: O governador tinha ciência de tudo que estava ocorrendo naquele dia. Gilberto nunca foi homem de deixar que o vice resolvesse por ele. Em todo governo Mestrinho, era ele próprio o homem de decisão, aliás, um homem de palavra. Tem uma “parada” do Gilberto que eu nunca esqueço, em 1985… nesse tempo a liderança era do professor Aloisio Nogueira… quando se conquistou o piso salarial… e a gente naquela confusão de assina, não assina… E o Gilberto disse: “Vocês querem que eu assine…. Minha filha, ponha uma coisa na sua cabeça. Movimento é correlação de forças. Hoje, vocês vão ter o piso, porque vocês estão mais fortes. Mas depois vocês vão perder o piso, porque o Estado vai estar mais forte…. Então, papel? Rasga-se. Lei? Muda-se. Porque tudo depende da correlação de forças”. E isso era uma verdade, pois, quando o movimento estava organizado, nós avançamos.

IDD: Houve perseguição aos líderes desse movimento?

Arminda: Nós não chegamos a nos reunir naquele mesmo dia, porque a ideia era fugir. E aí teve a perseguição… invadiram a casa de militantes do PCdoB em busca de documentos que tivessem orientações de quebra-quebra. Na época, meus filhos eram pequenos e a gente morava no conjunto Acariquara. Eu trabalhava na Comissão Permanente de Vestibular, que ficava ali na Getúlio Vargas, e aí meu filho me liga, dizendo que havia um carro branco que já havia passado cinco vezes na porta da casa, e que parava e olhava para dentro da casa. Eu disse a ele: “Vocês vão sair daí abaixados, vão pular o muro, passar pelos quintais dos vizinhos e vão para a casa do doutor Guedes, da Sebastiana, porque eu estou pegando o meu carro e estou indo para aí”. Eu saio da Getúlio Vargas, uma viagem longa – meu filho tinha 11, 12 anos e a menina tinha 9. Eu chego na casa da Sebastiana. O carro suspeito já não estava mais. Mas a tentativa era ver se tinha alguma coisa. Acho que não entraram na casa porque havia crianças. A polícia já sabia quem eram as lideranças. Em todos os movimentos que nós fazíamos, eles já sabiam.

IDD: Você acredita que o comando dessa manifestação perdeu o controle da situação?

Arminda: O mais interessante dessa coisa toda é a revolta popular e como a liderança é efêmera. Porque nós éramos liderança quando a gente falava, quando estava organizando. Mas quando a massa se soltou, quando começou o quebra-quebra, nós pegamos o microfone para tentar falar… eu levei foi laranjada nas costas. Eu dizia “Calma! Segura! É isso que eles querem. Não quebrem! Nós não podemos nos responsabilizar pelo patrimônio…”, e o pessoal falava “Cala a boca, pelega! ”… E eu levei foi laranjada, porque havia umas barracas vendendo frutas lá perto…. Então, naquele momento, nós deixamos de liderar o movimento. Era uma massa, uma turba desenfreada quebrando tudo. E vi gente que normalmente é quieto, da paz… quebrando coisas, levado pela turba. Quando a situação não depende mais só de mim, eu tenho o hábito de ficar observando. Acho que foi por isso que quase eu fui presa. E aquele movimento dava um belo estudo sociológico… A massa passou pela Câmara dos Vereadores e quis quebrar também. Aí nós fomos para a Prefeitura, mas ali já não deixaram a gente chegar. A gente ia mais por uma questão de se abrigar mesmo… e já reorganizando os que restaram. Mas aí já tinha um cordão de isolamento para não se chegar à Prefeitura.

IDD: Nesse dia houve quebra-quebra de ônibus em outros locais além do Centro?

Arminda: Uma coisa como essa, quando acontece, há uma insatisfação popular e há um contágio. Aconteceu no Centro, foi acontecer no Coroado, na Cidade Nova… quebra-quebra, ônibus queimado… no Centro não se queimou ônibus, mas nas periferias ocorreu. Houve uma irradiação do movimento. Era uma insatisfação da população. Dias depois, há uma reunião para rearticulação dos atos do movimento. Tanto é que, a partir daí tentaram desacreditar o movimento, caracterizando-o como vandalismo e nos taxando como pessoas que não zelavam pela segurança e pelo patrimônio público. E Gilberto, tão inteligente que era, ao tentar jogar a opinião pública contra o PCdoB, acabou sofrendo o efeito contrário. Os que ficaram chateados com a manifestação foram a classe média, sempre metida a besta. Mas o “povão” não ficou.

IDD: Dias depois houve uma tentativa de negociação no Palácio Rio Negro. Você participou?

Arminda: Sim. Nós estávamos lá para negociar com o Manoel Ribeiro, vice-governador. Nesses atos, eu ficava sempre mais na liderança e na organização da estrutura. Quem participou da reunião foi o João Pedro, se não me engano, o Artur Neto também, que era do PMDB, o Mário Frota, que era um grande defensor das questões democráticas. E a gente ficava sempre na organização da movimentação. A repressão da polícia nesse dia foi menor que a realizada na Matriz. Eles tentaram tirar dali, eles dispersaram as pessoas. Mas foi bem menor do que o que aconteceu na Matriz. Dessa vez eu não sofri nada.

IDD: O PMDB, que era o partido do Mestrinho, fez alguma retaliação ao João Pedro por causa da participação do PCdoB na Batalha da Matriz?

Arminda: Cogitou-se que João Pedro poderia ser expulso do PMDB, partido que o elegeu, e de que poderia perder o mandato. Mas isso dificilmente aconteceria. Porque o PMDB nacional tinha figuras importantíssimas como Pedro Simon – uma referência para mim até hoje – e outras lideranças que não permitiriam perda de mandato, porque nós ainda estávamos em plena luta contra a ditadura. E o PCdoB ajudou Gilberto a se eleger. Aliás, a grande briga entre o PT e o PCdoB eram as alianças que o PCdoB fazia neste período das eleições. O PT dizia que as alianças eram prejudiciais.

IDD: Mas depois desse episódio houve a reaproximação entre o PCdoB e o Gilberto? Afinal, ambos lutavam pelas “Diretas”…

Arminda: Na configuração que se tinha, o Gilberto precisava do PCdoB, que era a ala mais avançada do PMDB. E essa ala mais avançada estava sempre em conflito com a ala mais atrasada. Mas o PCdoB precisava da aliança para poder eleger seus vereadores, assim como o Mestrinho precisava dessa configuração mais progressista para apresentar-se como um governo democrático. Quem fala muito bem da política das alianças é Lenin, e ele vai dizer que para as alianças avançarem, não se pode vender os princípios. E eu acredito que, até aquela época, o PCdoB fazia aliança, mas não vendia os seus princípios. Ele [o PCdoB] falava em revolução e fazia movimentos contra o governo que ajudou a eleger. Isso é um jogo entre o capital e o trabalho.

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