Entrevista com André Frota

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Todos os nossos entrevistados do movimento estudantil que falaram sobre a “Batalha da Matriz”, de 1983, são unânimes em dizer que o estopim do quebra-quebra naquela manifestação foi quando alguém arremessou uma pedra em uma das janelas de um ônibus coletivo. Mas nunca citaram o nome do personagem. O IDD encontrou e conversou com o manauara André Vicente Costa da Frota, o então estudante que apenas acendeu o pavio de um confronto que era inevitável.

IDD: QUANDO VOCÊ COMEÇOU A ATUAR NO MOVIMENTO ESTUDANTIL?

André: Nasci em Manaus no dia 29 de julho de 1965 e ingressei no movimento estudantil secundarista em 1980, com a anistia. Foi na época em que o Gilberto voltou do exílio. Omar Aziz, Vanessa Grazziotin, entre outros, já faziam parte do Diretório Universitário. Eram um braço do PCdoB dentro do movimento universitário. E nós atuávamos dentro do movimento secundarista. Na época, o presidente da Uesa era o Vicente Filizzola. Depois assumiu o Francisco Sávio e eu assumi na diretoria dele, como secretário-geral. O presidente era o Sávio, o vice era a Selma Barçal Brasil.

IDD: ENTÃO VOCÊ ENTROU NO MOVIMENTO SECUNDARISTA JUSTAMENTE NUMA ÉPOCA EM QUE ESTAVA HAVENDO UM RACHA NA DIRETORIA DA UESA?

André: Sim, sim. Eu era da “Viração” e o Vicente Filizzola era o presidente. Ele era, acho, que do PCB, e nós éramos do PCdoB. Então nós destituímos, no congresso, o Vicente. Tinham sido aclamadas duas diretorias, a da Selma Barçal e a do Filizzola. A Uesa ficou mais na mão da Selma e do Sávio, do que propriamente do Filizzola, devido ao PCdoB ter uma base mais sólida do que o PCB. Houve uma nova eleição, que aconteceu na Biblioteca Pública, e foi a primeira eleição geral em todo o Estado. Trouxemos as pessoas de Itacoatiara, de outros municípios. Nós organizamos várias agremiações nas escolas e conseguimos, por aclamação, a nossa eleição.

IDD: OS ATOS ESTUDANTIS EM FAVOR DA MEIA-PASSAGEM EM MANAUS TEM INÍCIO NESSE PERÍODO?

André: A luta pela meia-passagem começou na época do governo José Lindoso. A ideia do PCdoB era, através das suas agremiações, fazer base para a eleição do Gilberto Mestrinho. Inclusive, nós conseguimos eleger o João Pedro como deputado estadual e o vereador Lira. E, para federal, o Mário Frota. Nessa época eu estudava no Benjamin Constant. O movimento iniciou no Benjamin e no IEA, depois entrou o Estadual. Mas a maioria da diretoria da Uesa, era composta por colegas que eram do IEA, como a Raucilene Frota, que é minha prima, mais uns dois ou três que eu não me lembro agora. E eu e o Sávio que éramos do Benjamin. Inclusive eu fui expulso do Benjamin por causa desse movimento.

IDD: VOCÊ JÁ HAVIA SIDO RECRUTADO PELO PCDOB?

André: Meu contato com o partido nasceu no ato público que ocorreu na Praça São Sebastião. Quem me recrutou para o PCdoB foi o Sávio, que era a pessoa ligada ao partido, dentro do movimento estudantil. A própria Vanessa, a Gina… já era um grupo dentro da universidade. O João Pedro tinha um fusquinha que tinha uma boca de alto falante. O Lustoza, secretário de segurança, mandou recolher o carro do João Pedro, pegaram o Vicente Filizzola, o Sávio… eu escapei.

IDD: ESSE FOI O EPISÓDIO DOS TIROS NA IGREJA SÃO SEBASTIÃO?

André: Sim. Houve tiros, eu corri para dentro da igreja, uma loucura, um pandemônio. Ali nasceu minha militância no partido. Das pessoas que eu me lembro, tinha o Michelângelo Botto, a Raucilene Frota, a Selma, a Selene e o Sandro Barçal que são irmãos. Nesse dia do ato na Praça São Sebastião, eu me lembro muito bem. Fecharam a Praça São Sebastião. Quem estava dentro não saía e quem estava fora não entrava.  Então o Sandro fez um discurso: “Tá vendo essa bota? Tá vendo esse cassetete? Esse escudo? É comprado com o dinheiro do povo para espancar o povo. Esse governador que ‘mija’ de cócoras…”. Ele falou isso porque o Lindoso tinha uma educação muito refinada. Daí, um sargento puxou um revólver, largou-lhe bala e a porrada comeu no centro. O João Pedro e o Filizzola não estavam presentes, porque tinham ido conversar com o governador Lindoso na sede do governo, que estava funcionando provisoriamente na Sefaz. Mas o fusca do João Pedro e a kombi da Tribuna Operária foram os primeiros que foram tirados para não ter som. E nesse ínterim, já estava todo o espaço fechado.

IDD: ENTÃO VOCÊS FORAM ENCURRALADOS PELA POLÍCIA?

André: Sim. Como a praça foi cercada pela polícia, os estudantes ficaram nos arredores. Só as lideranças do terceiro escalão ficaram dentro. Os principais estavam em negociações com as autoridades. Nós estávamos com medo. Tinha dezenas de pessoas lá no meio, mas ao redor havia milhares, que eram do Benjamin e do IEA. Nós estávamos mais confiantes por causa do pessoal que estava fora. E a gente estava com aquela empolgação da juventude. Hoje eu não faria de novo. Peguei muita porrada. Nunca vi tantas estrelas na minha vida como eu vi naquele dia, devido a uma tapa que eu levei. Isso que me revoltou.

IDD: E VOCÊ, CHEGOU A SER PRESO NESSA MANIFESTAÇÃO?

André: Nesse dia eu fui preso. Na realidade, nós estávamos doidos que nos prendessem, para levarem logo a gente para o DOPS e pararem de nos bater. Só que o Fábio Lucena e o Evandro Carreira ficavam lá, fazendo discursos. Os caras arrebentando a gente na porrada… A gente dizia: “Senador, deixa a gente ir embora, pelo amor de Deus” (risos). A gente já queria era ser preso e sair dali do olho do furacão. O senador Evandro Carreira foi com a gente no “camburão”, aquele, modelo Veraneio. O DOPS era na Simon Bolívar, naquela esquina que era bem do lado da Tribuna Operária. Tanto que, quando eles queriam prender a gente, bastava a gente fazer um movimento, os caras pulavam o muro e pegavam todo mundo (risos).

IDD: HAVIA ALGUM CUNHO POLÍTICO-PARTIDÁRIO NESSE ATO DA PRAÇA SÃO SEBASTIÃO?

André: Aquilo foi utilizado como pano de fundo. O objetivo era garantir a eleição do Gilberto Mestrinho e dos nossos candidatos. O Gilberto veio arregimentando várias correntes. Em 80, o governador era o Lindoso. Os candidatos à sucessão eram o Josué Filho e o Gilberto Mestrinho. Até o presidente Figueiredo veio apoiando o Josué, que era do PDS. Pelo PMDB saiu o Gilberto. Então nós tínhamos os nossos candidatos e, como estratégia, nós tínhamos que provocar desgaste no governo da ditadura. E esses movimentos tinham deliberação nacional. O primeiro ato que pipocou foi na Bahia, depois foi para o Rio, São Paulo e depois para o Amazonas. Então, nós utilizamos o aumento das passagens de ônibus para fazer uma manifestação. E essa manifestação foi quando prenderam, espancaram.

IDD: E SOBRE A MANIFESTAÇÃO DE 1983 NA PRAÇA DA MATRIZ?

André: As principais lideranças eram Eron Bezerra, Lúcia Antony, João Pedro, Vanessa, Durango. Nós, os secundaristas, tínhamos o Sávio e a Selma. Eles já traziam as deliberações. No ato da Praça da Matriz o governador já era o Gilberto Mestrinho, mas o PCdoB sempre teve um compromisso com os estudantes. O Gilberto assumiu o governo e, no IEA, a gente carregou o Gilberto nos braços. Mas, depois a gente foi para a porrada com ele mesmo (risos). Não teve jeito. A gente utilizou a Praça da Matriz, que era um ponto de convergência no horário entre 17h30 e 19h, quando os comerciários iam para lá e onde ocorria uma aglutinação normal. Quando estava todo mundo reunido foi que chegou a tropa de choque – da Praça da Polícia era fácil o deslocamento até à Matriz – e começou aquele embate. Aí bastou uma fagulha, e essa fagulha fui eu, com a pedrada que eu dei.

IDD: ESSA PEDRADA FOI UMA DECISÃO SUA EM RAZÃO DO MOMENTO DE MUITA ADRENALINA OU JÁ HAVIA UMA ORDEM PARA QUE VOCÊ FIZESSE ISSO?

André: Não foi uma decisão minha. Era uma decisão do partido que eu fizesse isso. Eu já cheguei à manifestação com essa designação. Não só eu como outros. A gente jogava bolinha de gude na rua quando os caras vinham com o cavalo, para eles caírem. Quando você vai para uma manifestação dessa levando bolinha de gude, você já vai mal intencionado, né?! “Miguelitos”… tudo isso já era uma coisa que o partido já fornecia. Não foi algo espontâneo, foi algo intencional. Houve uma determinação para que nós fizéssemos isso. E a gente era igual papagaio de pirata. Tudo o que falassem para a gente, a gente saía repetindo. Então começou o quebra-quebra. Uns com envolvimento político, outros para roubar. Vira uma coisa que ninguém segura. E ainda tinha os infiltrados da polícia, que eram muitos. Mesmo que eu não tivesse jogado a pedra, o confronto iria acontecer inevitavelmente.

IDD: E VOCÊ FOI IDENTIFICADO?

André: Tem uma foto minha na Veja. O fotógrafo foi muito feliz, mas a infelicidade foi minha, fiquei conhecido como baderneiro. O Gilberto tinha colocado umas barraquinhas para vender peixe na praça. Eu fui e dei um chute numa delas, daí bateram a foto. Isso me rendeu a expulsão do Benjamin. Quem me expulsou foi a própria secretária de educação, pela televisão.

IDD: NESSE EPISÓDIO VOCÊ FOI PRESO TAMBÉM?

André: Sim. O hoje coronel Bonates me pegou, o coronel Brandão… Aconteceu um fato pitoresco: o Correia, que era jornalista do “A Notícia”, estava cobrindo a manifestação. Ele era gordinho, dos olhos verdes, praticamente a gente tinha o mesmo perfil. Daí, quando pegaram alguns colegas e perguntaram quem era o André, eles disseram que era um gordinho, dos olhos verdes. E aí acabaram prendendo o Correia, que era parecido comigo. O Correia perguntou o que eles iam fazer com ele. E meteram a porrada no Correia. Levaram ele preso dentro de um “camburão” (risos). Eu fui levado por um outro grupo de policiais.

IDD: E VOCÊ CHEGOU A APANHAR?

André: Eu apanhei muito. Essa era a parte triste. Quando éramos presos, nós não íamos para trás das grades. A gente ficava em uma sala. Quem ia nos libertar era o pai da Selma, que era advogado, o Sebastião Barçal. Tinha o Fábio Lucena, o Félix Valois, o Frederico Arruda, que era professor da universidade.

IDD: JÁ QUE VOCÊ CITOU O PROFESSOR FREDERICO ARRUDA, É VERDADE QUE ELE FOI PARA ESSA MANIFESTAÇÃO DA PRAÇA DA MATRIZ ARMADO COM UM RIFLE?

André: Foi verdade isso. A nossa ideia era ter um movimento armado. O PCdoB acreditava na revolução armada. Nós éramos stalinistas. Tinham os trotskistas, que acreditavam na revolução cultural, como Trotsky apregoa, e tinham os stalinistas, que acreditavam na revolução armada. O Frederico só não foi preso porque ele ficou lá na Igreja São José. Os padres o esconderam lá em cima. A ideia era barbarizar mesmo. O que eles colocavam – as principais lideranças, o Eron, o pessoal – na cabeça dos jovens era isso, era a revolução. A gente queria uma revolução. Nem sabia das consequências. Nesse tempo eu tinha 16 anos. Tinha a Guerrilha do Araguaia, que eles defendiam como modelo. Os livros que eles davam para a gente, a literatura toda era essa.

IDD: VOCÊ É O PRIMEIRO ENTREVISTADO DESSA SÉRIE SOBRE O INÍCIO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL EM MANAUS A ASSUMIR QUE HOUVE UMA ORDEM SUPERIOR PARA O INÍCIO DO QUEBRA-QUEBRA. ALGUNS DISSERAM QUE TERIA SIDO INICIADO POR PESSOAS INFILTRADAS…

André: Não foram pessoas infiltradas que começaram o quebra-quebra do ato na Praça da Matriz, em 83. Muitos negam porque hoje são autoridades e vão jurar de pés juntos que não, eles não querem se expor. Foi orientação política para a gente fragilizar o governo, que era a nossa proposta. A proposta era desestabilizar o governo, entendeu?! Era manter a desordem para que a gente mudasse… Era esse o objetivo do PCdoB. Nós éramos alimentados com o ódio. Se você dá um livro da Guerrilha do Araguaia e vê o que os militares fizeram com os universitários que foram para lá… a gente ficava doido. Então a gente queria um governo igualitário, um governo socialista, que ia resolver tudo. Colocava a Albânia como exemplo. E somado a isso, um sentimento de transformação que toda juventude tem. É nato isso.

IDD: VOCÊ ESTAVA PRESENTE NO ATO QUE ACONTECEU DOIS DIAS DEPOIS, EM FRENTE AO PALÁCIO RIO NEGRO, QUANDO OS LÍDERES DA MANIFESTAÇÃO DA PRAÇA DA MATRIZ TENTARAM CONVERSAR COM O GOVERNADOR?

André: Sim. O coronel Cavalcante e o coronel Lustoza fecharam um trecho da Sete de Setembro, mas não fecharam a rua onde o Paulo Jacob mora (rua Major Gabriel). E nós entramos por ali. A gente já saiu em frente do Palácio, e aí os policiais correram para cima da gente. Quando eles correram, já foi para dar cacete. A porrada cantou lá. Eu apanhei de novo nesse dia. Ali não tinha como não apanhar. Só tinha uma via para a gente sair, que era voltar por onde a gente veio, onde hoje é o Prosamim.

IDD: E QUANDO VOCÊ SAIU DO MOVIMENTO?

André: Eu saí do movimento quando o Amazonino Mendes me convidou para ser seu assessor na Prefeitura de Manaus, minha vida política acabou ali. Quando eu passei a trabalhar deixei o movimento e também a luta partidária. Eu me senti um pouco mal, traindo os meus ideais. Confesso que entrei na prefeitura com 18 anos puramente pela necessidade. Eu ia servir o Exército, não servi. O Amazonino me arregimentou. No fundo, no fundo, eu me senti traindo a causa. Um sentimento ruim. Quando eu olhava assim os movimentos, as pessoas participando…

IDD: VOCÊ TEM OUTRAS LEMBRANÇAS PITORESCAS DAS MANIFESTAÇÕES QUE VOCÊ PARTICIPOU?

André: No Distrito Industrial, quando o presidente Figueiredo veio para apoiar o Josué Filho, ele colocou o pessoal ali na Bola da Suframa. Todos os ônibus do Distrito paravam lá. Então todos os operários eram obrigados a reverenciar o presidente. E nesse momento nós estávamos infiltrados e fizemos uma rebelião. O presidente Figueiredo perguntou quantos anos nós tínhamos. Eu respondi que tinha 16 anos. E ele disse que com 17 anos estava nas Agulhas Negras. Ele me perguntou qual série eu estudava. Eu respondi que se tivesse as condições que ele teve, talvez eu também estivesse nas Agulhas Negras.

IDD: MAIS ALGUM FATO HILARIANTE DESSA ÉPOCA?

André: Eu me lembro que uma vez eu estava segurando um estandarte, que era aquela foice e o martelo. Pressenti que apanharia de novo. Aproveitei o fato de que um bêbado insistia em querer segurar o estandarte; o passei para ele e fugi (risos). O bêbado pegou porrada. Não deve saber até hoje porque apanhou (risos).

André Frota na manifestação de 28 de setembro de 1983

Entrevista com André Frota Durango Duarte

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