Entrevista com Ailton Soares

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Catarinense de nascimento, mas radicado em Manaus desde a década de 1970, Ailton Luiz Soares fala um pouco sobre sua participação no movimento estudantil local e também sobre o PCdoB amazonense do fim da ditadura militar.

IDD: Quando o senhor chegou a Manaus e quando começou a participar do movimento estudantil?

Ailton: Nasci em 22 de janeiro de 1953 na cidade de Tangará, em Santa Catarina. Cheguei aqui em 1970, bastante jovem. Vim como militar da Aeronáutica. Em 1975, prestei vestibular para Economia, passei e, no ano seguinte, deixei a Força Aérea para ingressar na Universidade do Amazonas. Lá, conheci as pessoas, o movimento estudantil começou a borbulhar. A luta pelo fim da ditadura crescia no Brasil, e, em 79, praticamente eu já participava de alguns debates. Tinha alguns amigos mais politizados que já debatiam mais.

IDD: Já tem contato com o PCdoB nessa época?

Ailton: Sim. É também em 79 que eu tenho contato com o PCdoB. Quando eu entro no movimento, praticamente eu trabalho com o João Pedro, faço chapa com ele, e foi com ele que eu aprendi várias coisas de movimento também e é com ele que eu venho para formar o núcleo da direção do partido. É o Eron, o João Pedro, Crisólogo, eu, Mônica Maia, Francisco Braga e um professor que não me lembro o nome, que não ficou muito tempo. Desse grupo, quem firmou mesmo foi o Crisólogo, João Pedro, eu, Eron… a Mônica Maia depois viajou para o Rio de Janeiro…. Nós constituímos o primeiro núcleo de partido e aí começou as discussões… e aí já ouve UNE no meio… e aí já começa a visão de organização de movimento, de tática e estratégia, de acumulação de força, de bandeiras…

IDD: No movimento, o senhor era conhecido por ter um perfil de grande organizador e estrategista…

Ailton: Minha função de organizador foi sendo desenvolvida com o tempo. Na verdade, cada um vai segurando aquilo que compreende melhor. O Eron e o João Pedro eram mais de “massa”, falavam mais… eu nunca gostei de falar em público, nem de fazer discurso político… até hoje não gosto.

IDD: Por timidez ou por segurança esse medo de fazer discurso?

Ailton: Acho que falar é perigoso. Quando você faz discurso político, uma coisa é certa: 99% do que você fala não vai dar em nada… então, é muito ruim. A não ser que você tenha outra visão de mundo. Primeiro organize e faça, para depois falar. E aí, quando você faz isso, aí já não precisa mais falar… já está feito, não precisa falar mais. Cada um vai se adaptando, vai demonstrando as suas capacidades, o que cada um tem que desenvolver. E no fim acaba que cada um vai definindo tarefas que vai assumindo. E depois, com o tempo, a quantidade de tarefas são muitas…. Você tem a parte de organização, a parte de finanças… uma porrada de atividades que você tem que conduzir. Porque você vira uma organização que tem que trabalhar.

IDD: Como era a atuação do PCdoB e PT naquele tempo?

Ailton: Quando você quer aglutinar forças, tem que ter uma bandeira comum. Até 82, a grande frente era o PMDB. Só tinham duas frentes: PDS ou PMDB. Então o PMDB virou uma frente e ali dentro todo mundo, inclusive quem é petista hoje… todo mundo estava lá dentro. Concordando ou não, trabalhando, porque era a única forma de você se apresentar. Ideologicamente sempre teve uma concorrência entre PT e PCdoB. Mesmo as pessoas não se identificando, quando você reúne um grupo de pessoas, pela discussão você já sabe quem é quem. Quando você levanta uma questão, uns dizem que vão fazer de um jeito, outros dizem que vão fazer de outro. Cada grupo acaba tendo uma visão política, ideológica que, na prática, vai definir a forma de abordar aquele assunto. Em nível histórico, sempre vai ficar aquela discussão sobre como se construiu a visão de classe, seja a visão pequeno burguesa, que é a visão mais trotskista que a gente coloca, que aí cai em alguns erros, em alguns mecanismos. E a visão leninista ou a visão bolchevique, sei lá o quê, que defendia essa visão mais radical, porém, mais consequente. Não é o que se chamava de falso radicalismo, de ir lá, bater, quebrar… e no fim não é nada. A outra é uma visão mais radical porque ela pretende de fato conquistar, transformar, conquistar aquele objetivo.

IDD: Comente sobre o primeiro centro acadêmico…

Ailton: Quando eu ingressei na universidade ainda não existia o Cuca, que, se eu não me engano, é de 78, perto de 79. O Cuca tem uma história de que o seu precursor teria sido o Raimundo Cardoso. Ele teria reunido, começado a discussão e, em seguida, o Eronildo e outras pessoas… o Crisólogo, o [Ademir] Strotski, do Ipaam foi também… o o Carijó… Esse pessoal, todos foram presidentes… o Eron, o João Pedro… foi uma sequência de diretorias, e o Cuca, dentro do movimento, procurou se expandir e incentivar a visão de organização do movimento, centros acadêmicos… E aí, dentro da organização, o primeiro presidente do DCE, o Sardinha, que era da chapa “Reação”, um movimento de mudança para romper com aquele formato de presidente indicado, como era até 78. Eu ainda não tinha muita sensibilidade, não participava muito de movimentos, até porque eu trabalhava muito, já era um cara de certa idade, já não era um jovem. Não era um estudante profissional…, e acabei virando depois, quase…, mas aí já conversando mais, já mais politizado como outras pessoas.

IDD: E o diretório universitário? Comente sobre…

Ailton: Eu participei ainda de longe na eleição do Sardinha. Ele era um cara que tinha uma visão de ser contra, mas não uma visão político-ideológica. Tanto que ele ganhou a eleição, foi um líder de massa, mas também foi um cara que fez parte do Conselho Universitário, a elite da universidade naquele tempo. Na chapa do João Pedro, que sucedeu a gestão do Sardinha, eu fui secretário de finanças. Sempre cuidei de finanças, de organização. Não vou lembrar agora que em era o vice. Eu me lembro de um rapaz chamado Favacho, mas o pessoal também depois foi se afastando. Talvez seja aquilo: como muita gente talvez fosse mais independente, quando o negócio começou a definir, talvez não quisessem aparecer. E outra: participar de movimento exige muito. Além de ter sempre reuniões nos piores horários – de noite, sábado e domingo –, que muita gente não gosta, exige um full time. Você tem que estar se virando, em atividade. Por isso que quase eu virei um estudante profissional. Além de trabalhar eu tinha que ter minhas folgas para participar de uma porrada de atividades.

IDD: O senhor já estava totalmente envolvido com as atividades do PCdoB?

Ailton: Nessa época, 80, eu já estava no PCdoB. Da metade para o final [do mandato] do DCE, já estava sim. Era tudo extremamente clandestino. Só se pôde aparecer em 82. Havia alguns “aparelhos” na cidade. A gente só se reunia neles. Montava um aqui, depois mudava… Porque podia acontecer, sempre. Ninguém sabia como estava a repressão. O “aparelho” não era para reunião de partido. A gente só tinha mesmo para as reuniões da direção. Porque as outras reuniões, naquele tempo, se fazia mais aberto, de massa. Aí você fazia as conferências do partido. Geralmente nós fazíamos duas conferências aqui. Uma, nós fizemos na Maromba, que era da igreja, e outra nós fizemos numa organização que me parece até da Seduc. Você não vai como conferência, vai como seminário… Você tem um “aparelho”… Se viesse, por exemplo, uma pessoa da direção nacional, ela vai no carro e não pode ver. Porque é aquela história: apesar de ser uma pessoa indicada, alguém pode ter plantado. Na verdade, não transmite segurança.

IDD: E o movimento estudantil secundarista?

Ailton: Em nível geral, os nomes de destaque do movimento secundarista daquela época eram o Filizzola, o Sávio, que foi um cara que apareceu muito também. Tinha o Arlen que era um menino bom lá da zona leste. Mas o movimento não chegou a ter um tempo para ter grandes lideranças. Na verdade, logo depois disso esse movimento foi mudando. O movimento é forte quando ele aplica certas diretivas. Quando ele usa os seus instrumentos de organização. Eu lembro que nós tivemos uma eleição, acho que foi a depois do Sávio, de 82 para 83… O Amazonino tinha acabado de ir para a Prefeitura e ele apoiou uma chapa para desarticular a gente. Nós demos uma estruturada no movimento com diretivas bem precisas. A gente, sem dinheiro… porque o pessoal do Amazonino viajou para Itacoatiara, Manacapuru… fizeram um monte de coisas, fizeram show…. E nós conseguimos dar-lhe uma surra. Se não me engano, a candidata do nosso lado era a Lindalvinha, uma menina do Coroado, secundarista.

IDD: Como o senhor vê o movimento estudantil na atualidade?

Ailton: Hoje eu não consigo perceber a existência de um movimento estudantil. Você não consegue perceber a presença política do movimento, interferindo. Porque na verdade o movimento estudantil, quando ele está ativo, se manifesta em todos os campos, todos os debates, todas as questões, que eram justamente a parte importante do movimento. No geral, as grandes lideranças políticas regionais ou federais do país sempre foram aquelas que participaram do movimento político, estudantil ou algum tipo de movimento, porque é onde você vai fazer tudo que você vai fazer no Congresso depois…. Ideológica ou politicamente falando, você forma a sua opinião quando jovem. Muitos políticos têm a sorte de começar uma posição boa e envelhecer com ela, mas, a maioria, quando vai ficando mais velho, já está na contramão. O filho e o neto já estão com outra visão de mundo. Talvez seja a própria dinâmica do movimento que faz isso.

IDD: O movimento do seu tempo conseguiu vitórias dentro da Universidade?

Ailton: O movimento estudantil dentro da universidade teve muita conquista de conteúdo, porque você também tinha que ter uma pauta muito acadêmica. Então, chegou um momento que todos os cursos tinham problemas de currículo. Aí é quando também flui o movimento. Cada curso, cada entidade tem suas organizações, tem os seus fóruns de Agronomia, de Economia, de Engenharia. É também onde você consegue, dentro do currículo acadêmico, levar mais gente. Porque nem todo mundo é obrigado a ser petista, comunista, isso e aquilo. Você amplia as bandeiras… É um debate que interessa… vem da educação, vem da saúde… e aí você consegue melhorar.

IDD: Uma das bandeiras de luta do movimento era o transporte coletivo, seja pela redução do valor das tarifas ou pela garantia da meia-passagem aos estudantes. E isso causava embates ferrenhos contra o governador da época, Gilberto Mestrinho, que foi ajudado pelo PCdoB na sua eleição. Como era essa relação de amor e ódio?

Ailton: Logo que o Gilberto começou a governar em 1983, teve um entrevero com ele, na Praça da Matriz. Quer dizer, começamos bem, participamos do governo, ajudamos o governo dele com uma porrada de coisas, mas, logo em seguida teve esse episódio. Houve um confronto aonde ele foi forte e levou vantagem. Você quando vai para um ringue lutar não pode reclamar do adversário. São dois profissionais que vão lutar.

IDD: Qual a consequência deste movimento?

Ailton: O Gilberto era um adversário à altura e você tinha que combater direito. O movimento estava começando, não tinha tanta experiência, e nesse embate o Gilberto ganhou. Nós sofremos, nesse episódio, por causa do isolamento político. Você tem uma série de aliados, que pode ser o bispo, o padre… Você está ali porque você tem alianças. Mas de repente, você cria uma situação, que os aliados dizem: “vocês fizeram a merda, então se resolvam para lá. Não vou me meter mais”. Então você já perdeu, e, nessa hora, o cara que luta contra mim está me olhando e diz: “pode ferrar ele, que agora ele está sozinho”. Essa que é a situação que a gente chama de isolamento político. Ou seja, nessa atividade, com certeza um lado estava mais bem preparado que o outro. Nisso aí foi que o Gilberto, ou as forças que estavam com ele, ou a força… lá o coronel Lustoza que foi secretário de segurança, e os aparelhos de segurança, fizeram o trabalho. Montaram uma estratégia… e o movimento ficou nesse nível. Que eu me lembre, eles passaram umas duas semanas em cima da gente. Ninguém podia se coçar.

IDD: Mas o Gilberto também ajudou o movimento?

Ailton: A gente sempre teve muito apoio do Gilberto. O movimento sempre precisou de apoio, de transporte, disso, daquilo. Você não faz movimento sem dinheiro. Você não politiza movimento nem estudantes sem dinheiro. Chegava uma época do ano que estudantes do Brasil inteiro iam para congressos e custava uma boa fortuna de passagens, por exemplo. Então, você precisa deles, senão você não faz. Você fica num isolamento total, você não tem como progredir e fazer o movimento crescer.

IDD: O senhor ainda faz parte do PCdoB?

Ailton: Eu deixei a atividade política quando saí do partido, em 1987. Ainda cheguei a participar do movimento pelas Diretas. O partido aqui tinha muita força, a gente sempre jogou muito pesado, botando muita gente na rua. O partido tinha muita influência, porque nesse tempo já tinha gente para todo lado, nas fábricas, na periferia, nas escolas, no interior. Já tínhamos uma boa estrutura.

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