Duas vaias, uma vara e o burkini

Em 17 de agosto de 2016 às 14:00, por Jeferson Garrafa Brasil.

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O saltador francês, Renaud Lavillenie, comparou as vaias recebidas na final do salto com vara na Olimpíada do Rio, às vaias nazistas endereçadas ao negro Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim.  Puro despropósito, total falta de noção e mágoa de perdedor. A vaia de 1936 procurava, entre outras coisas, reforçar o devaneio onírico de Hitler da tal superioridade ariana. Foi um urro que saiu do estádio Olímpico de Berlim com decibéis de xenofobia, agressividade e racismo.  O mundo não ouviu, e o resultado todos nós sabemos qual foi.

Mas nossa vaia, não – reconheço uma pitada passional aqui. Ela nada teve disso. Pode, no máximo, ser enquadrada como nada educada, pouco olímpica e com o “singelo e puro” objetivo de sacanear o francês, recordista mundial (6,16m) e, até então, também olímpico com um salto de 5,97. Pergunto: ao seu sorriso de deboche quando saltou 5,98m e viu nosso saltador pedir pra subir a altura do sarrafo para 6,03m, posso chamar de arrogância? Ou devo?  Arrogância típica de quem se acha superior, e que não lhe permitiu aceitar que um moleque brasileiro de 22 anos pulou mais do que ele. Uma coisa não justifica a outra, mas… As lágrimas da arrogância, seja qual for seu matiz, sempre serão patéticas.

Além do recorde olímpico, Thiago Braz é um dos nove saltadores do mundo que quebraram a “barreira do som” dos 6 metros no salto com vara. Sobe nesse pódio junto com, entre outros, o próprio Renaud Lavellenie (reconheçamos, o cara é saltador top) e o lendário russo Sergei Bubka.  Parabéns, Thiago. Ouro super merecido. Bon voyage, monsieur.

E o que o burkini tem a ver com tudo isso? A rigor, nada. É que tem um monte de cidades francesas proibindo que as mulçumanas usem o tal burkini em suas praias. Alegam questão de segurança e outros etc mais. Cá prá nós: além de achar que elas tem o sagrado direito de usar os tais burkinis, minha curiosidade masculina se sente cretinamente instigada a imaginar o que aquele monte de pano esconde. Como não tenho os conhecimentos antropológicos e culturais necessários pra me aprofundar no tema, deixo uma reflexão mais superficial: se os caras hoje proíbem o uso de determinada roupa, amanhã vão me obrigar a ligar pra um 0800 desses e perguntar,  como diz o famoso samba de Noel Rosa, com que roupa eu vou?

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sobre o autor

Articulista-Jeferson-BrasilFoi baterista, segundo ele, do sofrível conjunto musical “Os Paqueras”. Jogou basquete, futebol e tênis de quadra. Admite, orgulhosamente, que seus dois irmãos jogavam muito mais. Sua vingança é hoje ser corredor de rua, com sonho de virar maratonista. É cronista bissexto.