Desânimo

Em 27 de fevereiro de 2017 às 09:36, por Gilson Gil.

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Outro dia, estava de carro pelo Planalto, na antiga rua Goiânia, e vi algo espantoso: um restaurante popular, daqueles que servem o frango “tv de cachorro”, usou a alameda pública para assar o seu churrasco no método “fogo de chão”, no qual a brasa é feita no solo e as carnes espetadas. Tudo maravilhoso, caso fosse dentro do recinto. Contudo, era feito no meio da rua, em um buraco escavado em área pública, com carros e coletivos passando, jogando fumaça livremente, talvez numa técnica de defumação dos assados. Meu espanto foi pela ousadia de se fazer isso à luz do dia, sem receios de punição ou repreensão. E não ficou nisso. Mais adiante, já no Conjunto Versalhes, uma praça pública tinha sido remodelada como uma academia e havia uma aula de crossfit. No entanto, não era um projeto de academia popular, pública, ou coisa similar. Era uma academia privada, que reformou a praça conforme seus interesses e dava ali suas aulas. É chocante que os moradores, conforme indaguei, aprovavam isso, pois a praça estava tão sucateada que eles preferiam ela “privatizada” do que “abandonada”.

Isso é só uma pequena dose do que se vê na cidade de Manaus, no primeiro bimestre de 2017. Pode ser que daqui a alguns meses tudo se reverta e a cidade progrida, superando outras capitais do Brasil e do mundo, nos mais diversos setores. Porém, só posso falar do hoje, sem fazer previsões.

Nessa linha, tudo pode mesmo piorar. O que se assiste na questão do transporte coletivo é desanimador. Aumento de preço da tarifa, greve dos rodoviários, empresários recolhendo os veículos, ratos filmados, incêndios terroristas, prefeitura e governo retirando os subsídios e se acusando, enfim, o pior dos mundos possíveis.

Desanima ver como a prefeitura perdeu o controle sobre o sistema. A ausência completa de opções de modais inviabiliza qualquer tipo de solução criativa ou emergencial. Já vi políticos falando no BRT como sendo a solução. Entretanto, já são quase 5 anos sem que um passo tenha sido dado nesse caminho. Agora, depois de visitas a outros países, as entrevistas foram reticentes e nada conclusivas. Audiências públicas ainda estão sendo feitas, sem cronogramas ou perspectivas viáveis. Quem conhece a burocracia estatal para esse tipo de obra grandiosa sabe que, mesmo com tudo a favor – dinheiro, licenças, contratos, indenizações etc. – o BRT propriamente dito não começaria em menos de uns dois anos. Ou seja, não é ele que solucionará nosso sistema no curto e médio prazo.

Finalizando, podemos dizer que é preciso se olhar com responsabilidade e segurança a situação da cidade. A insegurança pública é assustadora. Podemos dizer que há verdadeiros ataques “terroristas” aos nossos coletivos. Quais os limites e o alcance de tais atos?! Difícil dizer. Além disso, rodoviários e empresários criaram um “governo paralelo”, que atemoriza a população com seus desígnios. Quem paga o pato, ou a tarifa, é o morador que sai da faculdade ou do trabalho às 10h e fica no meio da rua, sem ter como voltar para sua casa. Realmente, tudo pode piorar…

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.

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