Demolindo o Eduardo (Parte I)

Em 11 de setembro de 2017 às 08:00, por Amaury Veiga.

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Conforme Marx, modo burguês de produção adentra novas fronteiras, conquista espaços distanciados da localidade originária do capital, e reproduz sua ferocidade por maiores lucros, como também o….

Caros possíveis leitores, 2 notas preliminares:

1ª – O Eduardo do título, não é o nosso senador e ex-governador, e sim, o engenheiro militar Eduardo Ribeiro, o maranhense que aqui chegou no sec. XIX;

2ª – O sub-título não é nenhuma tese sobre o grande pensador alemão, cujas boas ideias foram deturpadas ao longo dos tempos! É a introdução de uma tese sobre a cidade de Manaus no auge do período da borracha, ou como determinadas pessoas adoram dizer, a Belle Époque!

Tive que ajudar minha querida neta num trabalho sobre aquele período, tal a complexidade das colocações necessárias para discorrer sobre o tema!

A começar pelo título:

Quando viver ameaça a ordem urbana!

Confesso que tive grandes dificuldades!

As pesquisas realizadas nas bibliotecas e na Internet, revelaram uma miríade de teses, quase todas unânimes em criticar, desfazer, colocar por terra – daí o título deste – tudo que o poder público realizou naquela época!

Fiquei estupefapto! (Pensei que estupefacto era com PT)! Havia realmente um complot contra as classes menos favorecidas e contra os índios? Como fomos tão cruéis e desalmados?

O primeiro código de obras do país, a primeira eletrificação urbana, os bondes, o Teatro, o porto flutuante – inédito na época -, os estudos de Medicina Tropical pioneiros, etc… tudo isso foi executado ou foi possível tendo em mente ou graças a espoliação das classes trabalhadoras?

Senão vejamos: o primeiro a meter o pau é o Eduardo (o 3°!) Galeano no excelente As Veias Abertas da América Latina.” O Teatro Amazonas, monumento barroco de bastante mau gosto (?), é o símbolo maior da vertigem daquelas fortunas do princípio do século. O tenor Caruso cantou para os habitantes de Manaus na noite de inauguração, por uma soma fabulosa, depois de subir o rio através da selva”. Então Caruso realmente cantou aqui?

O próximo, é o Eduardo (o 4°!) Bueno, no seu também excelente Brasil: Uma História. Pelo menos o Bueno disse “Em 1896, foi inaugurado o primeiro teatro do Brasil, o fabuloso Amazonas, decorado com opulência”. …“é um dos únicos sinais  palpáveis de um ciclo econômico que acabou melancolicamente, depois de ter custado muito sangue e suou aos seringueiros…”

O nosso Teatro foi mesmo o primeiro!

Agora, as teses (?) mais modernas:

AMEAÇA À ORDEM URBANA: Analogias urbanísticas e a Manaus da Belle Èpoque.

Paulo Marreiro dos Santos Jr – Mestrando da PUC-SP.

“Buscando adaptar-se para atender aos ditames do mercado mundial no mesmo instante em que se mostrava receptiva aos valores culturais da Belle Époque francesa, as elites manauaras intervêm fortemente na estrutura urbana, modificando hábitos, disciplinando posturas, execrando costumes, secionando e saneando espaços e, ao mesmo tempo, marginalizando e excluindo  populares.”

Manaus: da “Zirma” dos viajantes a “Maurilia” dos historiadores.

Leno José Barata Souza – Mestre em História Social pela PUC/SP. Doutorando do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC/SP

“Adotou-se toda uma linguagem científica para condenar as moradias de palha e barro ou qualquer outra que não estivesse de acordo com as regras de construção ditadas por um cientificismo urbano, tanto quanto antiestéticas e chamarizes do feio e do grosseiro concorriam agora como um foco potencial de doenças e combatidas do centro que se queria requintado, toleradas apenas nos arrabaldes mais distantes deste.”

MANAUS, UMA GEOHISTÓRIA NO PERÍODO ÁUREO DA BORRACHA  

Carla Cristina Vasconcelos Batista

“Mas, esse fluxo migratório prejudicou substancialmente Manaus, pois não possuía infra-estrutura suficiente para atender a demanda de pessoas, deixando-as as margens da cidade. Além de ter transformado o índio em trabalhador urbano. A “modernidade” arrasou tudo que era considerado feio e atrasado. Segundo a historiadora Francisca Deusa Sena da Costa, anteriormente a natureza era vista como paraíso, mas no século XVIII, sobretudo no XIX, essa ideia muda, o homem passa a ver a natureza como algo depreciável. Enfim, era necessário embelezar a cidade para atrair os estrangeiros negociantes da borracha e estabelecerem-se na cidade”!

O trecho sublinhado contém uma informação interessantíssima! A de que, no sec.XIX o homem passa a encarar a natureza como algo desprezível!    

Gostaria de saber em que foi baseada essa informação!

Poderia continuar ad infinitum com as teses (?) mais esdrúxulas possíveis, mas pouparei o leitor.

Com todo respeito aos pseudo-intelectuais e possíveis estudiosos da História, acredito que a realidade é mais prosaica.

Descreverei abaixo, o que considero uma verdadeira revolução para a época – as intervenções feitas pelo poder público na cidade de Manaus.

Começarei pelo Porto, maravilha da engenharia, em aço, que até nos dias de hoje, continua servindo a Capital!

Passo ao saneamento realizado com o aterro dos igarapés, possibilitando a abertura de novas ruas, avenidas e bulevares, a implantação dos serviços dos bondes, a eletrificação, as pontes de ferro, a pavimentação das ruas, as redes de água e esgoto sanitários, e os serviços de telefonia e telegrafia!

Aliado a tudo isso novas idéias e pensamentos começaram a circular, notadamente na medicina tropical, na música, nas artes, enfim.

Com o desenvolvimento econômico, Manaus transformou-se numa cidade moderna, equiparando-se com a capital federal, o Rio de Janeiro.

Continua…

sobre o autor

Articulista-Amaury-VeigaÉ o que quis ser desde criança: engenheiro civil. Especializou-se em estrutura, numa carreira que já completou quarenta e quatro anos. Tem mais de quatro mil projetos de sucesso. Só não contava que, ao longo de sua trajetória de vida, também se dedicasse ao tênis, jazz, cinema, comida japonesa e agora escrever artigos.

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