Deep River

Em 9 de janeiro de 2017 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Deep River Durango Duarte

Consegui ser transferido e cursei o segundo e o terceiro ano do científico, em Lorena. Não fui mais colega de turma do Dão, que por ter completado 18 anos teve que ir prestar serviço militar e que daí por diante parece ter perdido todo e qualquer interesse por continuar seus estudos. Concluiu o científico e ganhou o mundo. Tinha se tornado bastante popular, tocava violão e era assíduo frequentador de festinhas, onde exibia seus dotes de bom dançarino. Estimulou-me, sem sucesso, a aprender as duas coisas. Nesta época havia um movimento dentro da Igreja Católica, chamado Cursilhos de Cristandade, em que o Dão mergulhou de cabeça (sem qualquer alusão ao” Lamparina “!). Acompanhei-o, creio que para ambos, mais por desejo de integração com os grupos de jovens, possibilidades de namoricos e festinhas, do que por fé. Não havia discussão política ou qualquer outro tema que exigisse maior erudição. Era uma agradável máquina de alienação. Além dos temas religiosos do movimento curtíamos muito Chico Buarque, Maria Betânia, Vinícius com Toquinho e Maria Medaglia. Num ingles estropiado ou fingido, tentávamos cantar “Without You” (Nilsson); “Have you ever seen the Rain“ (Credence Clearwater Revival); “Bridge over trouble Water” (Simon And Garfunkel); e “How can you mend a broken heart”(Bee Gees). Chegamos a incluir em nosso repertório (meu e do Dão) um antigo gospel que tínhamos aprendido em um disco de Leopold Stokowski, chamado “Deep River”. Muito triste, versava sobre os engodos que os pregadores, a serviço dos dominadores brancos, tinham impingido aos escravos da Louisiana, no sul da América do Norte, onde a travessia do Rio Jordão pelos hebreus, no Antigo Testamento se misturava com o rio Mississipi e o necessário sofrimento que se deveria suportar aqui na terra para se merecer o passaporte para a vida eterna, de gozo, no Céu. A terra prometida, The prommissed land. Letra fácil, acordes simples. Por muitos anos pensei tratar-se de uma espécie de “Asa Branca” (Luiz Gonzaga) para os negros americanos. Muitos anos depois, estava eu, à noite, em um bar na Bourbon Street, em New Orleans, Louisiana, bebendo com amigos, quando vi, no outro lado da rua, um desses cantores de rua, um negro de bela voz abaritonada, tão comuns nas metrópoles americanas e europeias, fazendo seu trabalho. Tendo já devorado uma dúzia de ostras e outro tanto de cerveja e whisky de milho, tomei coragem, aproximei-me, joguei gorjetas no prato que trazia junto de si, um valor maior que o que as demais pessoas jogavam, para chamar mais sua atenção e tropegamente pedi-lhe que cantasse “Deep River”. Para minha surpresa disse que não conhecia. Por impulso etílico (em condições normais a conversa teria terminado aí) tentei dizer-lhe do que se tratava e comecei a entoar os primeiros versos, no que outro negro acercou-se e começou, sem que eu entendesse a maior parte do conteúdo da fala, mas que pareceu-me conter certa rispidez, a dialogar com o cantor. Logo juntou um pequeno grupo e um começou a cantar, seguido dos demais e de mim. Terminado o concerto improvisado cada um foi para o seu lado. Lacrimejei pela magia do momento, de saudade de Lorena e do Dão.

               DEEP RIVER

               MY HOME IS OVER JORDAN

               DEEP RIVER, LORD.

               Y  WANT TO CROSS

             OVER INTO CAMP GROUND.

           OH, YOU WANT TO GO

            TO THE GOSPEL FEAST.

             THE PROMISSED LAND

             WERE ALL IS PEACE.

           DEEP RIVER, LORD.

 

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.