Declaração de relacionamento

Em 28 de fevereiro de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Certamente não foi amor à primeira vista. Nem sei onde se deu o nosso primeiro contato. Quando percebi, já estava comigo, como se fizesse parte do meu ser. Não deu alternativa, nem tempo de substituir o status de meu perfil. Mas mudou o meu estado de animação e sem muita cerimônia me levou logo para a cama. Insaciável, não queria me deixar sair mais de lá, por mais que eu relutasse. Sem muita resistência e sem força, muitas vezes me entreguei, como se não tivesse mais nada a fazer. Ainda que suas carícias não fossem tão delicadas e me maltratassem a cabeça, faziam doer a nuca, a fronte e as juntas. As noites ficaram longas e demoradas, com sensações de frios e calores a me dominar. Tremores e delírios eram rotinas, como os sonhos que não se completavam. Fragmentos insistentes a se repetir até se tornarem pesadelos. Enquanto ela saciava suas vontades, esgotava aos poucos a minha libido. Me fez de gato e sapato, amoleceu meu corpo como uma massa de modelar, brinquedo destrambelhado que pode a qualquer momento desabar em qualquer lugar. Mudou meu ritmo de vida ao tenta me reter em casa, me fazendo querer a sombra e me esconder da luz do sol. O corpo esquentava, os olhos relaxavam e os ouvidos se incomodavam com tudo. Só mesmo um casulo, mas ficar abraçado com ela. Muito difícil resistir. Reconheço que fui tomado, possuído por essa coisa invisível que transforma nossas vontades numa coisa que não é bem nossa. Parece mesmo que queria me levar com ela. Essa coisa invisível, mas que arrasa e que chamam de VIROSE.

Não há como escolher ou se esconder. Ela pode te pegar no trabalho, no bar, em casa ou na igreja. Ela não se apresenta, nem manda convite. Assim, te indico maiores cuidados tentando caracterizar a maldita. Sendo invisível, não é possível dizer que seja feia ou bonita. Nisso também ela é desleal, pois não deixa escolha, mesmo sem apresentar qualquer personalidade, mesmo sem solicitar ou avisar, ela se apossa da gente ao seu bel prazer. Ainda que não apresente qualquer atrativo, nem mesmo atributos físicos ou vantagens, como seios consistentes, glúteos delineados ou boca boa pra beijar. O pior é que não nos reserva nem mesmo um lugar pra gente se guardar.

Fica na gente como hospedeiro para garantir sua passagem, se expandir e a outros abraçar. O pior de tudo é que exige fidelidade total.

 

 

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.