Declaração de relacionamento afetivo

Em 30 de maio de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Já fiz outros tipos de declaração, por aqui, mas não sei, se alguma nesse gênero. Não é fácil externa-la. Não é um relacionamento recente, portanto, não se trata de um deslumbramento inicial de um relacionamento, que seria mais fácil não enxergar ou ignorar os defeitos um do outro. Para alguns, pode não ser novidade, atentos aos meus inúmeros elogios que lhe destacam alguns de seus atributos, nem sempre evidentes. Ainda que, com uma certa frequência, lhe faça críticas ao comportamento e condene suas mazelas, por ter se relacionado com alguns homens que atravessaram e atravessam o seu caminho sem o menor respeito por ela.

Não é ciúmes, sei muito bem que não fui o seu primeiro amor, nem ela, a minha primeira escolha. Para alguns, ela contínua a trair, se entregando a sujeitos que fazem demasiadas promessas, sem qualquer compromisso. Nunca me importei que tivesse tido outros relacionamentos, mesmo que, com sujeitos tortos, com seus discursos prolixos, suas falas sedutoras, corruptores, com suas juras de amor e apelos estampados em outdoor. Vejo as vezes evidências muito claramente e compreendo que se trata de algum desajuste. Não há outra explicação para a sua constante submissão e apatia, perante enganos tolos e humilhações diárias, mesmo sabendo que eles sempre voltam para lhe tirar mais proveito.

Nos relacionamos há muito tempo, por isso construímos uma longa história com encontros e desencontros de tudo que tivemos. Momentos de mais amor e menos dor, contrastados com situações em que nada perdoei. Resistimos por que não podemos ser diferentes daquilo que rege a nossa natureza. Por quere-la tanto é que tive de reconhecer que ela não pode ser regulada pela minha vontade. Contudo, não acredito em sua autonomia. Luta para ser o que quer, mas muitas vezes se submete completamente as convenções e padrões importados. Se revela apenas uma consumista banal que tenta nos enganar com maquiagens reparadoras, suas intervenções cirúrgicas em clínicas clandestinas.

Ainda que ela já tenha perdido grande parte de sua juventude e beleza, que tenha ganho outros atributos, vale dizer que não são estes atrativos que nos aproximaram e nos vincularam. Mas uma relação afetiva, construída de muitas experiências e afinidades, algumas coisas, nem sempre sabemos explicar. Reconheço que ela, já não é mais a mesma e passo os olhos, estendo as pernas para lhe alcançar, passo as mãos em partes acessíveis de seu corpo. Tateio, buscando reconhecer o que resta daquilo que já se encontra mudado. Penetro em áreas mais guardadas e conhecidas, na esperança de recuperar algumas das sensações de nossos antigos encontros.

Ainda temos muitos momentos de compreensão e até amor, sobretudo quando estamos a sós. Mas quando a animação é grande e tumulto promovido, temos dificuldade de nos relacionar. Quando tens que obedecer a programações oficiais, não há como me incluir e mesmo te conhecendo muito bem, sabemos que é possível surgir o conflito, mesmo que por coisas, aparentemente pequenas, mas que podem se tornar graves. Muitas vezes, pensei em romper, mas definitivamente não consegui te deixar. Por isso, tenho que reconhecer sempre e declarar o meu comprometimento neste relacionamento afetivo com você, cidade de Manaus.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

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