Da Copa de 70 às Olimpíadas 2016, tecnologia e atraso

Em 31 de agosto de 2016 às 08:00, por Jorge Alvaro.

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Nesses dias passados de olimpíadas, não houve como não ficar várias horas diante do aparelho de TV, com o controle remoto na mão e dezenas de canais esportivos disponíveis, apenas aguardando um click.

Que beleza! Do futebol ao tênis de mesa, passando pelas demais modalidades esportivas. Tudo com transmissão ao vivo ou para degustação no horário em que o telespectador definisse. Essa é a maravilha da comunicação no século XXI, televisão aliada à internet, comunicação instantânea.

Nos cinemas de Manaus, a partir do início dos anos 60, o Canal 100 era a única linguagem visual de esporte disponível para os manauenses, pois a televisão só veio a ser realidade para nós a partir de 1969 e de início, através do vídeo tape, com transmissão ao vivo apenas dos poucos programas locais.

Documentário exibido nos cinemas antes do filme programado para o dia, o Canal 100, fundado por Carlos Niemeyer, com lances dos principais jogos de futebol, além de outros eventos, esportivos ou não, ocorridos no país ou no mundo, era esperado pelos expectadores como eu tal qual o filme principal.

Os Cines Odeon, Avenida, Polytheama, Guarany e Éden, situados no centro da cidade, além do Ypiranga, no bairro da Cachoeirinha, possuíam as principais salas. Porém, a época era do rádio, em sua plenitude.

A Copa do Mundo de Futebol de 1970, do inesquecível tricampeonato, teve os jogos da seleção brasileira vistos apenas por alguns pelo vídeo tape, que era programado para exibição pela extinta Televisão Ajuricaba lá pelas onze horas da noite, pois a fita magnética contendo a gravação chegava a Manaus no último voo do dia do jogo. A partida final paralisou a cidade num domingo à tarde, com a transmissão direta pelas emissoras de rádio, Difusora, Rio-Mar e Baré.

Aqueles inesquecíveis quatro a um, contra o time da Itália, me soam no ouvido, gol a gol, como se estivesse ainda na antessala do Cine Odeon, onde eu aguardava a costumeira sessão vesperal. O som do rádio vinha da portaria, onde um dos empregados do cinema mantinha o aparelho portátil ligado em volume alto. A cada gol, o grito de vibração da plateia que, ao que parece, não assistia a um bom filme.

Saímos do cinema com a satisfação da vitória dos 4×1. Tricampeões do mundo e eufóricos.

De Pelé a Neymar, muitos foram os avanços tecnológicos que presenciamos. Mas o povo que comemora a medalha de ouro do futebol olímpico ainda é o mesmo povo sofrido de meio século atrás.

Sem saudosismo, recordo daqueles momentos em que as notícias ruins demoravam a chegar ou simplesmente não chegavam aos manauenses. As que não chegavam haviam sofrido o crivo da censura da ditadura militar. Era uma época de desinformação que, entre outras mazelas, manteve aceso o atraso cultural do nosso povo, do qual até hoje sofremos as consequências.

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sobre o autor

Articulista-Jorge-AlvaroGinasiano do Colégio Estadual, de 1969 a 1975, tímido para ser líder, somente em 1996 presidiu a associação dos juízes trabalhistas da Região, por dois anos. De Manaus, onde pretende morrer, ouve música e assiste filmes, indiscriminadamente. Mais leitor que escritor, afinal ser o segundo é para poucos. Aceita desafios.