Culpa! Quem falou em culpa?

Em 13 de Fevereiro de 2017 às 08:05, por José Carlos Sardinha.

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A viagem de ônibus de Lorena à São Paulo foi… digamos…uma viagem! Oitenta horas que pariram outra pessoa, daí para Campo Grande, depois Cuiabá e por fim Rondônia. Foram 1400 quilômetros de estrada de cascalho entre Cuiabá e o destino final. Calor senegalês – ou como dizem no Senegal, manauara. Saindo desta cidade alguns km, tive a primeira aula de Amazônia. Tinha conseguido duas poltronas vazias, dando-me algum conforto para minhas pernas compridas. O ônibus parou para subir uma mulher de meia idade e três filhos pequenos. Bate boca e ônibus parado. De excelente estado de humor, levantei-me e perguntei se podia ajudar. O motorista informou que viajariam para perto, mas que faltava dinheiro para a passagem de um dos quatro. Prontifiquei-me e paguei o que faltava. Dirigi-me à toalete do veículo e, quando volto, a mulher que não tinha nem olhado para mim quando paguei a passagem, está aboletada em minha poltrona, com seus 3 rebentos. Estaquei-me em sua frente, pigarreei e nem tchum. Demorou para se tocar e ceder um pedacinho do que, até então, pensava ser meu. Lesson number one: propriedade privada e gratidão, paradigmas da sociedade capitalista judaico-cristã de minhas origens, não se criam, não fazem o menor sentido na cultura milenarmente coletivista indígena.

Meu irmão tinha me instruído dizer ao motorista para parar no km 135, antes de Porto Velho, no puteiro da Dona Maria. Lá deveria me apresentar a ela, fosse dia ou noite, dizendo ser seu irmão, pois ela facilitaria minha chegada em sua casa, que distava, do eixo da estrada, apenas 7 km, pela mata.

Cheguei por volta de duas horas da manhã. Era uma tapera coberta de palha, uma música estranha, que logo soube ser carimbó, três putas tristes, uma velha e um cliente se arrumando para ir embora. Rituais cumpridos, Dona Maria propôs me acolher ou seguir em frente, na companhia do cliente, que ia para o mesmo rumo. Achei mais sensato meter o pé na estrada. Raimundo, também Mundico ou apenas Dico para os íntimos, estava lépido. Depois de três meses enfurnado em missão por matas distantes, tinha vindo na Dona Maria aliviar o corpo. O que me pareceu que tinha alcançado de maneira bastante satisfatória. Ajudou-me com as malas e disse que ele e todo o mundo gostava muito do Pedro, meu irmão. O escuro da noite não lhe permitiu ver minha cara apavorada e a total contração de meu esfíncter anal quando disse que sim, que era muito comum encontrar-se onças no caminho que faríamos, que não me preocupasse, que sabia lidar com isso. Por volta de 3 horas da manhã, um Pedro com ares de incredulidade, abria sua porta para mim e minha nova vida.

O lugar, denominado Cacheirinha, era simplesmente lindo. Uma vila, cerca de 10 casas absolutamente confortáveis, bem no meio da mata. Teladas e cobertas por zinco sob palhas, as casas não tinham muros ou cercas, sendo circundadas por um gramado ralo. Pasmei-me com a altura das árvores e a sinfonia permanente que os bichos do interior da mata entoavam. Cerca de um quilometro além ficava a vila dos peões, o igarapé e os escritórios, almoxarifados, oficinas e laboratório da mineradora. Era uma multinacional holandesa e lá estavam vários técnicos oriundos dos País Baixos.

Meu primeiro café da manhã foi um espanto. Tinha leite, queijo e pasta de amendoim holandeses. No primeiro almoço fui apresentado à uma caldeirada de tucunaré, soberbamente preparada por minha cunhada Lindalva. Ainda neste almoço, meu irmão me perguntou o que eu estava pensando, me disse que em Manaus não tinha faculdade de Arquitetura ou Engenharia, mas tinha de Medicina. Quem sabe não seria uma opção. Que poderia me ajudar por uns tempos. Que me sentisse livre para decidir e que ficasse quanto tempo quisesse. Ponderei que nunca tinha pensado em Medicina, mas que por outro lado estava bem por baixo da carne seca, que o vestibular para Medicina em Manaus talvez fosse menos difícil que o de arquitetura em São Paulo. Era pegar ou largar, peguei.

Alguns dias depois me levou a Porto Velho, lá me comprou algumas roupas novas e, juntos, garimpamos alguns livros para o vestibular. Nunca tinha estudado Biologia, o que supunha eu deveria ter peso importante nas provas. Aproveitamos para visitar meu outro irmão –Joel- que lá morava desde 1965, jamais tendo voltado à Lorena em virtude de desavença, que nunca entendi bem, com meu pai e alguns de meus irmãos. Também químico, gerenciava uma outra empresa ligada a mineração de cassiterita e foi quem patrocinou a ida do Pedro para aquele Estado. Reencontro agradável e chocante simultaneamente. Enquanto conversávamos chegou um conhecido seu, prováveis trinta anos de idade, pele clara e cabelos negros, estatura mediana e sotaque nordestino. Com muita naturalidade Joel perguntou-lhe:

– “E então? Como foi tudo lá ontem? ”

 – “Normal, “Seo” Joel! Chegamos ás 9 da noite, fizemos o cerco e jogamos as bananas. Quando os grandes saíram fomos de papo amarelo. Por fim os pequenos nós passamos no terçado”.

Demorou alguns segundos para minhas fichas caírem. Assim como quem relata uma pescaria ou uma caçada de paca, o cara estava descrevendo um massacre de índios. Olhei para meu irmão e este fez uma cara do tipo “não pergunte nada, depois te explico!”. Nem precisava. Entendi tudo. Uma área de floresta, subsolo rico em cassiterita, com um bando de seres inúteis atrapalhando o progresso. O pior de tudo foi que não consegui me indignar. O tom de voz neutro, algo cansado e desinteressante, me fez apenas ver, diante de mim, um possível retirante da seca nordestina fazendo o trabalho que conseguiu arranjar para, enfim, cuidar de sua própria prole. Puro Darwin. Culpa? Quem falou em culpa?

 

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

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