Contando histórias (20)

Em 11 de janeiro de 2018 às 08:00, por Cláudio Barboza.

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Barbas longas e cabelo sempre fora do lugar, ele passou um bom tempo em Manaus e embora correspondente do Jornal do Brasil com exclusividade, passava as tardes na redação de A Crítica. Nascido em São Paulo e Prêmio Esso Nacional tinha um texto refinado. Às vezes desafiava os colegas se propondo a escrever um determinado número de linhas sem usar um “que”. Conseguia!

Esse era José Marquez, um dos correspondentes que deixaram boas lembranças em Manaus, numa época em que os grandes jornais, O Globo, Estado de São Paulo e Jornal do Brasil mantinham correspondentes praticamente em todos os estados. O JB, no entanto, era quem pagava melhor. Fosse hoje, o salário deveria oscilar entre 15 e 17 mil reais. Globo e Estadão pagavam bem menos e na maioria das vezes contratavam alguém da própria cidade, sem exigir exclusividade.

Além do texto e do status de correspondente do JB, José Marquez tornou-se conhecido pelo fato de ser o “pai” do “Bebê Diabo”. Após ganhar o Prêmio Esso ele curtiu umas férias na Europa. Ao retornar fez um contrato com o jornal sensacionalista Notícias Populares, antes de assinar com o JB. Foi onde contou a história.

Marquez deixou a capital São Paulo e chegou a Campinas. De lá, ele “plantou” uma matéria com o nascimento do “Bebê Diabo”. Uma figurinha que, conforme o texto, nascera com dois chifres e um rabo. Em seguida ele viajou para outra cidade e neste local o “bebê”, com um mês, falava palavrões a torto e a direito…

Dessa maneira, Marquez foi alimentando a história. A cada cidade o “Bebê Diabo” aprontava alguma e o jornal “Notícias Populares” abria manchetes: “Bebê Diabo assusta padres e freiras”, “Ciência não sabe explicar fenômeno Bebê Diabo”… e assim foi até chegar em Manaus, quando foi contratado pelo JB.

Marquez ainda começou a falar do boto que engravidava as moças no interior. Mas essa é uma história mais para a frente…

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sobre o autor

Articulista-Claudio-BarbozaUm místico religioso, que hoje poderia ser arcebispo pelo tempo de estudo no seminário... Mas fez opção pelo jornalismo. Entre Manaus e Minas uma dúvida eterna. Ex-jogador de basquete, Garantido de coração e tricolor das Laranjeiras. Graduado em Filosofia na Faculdade Belo Horizonte, jornalismo pela UFAM, mestre em sociologia pela UFMG.