Contando histórias (19)

Em 20 de dezembro de 2017 às 08:00, por Cláudio Barboza.

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Maço de cigarro no bolso, camisa de mangas curtas e um jeito muito pessoal de ficar batendo com o cigarro na palma da mão até acendê-lo. Um jeito simples de ser, mas de olhar firme e frases bem construídas, num olhar atento e inquieto, capaz de passar dias atrás de uma informação até fechar uma matéria. Assim era o Francisco Pacífico, ou melhor, Chico Pacífico, um dos melhores repórteres investigativos da história do Amazonas.

Conheci Chico na redação de A Crítica, onde durante muitos anos trabalhou na Editoria de Polícia. Havia sido contratado do Jornal do Commercio e era um dos principais nomes do matutino que naquela época – anos 80 – ainda funcionava na avenida Eduardo Ribeiro. Chico chegou n’A Crítica na condição de uma estrela que era, mas sempre foi uma pessoa simples, gentil e de uma conversa saborosa.

Dessa época, o amigo Zezinho, fotógrafo que hoje empresta o talento na Câmara Municipal de Manaus, lembra que determinado dia, Chico o chamou para irem a uma área onde estava havendo uma invasão. Hoje o Zumbi dos Palmares. Antes de chegar ao local e após convencer Zé que era melhor ir de ônibus, Chico explica:” vamos virar invasor para ver melhor essa onda”.

Assim fez depois de orientar o Zé: “vai pra um lado que eu vou pro outro e faz foto na moita”, assim foi feito e dias depois Chico presenteava os leitores com um relato completo, humano e verdadeiro de inúmeras situações que viveu naqueles dias entre os invasores. Dos dramas pessoais ao gole de cachaça coletivo, Chico viveu ali um daqueles momentos que só os repórteres por vocação podem avaliar.

Chico partiu cedo, quando estava no Amazonas em Tempo, fazendo o que mais gostava, que era viver todo dia a aventura de ser repórter. Pacífico tinha talento nato. Escrevia fácil e conseguia aliar esta condição à paciência e à persistência de construir uma investigação tijolo a tijolo. Em uma dessas investidas passou um tempo dormindo a cada noite em um local para evitar possíveis visitas inoportunas, mas esta é uma história mais para a frente…

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sobre o autor

Articulista-Claudio-BarbozaUm místico religioso, que hoje poderia ser arcebispo pelo tempo de estudo no seminário... Mas fez opção pelo jornalismo. Entre Manaus e Minas uma dúvida eterna. Ex-jogador de basquete, Garantido de coração e tricolor das Laranjeiras. Graduado em Filosofia na Faculdade Belo Horizonte, jornalismo pela UFAM, mestre em sociologia pela UFMG.