Coletâneas

Em 30 de julho de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

compartilhe

O leão está solto na rua

Não, não se trata de uma velha canção de Roberto Carlos, como pode sugerir aos mais velhos, nem estamos falando de um único leão. Na verdade, são vários e estão distribuídos em algumas poucas ruas da cidade. Mas não se espantem, não estão livres, portanto não oferecem perigos aos humanos. Como chegaram até nós estas figuras requer uma investigação profunda e uma história de longa duração. Por hora, apenas algumas informações mais gerais. Pode ser que um dia volte a eles com outro olhar.

Senhores e guardiões cativos

A simbologia do leão vem de uma longa tradição, legada pela antiguidade e ganhou novos significados com o Cristianismo. Na simbologia universal, sua figura assume diferentes significados, sendo frequentemente interpretada como o guardião do mundo subterrâneo, e contraditoriamente, também é lido como a representação do sol e a realeza. Talvez, por esta última interpretação é que algumas se suas representações se encontram relacionadas com um globo. Ora sustentando a pequena esfera sobre uma das patas, ora apoiando uma das patas sobre ele.

Os leões se apresentam de corpo inteiro, quase sempre com as patas dianteiras elevadas e são mantidos sobre pedestais, em geral, ladeando os portões de entrada de construções residenciais. O mais frequente, no entanto, são as cabeças, sempre no alto das construções, integradas a diferentes elementos decorativos. Podem ser localizadas em frisos e cachorros de fachadas ou até mesmo luminárias. Em geral, quando de corpo inteiro se apresentam em par sobre um pedestal, na entrada de edificação, mas podem ser vistos também isoladamente ou em trio. Quando em dupla, podem ser interpretados como um casal, sendo o macho localizado a direita, é a fêmea a esquerda.

Reinado de Longa Duração

Desde as antigas civilizações urbanas da Mesopotâmia, eles já estavam presentes no repertório simbólico de suas das populações e muitas vezes, são interpretados como simbologia protetora de reinos e palácios, templos e outros recintos sagrados. Se materializavam em esculturas e relevos, se integrando a grandes construções, em cujas entradas eram colocados para afastar a visita de espíritos malignos. Um dos mais belos exemplos são os exemplares que decoram a belíssima porta de Ishtar, da Babilônia, cuja fachada se encontra no Museu de Berlim. É sem dúvida, uma das obras mais elaboradas daquele período, que sobreviveu a ação do tempo e dos homens, relevos realizados em cerâmica vitrificadas (faiança) que ainda conservam grande parte de suas formas e coloridos, com muitos detalhes.

Leões da Joaquim Nabuco

Eles não são muitos, em Manaus, mas com certeza é na avenida Joaquim Nabuco, que se concentra em maior número, no trecho entre a Sete de Setembro e a Leonardo Malcher. São quinze exemplares, ainda que um ou outro possam ter escapado a minha investigação e contagem. Deste número, somente cinco se apresentam de corpo inteiro, os demais, apresentam apenas cabeças. Estas, mesmo que com expressões mais elaboradas, se perdem entre outros ornamentos e as vezes passam despercebidas aos transeuntes menos atentos.

Sustentadores do frontão

Seguindo no sentido do fluxo do trânsito da Joaquim Nabuco, podemos ver o primeiro par de cabeças de leões, no quarteirão entre a Sete de Setembro e a Lauro Cavalcanti, ao lado direito, em uma construção que hora se encontra pintada em lilás. Estão inseridos no cachorro, elemento decorativo que sustenta a arquitrave que sustenta o frontão curvo e profusamente decorado. Os leões com as testas franzidas, parecem rugir furiosos, talvez pela tarefa de manter aberta a bocas, servindo de cabide para um arranjo constituído por um aro que prende entre as presas afiadas, do qual pende um archote decorado com flores. Contrasta a fúria da fera à delicadeza das flores.

Policromado Guardião da Casa Bolo de Noiva

No quarteirão entre a Lauro Cavalcanti e a Huascar de Figueiredo, logo depois do edifício do Nóvoa, na entrada da vila que fica à esquerda para quem segue o fluxo, poderá encontrar um leão solitário que guardar a casa do Bolo Confeitado, aquela construção com uma fachada quase toda coberta com pequenas pedras, com muitas curvas e detalhes orgânicos, que parece ter saído de um conto infantil. O seu guardião solitário, na verdade está na pilastra cor de rosa, do portão da casa vizinha. É policromado, ainda que seu revestimento pictórico se encontre em grande parte descascado, deixando ver parte do concreto que se esconde por baixo. Uma de suas patas segura um escudo ou estandarte. Talvez uma referência a Marcos, um dos Evangelistas.

Brancos são os Leões do Barão

No quarteirão entre a Huascar de Figueiredo e a Ipixuna, do lado direito, bem de frente para a 24 de Maio, um par de leões, pintado em branco pode ser visto no alto de seus pedestais que sustentam o portão de entrada do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Eretos e impassíveis, com suas bocas entreabertas e sem maiores expressões, encontram-se apoiados sobre suas patas dianteiras e guardam a entrada da construção, aparentemente indiferentes a todas as gerações que por ali viram passar

As Oito cabeças da Beneficente Portuguesa

O quarteirão entre a 24 de maio e a Dez de julho, a esquerda é totalmente ocupado pela Beneficente Portuguesa, com sua fachada imponente, mas é nas duas colunas que sustentam as luminárias na entrada da edificação que podemos localizar oito cabeças de leões. Cada uma das colunas se encontra em uma das laterais da escadaria principal e cada uma delas ostenta quatro cabeças de leões, douradas. Cada uma das cabeças se encontra com a boca entreaberta, de onde pende uma argola e deixa ver suas presas afiadas.

Leões da Vila Nair

No quarteirão entre a rua Ramos Ferreira e a rua Leonardo Malcher, ao lado esquerdo, destaca-se um par de leões, de corpo inteiro, pintados em dourado fosforescente. Cada um dos animais, sustenta um globo sobre uma das patas, posados sobre os pedestais nas laterais do portão de entrada da Villa Nair, um dos imóveis que integra o conjunto de edificações, que se encontra pintado em branco, atualmente ocupado pela Samel.

Ruge, a Carranca da Barca

A maior parte dos leões de Manaus se concentra na Joaquim Nabuco, mas é possível localizar alguns outros exemplares espalhados pelo Centro Histórico da Cidade. Começamos com um dos mais significativos, que muitas vezes segue com os registros fotográficos e com as lembranças da cidade, mesmo que muita gente não se dê conta de sua presença. Está lá na praça de São Sebastião, no centro dela, exatamente no monumento da Abertura dos Portos, é a carranca de uma das quatro barcas, que se encontram na base do monumento. Cada uma delas traz consigo, características do continente que representa. Por alguma razão, o italiano Quatrini deixou de fora a Oceania. Nosso leão vem na proa, como uma carranca da barca que representa a Ásia.

Ainda que somente uma cabeça, é como uma Vitória grega, rugindo e avançando sobre os sete mares. Suspeito que esteja voltada para o Norte, na direção da igreja de São Sebastião, mas parece ignorar completamente o teatro Amazonas, que fica ao seu lado esquerdo e já estava lá, quando ele foi trazido da Itália e instalado na praça, em 1901. No mesmo ano, em que toda extensão da praça foi revestida com pedras portuguesas. Um desenho de ondulações sequenciadas, em preto e branco, que surpreende turistas, ao saber que já estavam aqui, vinte anos do calçamento de Copacabana.

Nada disso é capaz de lhe roubam a atenção. Impassível, a bela cabeça, se destaca com seus traços bem marcados por um desenho bastante esquematizado, que define suas expressões a partir do uso de incisões de linhas profundas que acentuam a expressão marcante de ferocidade. A boca aberta, deixa ver quatro presas afiadas e parece rugir ameaçadoramente, para aqueles que dela se aproximam.

Contudo, mostrando que não é apenas uma fera maniqueísta, o leão carrega um gracioso putti, sobre a cabeça. O menino, despido, parece se divertir com um grande manto que tremular ao vento, graças a habilidade de um finado escultor. A pequena criança se vira para a direita e com as duas mãos, parece proteger do vento, um vaso, talvez contendo fogo ou serpentes. Será ele o Prometeu, carregado com os conhecimentos que herdamos do Oriente?

Abaixo da grande juba do leão, na altura de seu peito, avança a quilha que decora a proa da bela embarcação, sobre ela, desce algumas com inscrições cuneiformes. Breves referências de eras ancestrais de um Oriente Próximo, e mesmo sem bilhetes ou passaporte nos remete a uma viagem para antigas civilizações da Mesopotâmia.

Leões da Sete

São nove cabeças de leão, todas elas colocadas bem no alto, oito delas cachorros do Palace Hotel e uma outra, solitária e tristonha no frontão da Casa Listrada, que fica ao lado do Paço, antiga sede da Prefeitura Municipal, que desde a década de 1880, passou a funcionar como o Palácio dos Presidentes das Províncias, se mantendo como sede do governo do Estado até 1917, quando o governador Pedro Barcelar adquiriu o palacete Shoz para abrigar a sede do governo do estado.

As cabeças do Palace Hotel, se encontram incrustadas em nos cachorros do terceiro piso, quatro voltadas para a rua Sete de Setembro e quatro, voltadas para a rua da Instalação. Todas, muito semelhantes aquelas duas que se encontram próximas ao Canto do Quintela, provavelmente procedentes da mesma matriz.  Datam provavelmente da primeira década do século XX, quando foi instalada a platibanda da edificação, que já apareceu na iconografia local, desde o final da década de 1880, juntamente com a 22 Paulista, que também não apresentava platibanda. O acréscimo deve ter ocorrido pelas exigências do Código de Posturas da República, que passava a fazer várias exigências na formatação dos imóveis, incluindo altura e o uso de porão alto, bandeiras nas portas e platibandas nas construções.

Dupla da Saldanha

Tenho a vaga impressão que na sede do nacional, ali na rua Saldanha Marinho, acho que o lugar atualmente ocupado pelo SENAC, ou seria mais embaixo? Havia leões na entrada da sede do glorioso Nacional futebol Clube. Será fantasia, ou eles ficavam mesmo na lateral da entrada. Já não tenho certeza do final dos sessenta. Hoje, os únicos exemplares do felino estão no número 633, quase em frente ao Senac, atualmente funciona o Conselho Regional de Química, e no portão de entrada, uma dupla de leões, de corpo inteiro, se ergue sobre as patas dianteiras e cada um deles, apoia uma das patas sobre um globo. A base que os sustenta é um pouco maior que o suporte oferecido pelas pilastras que sustentam o portão, sugerindo que foram trazidos de outra construção. São revestidos com uma película de porcelana, num amarelo, quase ocre, ainda que apresentem algumas falhas em seu revestimento, parecem bem conservados. Há algum tempo já tiveram as jubas tingidas em tom terra.  Recentemente, sofreram uma intervenção restauradora, que lhes devolveu parte das características originais, ao retirarem a pintura indevida de suas jubas e a restauração de uma das patas do leão que se encontra na direita.

Leões Tristonhos entre um Marechal e um Marques

Quatro belas cabeças de leões tristonhos, talvez pela sugestão das sobrancelhas esquematizadas na diagonal, se misturam aos arranjos florais e decoram a fachada do edifício verde água, que se encontra bastante desbotado, talvez fora de uso, na esquina da rua Marechal Deodoro com a rua Marques de Santa Cruz.

São três cabeças na Marechal, duas sobre as janelas do segundo pavimento e uma outra, entre as duas janelas do terceiro pavimento. Os leões olham tristemente para o grande edifício moderno erguido bem em frente, ainda nos anos setenta. Talvez sejam um olhar de reprovação sobre a grande construção que por algumas décadas abrigou a sede da Receita Federal e lhes tirou a vista da praça. O arranha céu todo envidraçado e de construção tão mais recente já se encontra interditado, há alguns anos, por não oferecer condições de segurança para atender a função ao qual se destinava.

Para o lado da Marques de Santa Cruz, somente mais uma cabeça, triste e solitária, ainda assim, olha a paisagem e vem acompanhando as mudanças processadas na beira do rio Negro, quase em frente a construção de origem inglesa, que por décadas abrigou a Alfandega, mas que se encontra fechada há algum tempo.

Quatro cabeças banguelas, pendem na Casa Amarela

Na casa da esquina da Ramos Ferreira com a Ferreira Pena. São quatro pequenas cabeças de leões, duas voltadas para cada uma das ruas. São pequenas cabeças com jubas amarelas, presas ao archote que escorre do cachorro, que fica na fachada do terceiro piso da Casa Amarela.

Na minha infância, o prédio abrigava a Casa da Criança, creio que era um orfanato, e em 1979, abrigava a Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente abrigou também a Secretária municipal de Cultura, creio que sob a direção de Aldísio Filgueiras. Posteriormente foi recuperado e se mantém conservado, ainda que permaneça fechado e sem uso há alguns anos. As cabeças estão lá em cima, quase perdidas olhando para baixo com expressão nada ameaçadora, pois se trata de uma espécie totalmente adestrada pelos homens, se trata de leões banguelas.

Trio Amarelo é a sensação do Beco da Indústria

O Beco da Indústria, no bairro da Aparecida é estreito e torto, quase todo composto por sequências de casinhas baixas, entre elas algumas ainda guardam sua forma original: uma porta central e uma janela de cada lado. Mas o grande destaque fica mesmo no número 127, onde se exibem os três leões amarelados, quase dourados, de corpo inteiro sobre o pedestal no alto das pilastras do portão de um sobrado. Cada um dos dois que ladeiam o portão, apoiam uma das patas sobre um globo, o terceiro, na extrema direita é semelhante aos leões do Barão do Rio Branco, com as duas patas dianteiras apoiadas no chão.

Quatro leões alados e nômades. Transitam pela cidade desde o início do século XX. Estiveram em frente ao Bar dos Terríveis, na boca da rua Barão de Mauá, depois foram deslocados para a praça Santos Dumont, em frente ao Armazém 10, do porto de Manaus. Nos anos sessenta, se tornaram a maior atração da fonte luminosa, da praça da Bola, no encontro da João Coelho com o Boulevard Amazonas. Era perto de minha casa e foi onde eu estraguei a minha primeira sandália japonesa, como chamávamos a tal havaiana. Por lá, a fonte permaneceu, com a musa, mas sem os leões, até o final dos anos noventa, enquanto eles, estavam guardados no Horto Municipal. De onde saíram já neste século, e foram instalados na Bola do Eldorado. Por fim foi transferido para o Parque Jéferson Perez, na primeira década do XXI, onde permanecem, por enquanto, tendo a sua frente, o mesmo bebedouro de ferro que ficava em frente à capela do Cemitério São João Batista.

Nesta caçada consegui localizar vinte e nove leões espalhados pelo Centro Antigo da Cidade, mas acredito que haja muitos outros guardados, alguns escondidos, outros esquecidos e muitos ignorados. Mas não vale incluir bibelô gigante que são vendidos pela Dinâmica.

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *