A cidade e seus problemas

Em 24 de novembro de 2016 às 08:00, por Gilson Gil.

compartilhe

As crises econômicas graves produzem efeitos nocivos à vida em comum. Vemos como Porto Alegre está sendo dominada pela criminalidade e como o Rio de Janeiro está sofrendo com os ajustes na máquina pública. Porém, são cidades que possuem potencial para crescer, dar a volta por cima. Têm ruas decentes, atrações turísticas, calçadas construídas e uma vida pujante nos bairros. Infelizmente, será que Manaus possui tal potencial?

A criminalidade avança de forma espantosa. Andar de ônibus virou uma aventura nada salutar. Ficar nas paradas é uma demonstração de coragem. Quando motociclistas passam pelas ruas ou emparelham com os carros, o pânico se instala nos cidadãos. Bares, postos de gasolina, barbearias e lojas de conveniência resistem mais por teimosia, batendo recordes de assaltos nas estatísticas oficiais. A crise gerou isso? E o que dizer das ruas?! Calçadas inexistentes, pessoas tendo de andar pelo meio da rua e buracos em profusão. E a mobilidade? Os engarrafamentos viraram rotina. Mototaxistas, alternativos, ônibus normais e de rota, táxis, carros, triciclos e demais modais se confundem pelas mal conservadas ruas. As faixas coloridas não mostraram a que vieram, mostrando serem mais paliativos do que soluções. Os tais BRT e monotrilho parecem santos de procissão, vivem de promessas. Isso é a crise?!

Enfim, falo de potencial ao dizer que as cidades precisam ter recursos, humanos e físicos, para se reerguer. É duro olhar e ver que Manaus possui sérios entraves. Certamente que o Polo Industrial é um recurso excelente e que sua arrecadação pode crescer a qualquer momento e o Amazonas voltar a encher os cofres rapidamente. Porém, e as ideias? Até que ponto essa crise está nos ensinando algo?! Os debates sobre o modelo econômico estadual e municipal inexistem. O ponto da discussão não é debater “cortes”, mas “reordenar” a máquina estatal. Rever o papel do Estado, suas atribuições, limites e possibilidades, é a tarefa do momento. As ruas, a mobilidade, a criminalidade, entre outros itens dessa agenda negativa de nossa atualidade, são um horizonte ruim no qual esse debate mais amplo deveria se estabelecer.

Onde estão as opções econômicas? O que estamos fazendo do centro histórico? E o turismo, sempre tão falado, mas pouco realizado? E o que fazer quando a crise amenizar? Voltar a viver somente do Polo Industrial, como sempre se fez? Fingir que os problemas atuais não existiram e que é só construir mais “200” creches, “300” escolas ou “100” postos de saúde e tudo bem?!

Parece que as crises ensinam pouco a quem não quer ouvir. Receio que voltemos, pouco a pouco, a viver apenas do velho Polo Industrial, fingindo que está tudo certo, indo em frente e que nada aconteceu. Construir mais umas centenas de prédios públicos, doar mais umas bolsas, pacotes de leite e criar uma cotas bastarão para jogar os problemas de Manaus para baixo do tapete?! Parece que sim… A gravidade do momento não inspira alternativas criativas. Nem a elite dirigente nem os movimentos populares parecem sugerir algo inovador. O costume de viver da Zona Franca é realmente muito forte. As ruas, o trânsito, os buracos e os crimes talvez, milagrosamente, acabem quando a crise enfraquecer e o Polo voltar a prosperar. Enfim, é o eterno retorno do mesmo.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.