Cidade abandonada

Em 15 de maio de 2017 às 12:00, por Otoni Mesquita.

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A cidade até pode ser a mesma, mas caminhamos em diferentes planos. A minha, aquela por onde transito todos os dias. Ela se encontra quase vazia, depois das sete da noite. Pouquíssimas pessoas no meu caminho, amigos, muito raro. Quase uma cidade abandonada. Não posso afirmar que se encontra completamente esquecida, por causa do movimento de automóveis que não cessa, nesse horário. Ônibus lotados, abafados, comprimindo pessoas aflitas, como se fosse aquela, a última condução para escapar do lugar.

Sigo sozinho e no meu trajeto, não se vê ninguém nas varandas, nem nas portas da casa. Em volta do meu velho cinema Poeira, nada de movimento, nem na rua da minha amiga, a minha Ayrão, que foi tão animada e vibrante, parece completamente esquecida, quase um cenário. Decididamente, seus moradores migraram para outro plano ou outra parte da cidade. Raro, é um pequeno e persistente grupo que se reúne, todos os dias, sob uma mangueira não muito forte, nem bela, em frente no borracheiro da curva, logo depois do alto de Nazaré. Mais embaixo, na pracinha, o silêncio é quase total. Para muitos é inacreditável, mas caminho em outro plano da cidade.

Não foi uma coisa abrupta, como alguns querem sugerir. Há muito vi acontecer, não muito claro, mas sabia que tinha algo de errado. Era um processo de migração contínua, dentro da própria cidade. Às vezes, num ritmo mais evidentes e intenso que em outros momentos, mas em um processo contínuo. Não era apenas espacial a mudança, mas sobretudo, para outro plano das ideias, abraçavam outros valores e deixavam para trás aquela cidade que não mais sorrir. Não posso lhes acusar de traidores. Foram iludidos pelas promessas, assim como os seringueiros. Pobres humanos, sempre a sonhar sonhos impossíveis. Deixaram para trás a cidade dos seus sonhos.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.