Cento e sete anos sem Euclides

Em 24 de junho de 2016 às 14:43, por Amaury Veiga.

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EUCLIDES DA CUNHA, REVELADOR DA REALIDADE BRASILEIRA

 

Há 107 anos, o genial escritor e engenheiro morria, assassinado, na Estação da Piedade, no Rio de Janeiro.

Detentor de estilo próprio e inconfundível – repleto de riqueza de detalhes impressionantes – o mais completo e famoso escritor brasileiro dizia: “não nos destinamos à imprensa”. Foi através dela, contudo, que lançou seus variados artigos, cobrindo vasta parte do conhecimento humano. As bases daquilo que Gilberto Freyre denominou de “Realidade Brasileira”.

Tão importante quanto a realidade nacional, foi a reunião de seus ensaios e artigos nos livros Contrastes e Confrontos e À Margem da História, revelando a Realidade Amazônica, anteriormente apenas pincelada pelos “abnegados pioneers” como ele mesmo definiu, i.e., os estrangeiros que aqui passavam atraídos pela região.

Foi somente com À margem da História, Contrastes e Confrontos e O Inferno Verde de seu amigo Alberto Rangel – livro prefaciado por Euclides – que a “Esfinge” foi, finalmente, decifrada.

Nas páginas dos livros acima citados, tomamos conhecimento da genialidade e sabedoria de Euclides, a discorrer e ensinar sobre os mais variados temas.  O mais brasileiro de todos os escritores brasileiros desdobra-se em cientista político, engenheiro, ecologista, astrônomo e filósofo… sempre à frente do seu tempo!

Veja-se, por exemplo, o admirável “Da Independência à República”.  Ao historiar a formação da Pátria, discorre sobre as dificuldades de manter unido o País: “O Brasil era amplo demais para os seus três milhões de povoadores em 1800 […] Os vários agrupamentos em que se repartia o povoamento rarefeito[…] não tinham uniformidade de sentimentos e ideais que os impelissem a procurar na continuidade da terra a base física de uma Pátria! Destarte, insulados no país vastíssimo em que se perdiam, os nossos patrícios de há cem anos tinham frágeis laços de solidariedade. Distanciava-os o meio” […].

Mais adiante, ao analisar a regência de Diogo Feijó, traz à tona a figura do “cabano” segundo ele um novo tipo da nossa História. “Era o crescente desequilíbrio entre os homens do sertão o os do litoral.O raio civilizador refrangia na costa.Deixava na penumbra os planaltos” […] “restariam, ameaçadores, afeitos às mais diversas tradições, distanciando-se do nosso meio e do nosso tempo, aqueles rudes patrícios perdidos no insulamento das chapadas!”  Até hoje, em pleno Terceiro Milênio, o “raio civilizador” continua refratado, passando a anos-luz de distancia do nosso interior amazônico!

Em “Plano de uma Cruzada”, analisando a problemática das secas, conclama: “Não há mais elevada missão à nossa Engenharia. Somente ela, ao cabo de uma longa tarefa (que irá das cartas topográficas e hipsométricas, aos dados sobre a natureza do solo, às observações meteorológicas sistemáticas e aos conhecimentos relativos à resistência e desenvolvimento da flora), poderá delinear o plano estratégico formidável contra o deserto”!

Em seguida, preconiza com um pioneirismo surpreendente “até mesmo uma provável derivação das águas do S. Francisco, para os tributários superiores do Jaguaribe e do Piauí, levando perpetuamente à natureza torturada do Norte os alentos e a vida maravilhosa do Sul …”!

Como veem, a ideia da transposição do Velho Chico não é recente!

Voltando à nossa Região, diz ele em “Clima Caluniado”, criticando a maneira como foi feito o povoamento do Acre: “Em todas as latitudes foi sempre gravíssima nos seus primórdios, a afinidade eletiva entre a Terra e o Homem. Salvam-se os que melhor balanceiam os fatores do clima e os atributos pessoais. […] “A cada deslize fisiológico ou moral antepõe-se o corretivo da reação física. E chama-se de insalubridade o que é um apuramento, a eliminação generalizada dos incompetentes. Ao cabo verifica-se algumas vezes que não é o clima que é mau; é o homem.”! […] “Neste caso atiremos de lado, de uma vez, um estéril sentimentalismo e reconheçamos naquele clima uma função superior!” […]. “Policiou, saneou, moralizou. Elegeu e elege para a vida os mais dignos.Eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte.E é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.”!

Na “A Transacreana” pugna pela construção das ferrovias na Região, atividade ainda considerada tabu nos dias de hoje!  Ao elogiar os varadouros diz: “O varadouro – legado da atividade histórica dos paulistas compartido hoje pelo amazonense, pelo boliviano e pelo peruano – é a vereda atalhadora que vai por terra de uma vertente fluvial à outra. A princípio tortuoso e breve, apagando-se no afogado da espessura, ele reflete a própria marcha indecisa da sociedade nascente e titubeante, que abandonou o regaço dos rios para caminhar por si.

Segundo Euclides, os varadouros permitiram o quase total conhecimento da Região. “Deste modo, em pouco mais de um mês de travessia, vencendo-se 907 km por águas e 660 por terra, pode-se vir de Tabatinga à Vila Bela, diagonalmente, de um a outro extremo da Amazônia, naquele itinerário de 250 léguas”. […] “Deste modo, a grande estrada de 726 km, unindo os três departamentos, e capaz de prolongar-se de um lado até o Amazonas, pelo Javari, e do outro até ao Madeira, pelo Abunã, está de todo reconhecida, e na maior parte trilhada”. […] “A intervenção urgentíssima do Governo Federal impõe-se como dever elementaríssimo de aviventar e reunir tantos esforços parcelados. Deve consistir   porém, no estabelecimento de uma via férrea – a única estrada de ferro urgente e indispensável no Território do Acre.

Continuando, Euclides pulveriza os críticos e céticos, ao analisar a colonização inglesa na Índia, que, segundo ele, tem condições de solo aluviais e climáticas idênticas à nossa Região. “Na Índia, como entre nós, não faltaram profissionais apavorados ante as dificuldades naturais- esquecidos que a engenharia existe precisamente para vencê-las!

Em entrevista ao Jornal do Commercio, em Manaus, 29 de Outubro de 1905, comenta o esforço sobre-humano que a Comissão Brasileira fez para o reconhecimento do Alto Purus. […] “Íamos em canoas, e se considerardes que os seus tripulantes empunhavam pela primeira vez os varejões e os remos, se atenderdes que o rio, esgotado, impunha os máximos resguardos no se evitarem choques em paus e encalhes nos baixios, e se somardes todas as paradas obrigatórias nas estações em que avaliávamos as distâncias com a luneta Lugeal- ajuizareis de todo o nosso desapontamento e quase desânimo resultantes de um confronto da nossa marcha ronceira de três a quatro milhas diárias e o desmedido da distância a percorrer.” […] “E fomos à meia ração. […] e os víveres que levávamos, no máximo para 25 dias, reduziam-se à carne-seca, farinha que se acabou ao fim de 12 dias, um pouco de açúcar que, tenazmente poupado, durou 3, meio garrafão de arroz, uns restos de bolacha esfarinhada, que uma chuva repentina diluiu, e algumas latas de leite condensado!” “Propositadamente, apresento esta lista. É eloquente!

Ao chegar no ponto culminante do varadouro, para observar o aneróide e verificar a altitude, observa, maravilhado: “O sol descia para os lados do Urubamba […]  Os nossos olhos deslumbrados abrangiam, de um lance, três dos maiores vales da Terra; e naquela dilatação maravilhosa dos horizontes, banhados no fulgor de uma tarde incomparável, o que eu principalmente distingui, irrompendo de quadrantes dilatados e trançando-os inteiramente- ao Sul, ao Norte e a Leste- foi a imagem arrebatadora da nossa Pátria que nunca imaginei tão grande!

Assim foi e assim viveu o nosso genial engenheiro e escritor, trilhando o nosso País Continente nos dizeres de Viriato Correia: “Euclides nunca “se assentou”. A sua vida tem sido uma vida errante, ora aqui, ora ali, numa comissão, noutra, as malas sempre prontas, os livros dentro das malas. Ora em Minas, em São Paulo, no Amazonas, no Acre, em Canudos; de lápis na mão, enchendo de algarismos os livrinhos de notas, como engenheiro.

*Amaury Veiga formou-se em Engenharia em 1971, na Turma Euclides da Cunha da Universidade do Amazonas.

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sobre o autor

Articulista-Amaury-VeigaÉ o que quis ser desde criança: engenheiro civil. Especializou-se em estrutura, numa carreira que já completou quarenta e quatro anos. Tem mais de quatro mil projetos de sucesso. Só não contava que, ao longo de sua trajetória de vida, também se dedicasse ao tênis, jazz, cinema, comida japonesa e agora escrever artigos.