Carlinhos, o menino que me fez ver estrelas

Em 11 de julho de 2017 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Tínhamos muitas coisas em comum: a mesma compleição física, a paixão pela prática do futebol, ambos canhotos, leoninos, do mês de julho, ele nascido em 30 eu 31, ele de 1954 eu de 1956, éramos vizinhos, estudávamos no mesmo colégio, tínhamos tudo pra sermos amigos, éramos rivais. Rivalidade de menino, no futebol, no jogo de bolinhas de gude, na liderança dos moleques da nossa turma, ele Flamengo, eu Fluminense.

Tinha eu prováveis treze anos e ele quinze quando nos estapeamos, o motivo foi um estrompa (termo usado para caracterizar uma jogada mais viril no futebol) ou qualquer outro motivo tolo protagonizado pelo meu irmão Luiz Ricardo, o Cadinho. Foi no campo do Estádio General Osório, hoje parte do complexo esportivo do Colégio Militar. Ali usávamos apenas a metade do campo oficial, quer pelas dimensões; quer pelo contingente insuficiente de boleiros; quer porque se compartilhava a outra metade com a meninada da Rua Luiz Antony, Bairro do Céu, Bairro de Aparecida e Bandeira Branca, bairros encravados no centro de Manaus (o Centro continua sendo chamado de Centro, mas com a divisão geográfica da cidade por zonas, o Centro e esses bairros integram a Zona sul).

Como futebolista ele era competitivo, talentoso, jogava um bolão. Tinha um temperamento forte e detestava perder, geralmente jogávamos em lados opostos, naquele dia não foi diferente. Ele começou a xingar o meu irmão, quase três anos mais novo que eu, e eu resolvi intervir verbalmente em seu favor. Brigamos sem que houvesse vencedor ou vencido; o jogo acabou, parecia que a questão também, mas ele entendeu que ainda faltava um round. Carlinhos Cordeiro me esperou na esquina do Bololô, entre a Rua José Clemente e a Rua Lobo D’Almada, próxima às nossas casas. A briga foi breve, na primeira investida ele me deu um murro certeiro que me fez ver estrelas, fui pra casa a chorar, envergonhado, humilhado, a jurar pra mim mesmo que nunca mais apanharia na rua. Nada adiantou, não tinha nem tenho pendor para o pugilato, sempre fecho os olhos nos momentos em que estes precisavam estar bem abertos, assim, na minha infância, apesar de poucas, apanhei na rua outras vezes.

Ficamos de mal, mas frequentávamos as mesmas rodas de conversas, não dirigíamos a palavra um para o outro, ainda assim riamos do que o outro dizia. Chegamos até a namorar a mesma menina sem que isso motivasse qualquer arenga entre nós dois. Namoramos aquela que desvirginou, com beijos, a boca de toda uma geração de vizinhos, a saber: Carlinhos Cordeiro, Frederico Biváqua, Ariosto Braga, Zezinho Fiúza, eu… Para nós, experimentos da beijoqueira e marinheiros de primeira viagem, o beijo da Eliana Baixinha era simplesmente demais!

Gostávamo-nos, mas escondíamos nossa empatia, o orgulho de leonino falava mais alto. Certa vez, juntos, na quadra do Colégio Dom Bosco, ensaiamos uma briga contra o Madeirinha, um menino que tinha a nossa idade, mas o dobro do nosso tamanho. Ensaio porque apesar dos punhos cerrados, o tamanho do Madeirinha assustava e não nos encorajava a investir contra ele, a briga não rolou, todavia rolou a prova inconteste de que tínhamos uma cumplicidade velada.

Num dia do ano de 1976, vítima de um desastre automobilístico, Carlinhos Cordeiro deixou essa vida prematuramente, foi um dos maiores impactos que sofri em minha vida, era como se ele tivesse me traído, Carlinhos partiu sem aviso prévio, sem que tivéssemos voltado a nos falar, sem que eu pudesse dizer o bem querer que nutria por ele, que não havia qualquer ressentimento, que aquele murro nada significara que havia sido rixa boba de menino turrão, nada mais. Chorei copiosamente em seu enterro, senti um vazio inexplicável, Lili, minha namora de então, testemunhou o meu pesar.

Até hoje o Carlinhos Cordeiro continua presente na minha vida, é que, como dito no primeiro parágrafo, tínhamos muitas coisas em comum, tanto, que há pelo menos três contemporâneos nossos, desses que encontramos esporadicamente, que, confundidos, me chamam de Carlinhos. Eu não retifico, ao contrário, abro o sorriso como se ele eu fosse e os cumprimento com alegria, ele faria o mesmo por mim.

Tenho saudades do Carlinhos, o menino que me fez ver estrelas; que cedo virou estrela; o amigo que eu só não tive como amigo porque a teimosia recíproca decretou que o patamar da nossa relação, nesse plano, não alcançaria esse status. Que pena!

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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