Cacilda é melhor que Mondrongo

Em 14 de outubro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Em outubro de 1968, por ocasião do III Festival da Canção Internacional da Rede Globo, o paraibano Geraldo Vandré concorreu com a música “Pra não dizer que não falei de flores”, música que virou hino da resistência civil naquele período militar.

Em 13 de dezembro foi editado o AI 5, Ato Institucional que suspendia várias garantias constitucionais. Em fevereiro do ano seguinte Vandré auto exilou-se no Chile – antes de ir pra França – e lá gravou um compacto simples. O lado A continha a música Caminando, uma tradução não literal para a mencionada música. Não tive o privilégio de tê-lo no acervo musical de casa, uma pena, mas o meu pai comprou o compacto simples gravado no Brasil. O lado A continha a gravação ao vivo e o lado B a gravação em estúdio. A proibição pelo AI 5 da sua radiodifusão e venda nas lojas especializadas tornou aquele disco objeto de desejo da maioria esmagadora dos brasileiros, uma relíquia para quem o tinha.   Tê-lo em casa escondido me causava uma emoção indescritível, provocava arrepios e batimentos cardíacos acelerados; contar baixinho pros amigos então, dava um orgulho danado – não experimentei a sensação deles, mas suponho que ficavam a lamber os beiços. Embalado por essa e por outras tantas músicas de protesto – especialmente as de Chico Buarque – e pela literatura, fui forjando o que hoje sou.

Entre os anos de 1973 e 1975 vivi um período de efervescência cultural, o grupo de amigos da Juventude Franciscana – JUFRA foi um marco importantíssimo na minha vida. Discutíamos política, cantávamos as músicas proibidas e permitidas; frequentávamos, tocávamos e cantávamos as músicas das missas de sábado à tarde na Igreja de São Sebastião; promovíamos encontros e retiros; frequentávamos o banho dos padres na antiga estrada da Paraíba V8; tínhamos reuniões noturnas na antiga sede da Divina Providencia, hoje Colégio Objetivo, na esquina das Ruas Ramos Ferreira com Tapajós. O Grupo de jovens era misto, o que era um estimulo a mais: Carlinhos, Guilherme e Cibele Johnson, Norton Pinho, Ariosto Braga, Hamilton Henrique, Manoel Ribeiro, Bina, Demolidor, Jorge Gaspar, Duda, Humberto Breval, Joana D’Arc; Vania, Inês e Agnelo Surimã; José Rocha (Rochinha), Eliseanne Pina (Lili), Maria José, Marly, Bia, Geraldo e outros aos quais peço perdão pelo lapso de memória. Era uma delícia aquele exercício de duas horas tendo como facilitador o Frei Fulgêncio. Guardo com carinho aquela época preciosa da minha vida.

Foi numa dessas apresentações teatro/musicais na Divina Providencia – um Teatro para mais ou menos 100 pessoas – que eu ganhei um apelido inesperado e pelo qual, acredite, meu irmão me chama até hoje.

Estava eu no palco com alguns dos meus pares, provavelmente declamando um resumo repassado pelo meu pai, do discurso de 1913 do grande pensador uruguaio Enrique Rodó, que sonhava o que sonhavam San Martin e Simon Bolivar. O fragmento servia de introdução para que cantássemos a música Terral do cearense Ednardo. Eis o pensamento na sua integra: “Yo creí siempre que en la América nuestra no era posible hablar de muchas patrias, sino de una patria grande y única; yo creí siempre que si es alta la idea de la patria, expresión de todo lo que hay de más hondo en la sensibilidad del hombre: amor de la tierra, poesía del recuerdo, arrobamiento de la gloria, esperanzas de inmortalidad, en América, más que en ninguna parte, cabe, sin desnaturalizar esa idea, magnificarla, dilatarla; depurarla de lo que tiene de estrecho y negativo, y sublimarla por la propia virtud de lo que encierra de afirmación y de fecundo: cabe levantar, sobre la patria nacional, la patria americana, y acelerar el día en que los niños de hoy, los hombres del futuro, preguntados cuál es el nombre de su patria, no contesten con el nombre de Brasil, ni con el nombre de Chile, ni con el nombre de México, porque contesten con el nombre de AMÉRICA. Toda política internacional americana que no se oriente en dirección a ese porvenir y no se ajuste a la preparación de esa armonía, será una política vana o descarriada.”

Pois bem, nesse exato momento dois dos mais espirituosos e gozadores rapazes da rua em que eu morava, Bosco Spener e Robertinho Caminha, passam pela Rua Tapajós e, ao verem as portas do Teatro escancaradas resolvem bisbilhotar – pra minha infelicidade naquela época o único teatro com o conforto do ar refrigerado era o Teatro Amazonas.

Ao vê-los a cochichar fiquei a imaginar como seria a minha recepção quando chegasse a minha rua, de que tamanho o texto de trinta segundos não estaria. Fui recebido por um coro ensurdecedor a repetir: Cacilda Becker! Cacilda Becker! Cacilda Becker! Sim, a atriz brasileira, o mito do teatro nacional agora tinha um sósia masculino na capital da Amazônia Ocidental, que tal? Até parecia que eu tinha encenado A Dama das Camélias e não declamado um resumo do discurso de Rodó.

Esse apelido rende até hoje, o Robertinho Caminha (Barriga) e o meu irmão, Cadinho, não abrem mão, só me chamam de Cacilda.

Cadinho, quem sabe supondo que me agrade mais, às vezes me chama de Becker. Mas o que ele gosta mesmo é de berrar quando me avista ao longe, sem se importar com quem venha a testemunhar: CAACCIIIILLLLLDDAAA!!!

Eu atendo, Cacilda é melhor que Mondrongo.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.