Bom futuro

Em 20 de Fevereiro de 2017 às 08:10, por José Carlos Sardinha.

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Por seis meses inesquecíveis vivi meu paraíso na terra. Acordava às 9 da manhã, tomava um farto desjejum e estudava até meio dia, quando Pedro voltava para o almoço. Depois estudava até quatro da tarde. Aí pegava a pequena bicicleta de meu sobrinho Marcelo (então com 5 anos), colocava-o na garupa e íamos nadar no igarapé. Às 5 terminava o expediente na mina e começava o futebol com a peãozada, que se estendia até às sete horas, banho no igarapé de novo, cervejinha e jantar. Aí ia estudar matemática, física e química com o Pedro, que sempre foi ótimo nestas disciplinas. Quando ele ia se deitar, às onze, ficava estudando só, na sala, ouvindo a zoo-sinfonia da mata, tentando adivinhar como seriam fisicamente aqueles “músicos”, ou então colocava na vitrolinha um dos poucos ”long plays” disponíveis e ouvia baixinho. Tinha Elis Regina, Paul Mauriat, Swingle Singers, Johnny Mathis, Nat King Cole, Ray Conniff e um chatíssimo Roberto Carlos, que hoje eu até encaro pelas recordações que me traz.

Havia uma vizinha, esposa de um gerente holandês, que tinha estudado 2 anos de Biologia em Paramaribo e que com seu português arrevesado, me ensinou noções desta disciplina. Por ela me encantei com as ervilhas de Mendel e as organelas citoplasmáticas. No natal de 1975 nasceu minha sobrinha Ana Paula, irmã do Marcelo. Fomos todos para Porto Velho. Parto hospitalar sem stress e, pra comemorar, o Pedro comprou um monte de garrafas de bebidas. Vinho, espumante, cachaça e licores. Começamos a beber e só paramos na primeira semana de janeiro, quando viajei para prestar o vestibular. Quando eu ensaiava de pegar nos livros ele me dizia que era besteira, o que tivesse que aprender até ali já tinha aprendido, tínhamos mais é que comemorar. Além da Ana Paula, ele tinha ganho uma promoção, iria gerenciar uma nova frente de trabalho, na mesma empresa. Uma área nova que ele mesmo tinha descoberto e batizado de BOM FUTURO, era o nome da nova frente. Quando lhe disse que tinha, no máximo, estudado 60% do conteúdo programático do vestibular, que muitos concorrentes, certamente, estavam muito à frente de mim, respondia:

– Que nada! Se não passar o Bom Futuro está aí mesmo. Você vai carregar saco de cassiterita nas costas, comigo, no Bom Futuro. Depois de vários anos, enfim, voltei a acreditar que, de fato, eu poderia ter um bom futuro. O futuro me oferecia, sim, opções.

Surpreendentemente fui aprovado no vestibular de Medicina, melhor ainda, minha performance foi uma das quatro melhores entre os oitenta aprovados. Já estava prontinho para o Bom futuro quando chegou a notícia, quase pirei, e o Pedro junto. É que o filho de um gerente da empresa, que o pai bancava em um cursinho em Cuiabá fez a mesma prova e não passou. O pai vivia esnobando o Pedro com xavecos do tipo ‘se não fizer um bom cursinho não passa” e ele aguentava calado. Recaímos na bebedeira até a viagem definitiva, cerca de um mês depois. Nos intervalos de lucidez – que não eram muitos- eu o questionava sobre as dificuldades materiais de alojamento, livros, transporte e alimentação em Manaus. Tinha a clareza de que não seria barato, que ele, agora, com mais uma filha não estava rasgando dinheiro. “A gente dá um jeito!” dizia ele, sem me desencucar. Instruiu-me: ”Chegando em Manaus, depois de uma semana no máximo, mande-me um cálculo, sem necessidade de especificar nada, de todas as despesas que terás. Inicialmente vai morar na casa de um casal de parentes da esposa do Joel. Não se esqueça de incluir uma cervejinha e uma trepadinha, de vez em quando”.

Cumprindo a orientação fiz uma estimativa que, mesmo calculando uma única refeição – sopa – por dia num posto de gasolina próximo à faculdade, sem cervejinha e sem trepadinha, extrapolaria um terço de toda a sua renda mensal. Não era justo. Não poderia ficar. Telegrafei-lhe dizendo de minha conclusão e do pronto retorno. Bom Futuro aí vou eu! Sua resposta, pelo mesmo meio, em menos de 24 horas, ficou gravada no meu cérebro para sempre. Não sairá daí nunca, nem quando o velho alemão vier me atropelar:

      “ESTUDAR PROBLEMASEUPTDINHEIRO PROBLEMA MEUPTFIQUEPTSAUDAÇÕES”

                                 PEDRO

Fiquei.

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

comentários

Uma resposta para “Bom futuro”

  1. Juliana Sardinha Prado disse:

    Simplesmente me apaixono mais e mais por nossa família !!!Tio Pedro… Saudades

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