As Misses Da Minha Rua e a Loja Socinco

Em 12 de setembro de 2018 às 10:00, por Lúcio Menezes.

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Em 1981 tive o privilégio de ir ao continente europeu pela primeira vez. Foi um deslumbramento, tudo me impactou, a arquitetura, a educação, a culinária, o transito – exceção feita às cidades italianas, especialmente Roma -, a Autoban, a preservação dos monumentos históricos, a paisagem, a educação, a mudança de idioma a cada fronteira alcançada… Cada país com a sua peculiaridade, mas eu me belisquei mesmo foi nas ruas de Roterdã, a primeira impressão era de que se havia aberto as portas de uma fábrica de bonecas vivas, lindas, todas elas, em sua esmagadora maioria brancas, louras de olhos claros, traços delicados e dentes alvos como a polpa do ingá. Entretanto, a beleza das mulheres dos Países Baixos, assim como dos países nórdicos, quiçá pela eugenia – há quem não tolere o termo – ou a escassa miscigenação, acaba por se avizinhar da padronização, aí ficam todas muito parecidas, como se fossem filhas do mesmo pai e da mesma mãe, é por isso que não há, nesse mundo de meu Deus, beleza comparável à beleza da mulher brasileira.

O entrecruzamento de índios, negros africanos e europeus, especialmente portugueses – a estrutura genética do povo português é resultado do caldeamento secular e variado de vários povos, com destaque para os lusitanos, romanos, árabes, judeus e negros – resultou no que somos: mestiços. Dessa mistura de raças originaram-se três tipos de mestiço: o caboclo (branco e índio), o mulato (negro e branco) e o cafuzo (índio e negro). A identidade nacional é singular.

É fantástica a percepção das diferentes e predominantes belezas femininas espalhadas pelos quatro cantos do País, todas têm o seu não sei o que, que mistura molejo, malícia, gingado, jeito de olhar, algo que extrapola as raias do resistível. A sulista guarda pouca semelhança com a nordestina, que é diferente da mulher do Centro Oeste, que não acomoda conformidade com a do Sudeste, que nada se parece com a nortista, todas lindas e desejáveis, benza Deus!

Mais que beleza particular a amazonense tem prendas ocultas, sei lá eu se não é o cauxi entranhado na pele quando, ainda criança, se banha nas águas enriquecidas de sedimentos rochosos dos rios amazônicos! Manaus, graças a Deus, abriga deusas e semideusas pra barezinho nenhum se queixar e pra turista aqui decidir ficar. A minha Rua tinha um contingente impressionante de Afrodites e Venus, uma safra inigualável, muito melhor que Roterdã e Amsterdã juntas. Acredite, a Rua deu duas misses Amazonas.

Da Avenida Epaminondas as fêmeas que faziam a gente usar espelhinhos nos rostos dos sapatos eram Verinha Mestrinho e Sônia Oliveira (irmã do Álvaro capiroto). Na Rua José Clemente alimentavam as nossas fantasias eróticas as beldades: Regina Rocha (irmã do saudoso Papinha), as irmãs Suzete e Ana Pires, as também irmãs Sandra e Nádia Breval, Ana Virgínia Lemos de Aguiar e a carioca Valinda (irmã do Mariozinho e do Telê), meus vizinhos de porta. Na Lôbo d’Almada as que arrancavam “ai se eu te pego!” Eram Kariné Marinho, Suely Veras, Lilian de Paula, Vera Cordeiro, as irmãs Omarina e Lúcia Vianez, e uma carioca que arrebatou o coração do Belmirinho Vianez, Rosana Stafford.

A Rua se quisesse elegeria uma Miss Amazonas por ano; duas deixaram a vergonha de lado, se candidataram e ganharam: Suzete Pires e Suely Veras. Não sei a colocação da Suzete no concurso de Miss Brasil, mas a Suely ficou entre as oito finalistas, era a Rua mostrando para o Brasil o que o Amazonas tem.

Um dos prêmios da ganhadora do concurso de Miss Amazonas era a garantia de um emprego no extinto Banco do Estado do Amazonas – BEA. Reza a lenda urbana que o querido Enéas Cabral, o Seo Nesoca, um cavalheiro na concepção macro da palavra, certa vez foi ao BEA cadastrar a sua empresa e se credenciar aos serviços ofertados por aquela instituição creditícia. A atendente era uma ex Miss Amazonas – eu me recuso a crer que era uma das duas da Rua –, o dialoga assim se deu:

– Bom dia minha filha!

– Bom dia senhor! No que eu posso ajudá-lo?

– Eu gostaria de fazer o cadastro da minha firma.

Com um formulário e uma caneta na mão a Miss continuou:

– E qual é o nome da sua firma?

– SOCINCO, querida, fica ali na Rua Barroso nº 120. Atuamos no ramo de máquinas pesadas, tratores… Representamos a KASE, MALVES, VALMET, também damos assistência técnica.

– Legal!

A Miss pegou a caneta e lascou no formulário: SOSSINCO. Seo Nesoca educado como um príncipe a corrigiu:

– Não minha querida, é SOCINCO.

A Miss sorriu, pegou um novo formulário e escreveu SÓ CINCO. Seo Nesoca mais uma vez transbordando compreensão repetiu:

– SOCINCO.

Ela pegou um novo formulário e escreveu: ÇO CINCO.

– Meu anjo não fique nervosa, isso acontece com qualquer um, vamos lá: SOCINCO.

A Miss escreveu SÓ 5.

Seo Nesoca a essa altura via o seu cavalheirismo ser testado ao extremo e repetiu soletrando:

– S O SO, C i N CIN, C O CO, SOCINCO.

Sem encará-lo e tremula a Miss deu o tiro de misericórdia na tolerância do Monge Nesoca e escreveu um solitário número 5.

Repito: eu me recuso a crer que era uma das duas da Rua. As nossas Misses, além de lindas eram inteligentes e certamente resistiriam a um ditado, ou não.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.