As aventuras de Álvaro Capiroto (Parte 1)

Em 15 de fevereiro de 2018 às 14:00, por Lúcio Menezes.

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Sol inclemente, 40ºC com sensação térmica de 48ºC, umidade relativa do ar batendo 90%, suor escorrendo pelo corpo e a mesmice a mostrar os dentes. Não! Definitivamente isso não combinava com ele. Já havia sido expulso dos colégios N. S. Aparecida, Benjamim Constant e Dom Bosco, do Exército Brasileiro seria depois.

O cara era péssimo, acho que sofria de uma espécie de compulsão simbiótica pela transgressão. Também, o que esperar de um sujeito que ao sofrer um golpe profundo no pé esterilizou o corte com o próprio xixi e depois estancou o sangue com terra (como se terra fosse borra de café)? Pois é, esse cara não é lenda nem ficção, eu me refiro ao infernal, ao endiabrado Álvaro Oliveira, o Álvaro Capiroto. Diria o meu amigo Francisco Cruz, o Chicão: “ele não tem currículo, tem prontuário”.

Diz o Google que Álvaro significa muito atento, sempre pronto a se aventurar, cheio de energia, que possui uma personalidade ativa, é decidido e não vê graça numa vida sem desafios, por ser um líder por natureza atrai as outras pessoas com seu entusiasmo. É ou não é muita coincidência?

Se tu moraste no Centro de Manaus nos idos anos 1970 certamente comeste o sanduba de leitão do Bar do portuga da esquina da Rua Epaminondas com a Simão Bolívar, vizinho ao Atlético Rio Negro Clube. Se tu pediste abacatada para acompanhar, é possível que a tenhas bebido “enriquecida” com a terra grudada no paralelepípedo que o Capiroto, aproveitando-se do descuido do proprietário, despejava naqueles cilindros de alumínio dos refrigeradores dos bares de então.

Não há mais refrescos como aqueles, o liquido era levado aos copos por um púcaro de braço (ou alça) comprido, também de alumínio, não sem antes receber generosas mexidas pra misturar o açúcar decantado, vinha acompanhado de gelo em escamas, uma delícia! Com terra então…

Sua brincadeira predileta era enfiar uma isca de carne no anzol e jogá-la no asfalto amarrada a uma linha. Os urubus fisgados sofriam uma canseira na tentativa de voar com a isca, depois, exaustos, ele preparava o gran finalle: arrastava os urubus absolutamente entregues até o meio da rua para que fossem espocados pelos pneus dos ônibus de linha. Gostou?

Certa vez percebeu que não havia ninguém a prantear um defunto no necrotério da Santa Casa, o indigente foi encontrado mais tarde amarrado a um poste, sabem-se lá quantos transeuntes quase morreram de susto. Que tal?

Foi ajudante de missa, ajudava a comer as hóstias, a beber o vinho e a recolher o dinheiro do ofertório. As notas graúdas ele embolsava, as miúdas deixava pra Santa Igreja. Melhorou? O que foi dito até aqui é só a ponta do tridente, ele merece um livro.

A saideira pede mais detalhes. Eu disse que o sol estava inclemente, a ponto de fritar neurônios, os dele já estavam quase fritos quando uns amigos sugeriram:

– Ô Capirotp, vamo dar uma volta lá pelo Careiro?

– Por mim a gente já tava lá, o que é que tá faltando?

Ora, aquele convite era tudo: singrar o rio, receber aquela brisa no rosto, comer peixe frito com farinha e depois rebater com tapioca, tucumã, mari mari, pitomba, ingá… Corta! Não, não é nada disso, o que ele queria e o que ocorreu foi outra coisa.

E lá foram eles no barco recreio a conversar rir, receber a brisa no rosto, tudo devidamente dentro da normalidade. De repente o Álvaro sumiu, depois voltou com o sorriso do Capiroto a sugerir que todos ficassem na popa do barco porque “lá era pai d’égua”.

Os amigos não sabiam que ele já tinha se passado por cobrador do barco e recolhido a tarifa correspondente a passagem. Álvaro estava baludo e sabia que mais cedo ou mais tarde a bomba estouraria.

Não deu outra, confusão instalada, tripulação e passageiros a se acusar mais pareciam amotinados, até que resolveram ir à caça do falso “cobrador”, um rapaz assim, assado…

Passava do encontro das águas e chegara a hora de pular no rio Solimões com o barco em movimento, só o Capiroto tinha conhecimento do capitulo. Ele deu a voz de comando: Vamo pular se não vamo levar porrada! Pularam, Capiroto era nadador do Atlético Rio Negro Clube, especialista em todas as modalidades e com uma resistência do cão, os demais mal nadavam cachorrinho, foi um sufoco, teve nego que bebeu mais água que camelo depois de oito dias no deserto.

Exaustos alcançaram a margem do Careiro e tome a esculhambar o Capitoro, queriam dar porrada nele, disseram que aquilo era sacanagem, que quase morreram afogados. Refeitos do susto se apropriaram indevidamente de uma canoa e remaram até uma ponta bem distante do local de atracação do barco recreio. Relaxaram, riram, comeram e beberam como nunca. Terminada a farra e depois de alguns arrotos e flatos perguntaram ao dono do boteco:

– Chefe, de quanto em quanto tempo saem os barcos que fazem a travessia?

– De duas em duas horas.

– E quantos barcos são?

-Só um. O que traz é o mesmo que leva.

– Nos fu…!

Entraram separados e cabisbaixos, mas Álvaro entendeu que assim não tinha emoção e resolveu fazer coco na roupa pra afugentar quem se aproximasse. Em princípio a ideia vingou, o cheiro era insuportável e só se via neguinho a prender o nariz com os dedos, até que um tripulante o identificou. Bem, ai não tinha mais como mudar o enredo, a gritaria foi geral: pega! Pega! São os FDP que roubaram a gente!

Aos corpos do Capiroto e dos seus discípulos não restou alternativa se não novamente saltar do barco em movimento, agora nas águas escuras do Rio Negro.

É possível que hoje, sexagenário, Álvaro faça jus ao verso do Adoniran Barbosa: ” talbua em tiro ao Álvaro não tem mais onde furar”, mas isso eu não posso afirmar. Ele mora no Rio de Janeiro há mais de trinta anos, casou quatro vezes, mas está solteiro e não conheceu a paternidade.

Aí eu fico a pensar: só pode ser obra do Criador, já pensou como seria o Rio de Janeiro com os frutos do Álvaro Capiroto morro abaixo e morro acima?

Eu hein, vade retro!

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.