Arthur Reis, um lusófilo de carteirinha – Parte II

Em 16 de fevereiro de 2018 às 09:20, por Hélio Dantas.

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No último texto comentávamos que Arthur Reis era um autor lusófilo. Isso porque podemos notar claramente, na sua interpretação do processo histórico na Amazônia, uma predileção pelos portugueses como heróis centrais da narrativa. Um trecho dele é esclarecedor a respeito dessa questão: “É conveniente esclarecer que, na constatação dessa verdade insofismável, não queremos desprezar os outros elementos integrantes de todo o amplo processo da formação, representados na contribuição que nos ficou do gentio da terra e dos contingentes africanos que, com estes, constituíram um precioso instrumento de trabalho. (…) A presença portuguesa, no entanto, representou a força disciplinadora, o propósito mais decisivo, a inteligência aguda no tocante aos problemas que foram surgindo e tiveram de ser vencidos pela execução de política objetiva, fruto do exercício ininterrupto de uma ação cultural mais intensa, mais viva, mais nítida, mais consciente, enquanto os outros significaram reflexo, força reflexa, guiada, assistida, utilizada convenientemente pela de maior conteúdo cultural”.

É do colonizador português, então, a maior contribuição para a construção da Amazônia. O primado na condução do processo histórico na Amazônia, logo, é do elemento português que se impõe na posição de mando, de senhor, de liderança. Como já dito, o colonizador lusitano é o ator principal, cabendo aos outros elementos o papel de coadjuvantes do português na epopeia civilizatória. Dessa maneira, mais que em algum outro lugar, na Amazônia, “terra e homem [referindo-se aos indígenas], portanto, eram alguma coisa em ser, que os portugueses deviam utilizar, amoldando-os à sua vontade, às suas decisões, às suas fórmulas de vida”.

Nessa lógica histórica, o colonizador luso é o vencedor. Logo, é legítimo que ele que se imponha, se aproprie, conduza o processo “Os portugueses, nesse trabalho silencioso de contato e de interações, constituíram a contribuição mais preciosa. Tinham, por si, sobre as multidões indígenas que encontraram ou sobre os contingentes africanos que importaram, a superioridade de sua tradição e de sua atualidade cultural. Transmitiram-no, em consequência, todo um imenso acervo de civilização, representado em língua, religião, instituições políticas, hábitos, costumes, atitudes, processos políticos, processos de trabalhos. Realizaram uma vigorosa empresa civilizadora. Deram-nos a sua natura. Plasmaram-nos com os seus defeitos, os seus vícios, as suas virtudes e qualidades, o seu espírito, o seu gênio”.

Esse aspecto lusófilo da obra de Arthur Reis demonstra o quanto as propostas de Gilberto Freyre sobre a colonização portuguesa na América haviam se disseminado desde fins da década de 1930, visto que sua proposta regionalista grassava em diversos círculos intelectuais pelo Brasil, postulando o país como um “continente” formado por arquipélagos culturais e da diversidade regional como articuladora da identidade nacional.

Para Gilberto Freyre, o nacional deveria ser estudado regionalmente, “sem o sacrifício do sentido de sua unidade, a cultura brasileira, do mesmo modo que a natureza; o homem da mesma forma que a paisagem”, ou seja, num país de dimensão continental como o Brasil, o natural e o cultural encarregavam-se de estabelecer as subdivisões. A proposta conciliatória do autor pernambucano parecia uma excelente saída para se articular as diferentes proposições identitárias: “as diferentes regiões se conciliam através do lusismo, comum, com o universalismo essencial”.

O destaque conferido por Arthur Reis ao português como condutor de uma colonização bem-sucedida alude quase que diretamente aos argumentos de Gilberto Freyre – mais que com qualquer outro “intérprete” do Brasil no período. Muito embora não seja o objetivo de fazer aqui um estudo comparativo entre os dois autores, uma sucinta explanação acerca de algumas diferenças básicas entre os dois permitirá melhor matizar certas características da obra de Arthur Reis.

O próprio Gilberto Freyre, já em 1940, teria endossado as conclusões de Arthur Reis sobre a colonização portuguesa na Amazônia numa palestra proferida no Rio Grande Sul naquele ano. O ganho simbólico para Arthur Reis com certeza foi grande por ter sido citado e endossado por um autor já consagrado, e a colaboração intelectual entre os dois se daria mais diretamente durante a década de 1970, quando fizeram parte do Conselho Federal de Cultura, porém, ambos os autores constantemente citavam um ao outro em palestras e publicações.

No entanto, se ambos reconhecem que somente o português poderia efetivamente colonizar o Brasil como o fez, encarando sua herança como positiva, há duas diferenças básicas entre os dois autores. A primeira diz respeito à contribuição do elemento africano à colonização portuguesa, que para Gilberto Freyre é sobremaneira importante. Contudo, para Arthur Reis, a influência do elemento africano na colonização da Amazônia teria sido insignificante, dada à suposta escassez de escravos na região. Dessa maneira, para Arthur Reis, a Amazônia teve uma peculiaridade em seu processo colonizador que a diferenciava do resto do Brasil: a da relação básica do colonizador com os indígenas, estes sim, a grande maioria e essenciais como colaboradores dos lusitanos.

A segunda e marcante diferença está no fato de que, para Gilberto Freyre, a colonização não foi fruto de uma ação do Estado português, mas sim uma vitória conquistada pela família patriarcal luso-brasileira. Não haveria uma orientação oficial na colonização, mas sim iniciativa particular. Com efeito, nada contrastaria mais com a interpretação de Arthur Reis, para quem o Estado português é praticamente onipresente e a principal personagem histórica na condução da colonização da Amazônia. Arthur Reis estabelece uma origem para a Amazônia: a chegada dos europeus à região. O marco inicial para Arthur Reis não é nenhuma das populações que habitavam o lugar antes da chegada dos europeus. Assim, a história da Amazônia é a história de sua colonização pelos portugueses, mais especificamente em seus fatos político-administrativos.

Entretanto, mais do que um elogio laudatório do colonizador português, a narrativa da história da Amazônia construída por Arthur Reis, ao apresentar um processo colonizador exitoso, conduzido por um Estado metropolitano presente e zeloso, situa a possibilidade de progresso e desenvolvimento desde o momento por ele considerado como a “gênese” da região. Nessa gênese, segundo a ótica de Arthur Reis, não estaria nem o primitivismo dos indígenas, nem a grandiosidade da natureza (ambos praticamente obliterados pelo historiador em sua escrita), mas, pelo contrário, o ímpeto colonizador português. Essa construção do passado feita pelo autor permitiria encaminhar uma dupla operação: ao passo que dissociava a região da imagem de natureza idílica e exótica – contrapondo-se a uma concepção depreciativa conferida à região como lugar da barbárie e do primitivismo pela intelectualidade nacional até então – postulava a possibilidade de se realizar, por parte do Estado nacional contemporâneo, a retomada e/ou a efetivação de uma obra civilizatória de êxito no presente.

No limiar das propostas de Arthur Reis para o desenvolvimento da Amazônia estava a experiência colonizadora portuguesa. Não é a retomada do fausto gomífero que o autor estabelece como padrão de desenvolvimento. Para ele, é a colonização portuguesa que funciona como modelo, e que permitia afirmar a possibilidade de se estabelecer, no presente, uma sociedade economicamente desenvolvida. É assim, a continuidade do projeto lusitano que seria a garantia de progresso, pois segundo Arthur Reis, a experiência de planejamento e conhecimento técnico-científico, havia sido adotada primeiramente pelos portugueses em sua colonização – muito embora de maneira incipiente – mas é essa orientação “realista” que deveria, com o maior desenvolvimento da técnica e da ciência, ser retomada no presente.

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sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.