Arthur Reis, um lusófilo de carteirinha – Parte I

Em 9 de fevereiro de 2018 às 08:00, por Hélio Dantas.

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Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993) foi um historiador brasileiro nascido em Manaus. A produção historiográfica de Arthur Reis está inserida no processo de luta de representações pela definição da identidade regional que a partir do início do séc. XX passou a conformar a Amazônia enquanto uma região específica. Arthur Reis buscou instituir, para a Amazônia, ancestrais fundadores, um panteão de heróis, uma língua, monumentos culturais e históricos, além de uma paisagem e uma espacialidade, procedendo, enfim, à naturalização de vários dos atributos que viriam a ser associados à região.

A escrita da história de Arthur Reis foi marcada pelo meio caminho entre método crítico e civismo pedagógico. Ao mesmo tempo em que acredita e defende a ideia do Brasil como uma unidade territorial e histórica, que articula Colônia, Império e República numa linearidade, o faz acreditando que essa reconstrução do passado só pode ser comprovada pelas fontes. A fim de legitimar o recorte regional Amazônia, Arthur Reis realiza um diálogo com um saber anterior, nele efetuando um cuidadoso trabalho de seleção de memórias, fatos, personalidades, autores e textos, inventariando determinadas características, costumes, tradições, datas, marcos que são recortados e legitimados como fontes e interpretações autorizadas para se escrever a história da região.

Essa característica cívico-pedagógica pode ser percebida em vários textos de Arthur Reis que buscam instaurar um passado para o Amazonas, elegendo datas importantes, fatos marcantes e personagens ilustres, que, segundo o autor, permaneciam ignorados na historiografia brasileira. Discursos proferidos por Arthur Reis como paraninfo de turmas de ginasianos em Manaus durante esse período demonstram sua preocupação em dotar o Amazonas – principalmente a juventude estudantil – de uma memória histórica positiva. Em 1936, por exemplo, falando aos formandos do curso ginasial do Colégio D. Bosco, afirmava: Corramos a vista por sobre o quadro de nossos três séculos. Quanta heroicidade há nas atitudes de nossos homens, criando a Amazônia, contra a cobiça de franceses, de ingleses, de holandeses, de espanhóis, bolivianos, peruanos, vencendo, pela hinterlândia, os mistérios do meio geográfico! E no entanto, que se refere, dos compêndios oficiais de ensino às obras máximas que nos definem como povo, sobre toda essa atuação! Abram-se esses livros, examinem-se os programas e neles não se encontra um passo, um lance de nossos ascendentes. Para o geral, somos um trecho estranho, sem história, sem credenciais para ingressar no painel grandioso da formação brasileira.

Em 1938, Arthur Reis mudou-se para Belém a fim de assumir um cargo público. A essa altura, o historiador já experimentava uma relativa consagração no ambiente intelectual de Manaus. Se em sua cidade natal o autor publicou sua obra inaugural e mais alguns artigos em revistas locais, em Belém pôde ter acesso mais constante à documentação do Arquivo Público e da Biblioteca Pública do Pará, de onde selecionou fontes que o permitiriam escrever uma obra de maior fôlego, a saber, o ensaio publicado por ele em 1939, intitulado A política de Portugal no Vale Amazônico.

Diferentemente de seus estudos anteriores, esta é sua primeira obra em que é proposta uma síntese interpretativa da colonização portuguesa na Amazônia. Dessa maneira, a obra é uma espécie de manifesto inaugural, panorâmico, de onde posteriormente seriam pinçados temas para estudos mais específicos. A Amazônia colonial de Arthur Reis, apresentada nas páginas desse livro, é uma região que, durante a colonização, obteve uma especial atenção da metrópole lusitana. A história da colonização da Amazônia não seria apenas uma página de aventura e exotismo, a ocupar um lugar menor na memória nacional, mas sim uma experiência política de êxito.

Dividida em dez capítulos, a tese principal apresentada na obra é a de que Portugal teria sido a única nação europeia a obter pleno êxito na colonização do vale amazônico; êxito este atribuído a uma série de características específicas dos lusitanos em relação às demais nações europeias que visaram conquistar a região. Para Arthur Reis, é na colonização lusitana da região amazônica que devem ser procuradas as principais características da região. E a obra do historiador amazonense seria, em sua esmagadora maioria, uma descrição dos “aspectos da experiência portuguesa na Amazônia”: presença de Portugal, dominação lusitana, dinâmica portuguesa, contribuição portuguesa, expansão portuguesa, ocupação portuguesa. No teatro da história de Arthur Reis, a natureza amazônica é o palco para a atuação brilhante do protagonista lusitano e suas ações políticas, militares e civilizadoras, enquanto indígenas e caboclos constituem uma massa amorfa de coadjuvantes que aparecem vez ou outra na narrativa, apenas como suporte dos fatos que demonstrem as ações do colonizador.

Significativo dessa orientação é um pronunciamento seu em uma palestra no II Congresso de Brasilidade realizado em 1942, em Belém, que inicia da seguinte maneira: Logo de início é preciso recordar que nossa civilização não se alicerçou em resíduos africanos ou gentílicos. Esses resíduos não devem ser esquecidos nem desprezados. Representam muito em nossa personalidade. Mas a civilização de fundo tropical que realizamos, essa, em suas linhas centrais, em suas forças mais vivas, mais fortes, mais expressivas, é lusitana, ocidental. Ou seja, a civilização tropical erigida na Amazônia é, em seu âmago, lusitana e ocidental, e o que tiver de africano e gentílico é residual. A herança cultural maior é a do português. O autor deixa isso claro ao sentenciar que essa contribuição é perceptível nas cidades, residências, conventos, pontes, caminhos, portos, como obra material; no entendimento harmonioso com os grupos tribais ou com as sociedades avançadas que se lhes submeteram ao domínio político, como obra espiritual; na alimentação, no vestuário, na utilização do natural ou do que semeavam em vegetais e animais, como obra econômica; nos usos e costumes, língua, organização social, ensino técnico, cuidados sanitários, tipos de habitação, (…) constituíram (…) faces desse imenso legado português.

Esses exemplos discorridos acima nos permitem afirmar que Arthur Reis era um autor lusófilo. Mas o que viria a ser isso? Em nosso próximo texto vamos tentar explicar de maneira mais clara o que era essa lusofilia em Arthur Reis e os efeitos dela em sua obra.

sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.

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