Arthur Reis e a História do Amazonas: algumas reflexões

Em 2 de fevereiro de 2018 às 11:45, por Hélio Dantas.

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Quando os historiadores dos séculos aristocráticos detêm a vista sobre o teatro do mundo, descobrem imediatamente nele um pequeno número de atores principais que dirigem o drama. Estes grandes personagens, que se mantém sempre no palco, também detêm fixo o olhar, enquanto se dedicam a descobrir os motivos secretos que fazem agir e falar a aqueles, esquecendo absolutamente os outros.

(Alexis de Tocqueville)

História do Amazonas, livro de estreia do historiador amazonense Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993), publicado em 1931 pela Tipografia Reis, quando o autor contava apenas 25 anos de idade, pode ser apontado como um clássico da historiografia amazonense. Livro que surgiu como o primeiro esforço e comprometimento político de Arthur Reis, enquanto intelectual amazonense, de criar uma identidade regional com especificidades e qualidades singulares, foi a forma como o jovem autor buscou inserir, à época, o Amazonas nos quadros da historiografia nacional, em busca de assegurar a tão almejada valorização e relevância para uma região que havia ficado em segundo plano nessa escrita da História nacional.

Ao longo de todo o livro, fica subjacente que a grande luta que acontece no passado da Amazônia, marcando a sua história, é a luta pelo estabelecimento da civilização. Por isso não aparecem na sua narrativa de maneira destacada nem as classes populares e muito menos os povos nativos, sendo que esta última ausência é justificada na breve introdução da obra, pois “ainda é impossível abordar o assunto sem perpetrar erros violentos”. A despeito de demonstrar essa cautela, Reis não dispensa uma caracterização singular dos nativos. Estes são apenas coadjuvantes num enredo onde, em primeiro lugar, o autor omite que eles eram os donos legítimos da região e, em segundo, não lhes caracteriza como civilizados, somente aparecendo na narrativa de forma a enaltecer os personagens principais.

Segundo Ferreira Reis, na relação telúrica do indígena com a natureza selvagem da região não existe civilização: esta será implantada pelo conquistador lusitano. Tudo aquilo que se colocar como empecilho a este projeto civilizatório na Amazônia ele verá como negativo. Dessa forma, são inimigos da civilização: o clima amazônico, as dificuldades do meio geográfico e, igualados às características físicas da região, os nativos “bárbaros”. Empecilhos que serão superados heroicamente pelo elemento colonizador português, que vai finalmente estabelecer núcleos coloniais de povoamento onde “a indiada vivia contente” e havia “ordem e progresso”.

Ou seja: a história da região se configura na atuação heroica dos conquistadores e administradores. Os reveses administrativos de homens de Estado que precisam lidar com situações limites – rebeliões, carência de víveres, invasões territoriais – são apresentados numa narrativa de características claramente trágicas. Mendonça Furtado, Joaquim de Melo e Póvoas, Lobo D’Almada, Tenreiro Aranha, são exemplos de homens que “receberam um encargo pesado, porque era preciso criar tudo, num meio onde se obtinham com dificuldade as coisas mais comezinhas noutras partes”. Reis elege os seus heróis estadistas, homens de visão que percebem o potencial econômico da região que estão a desbravar e então estabelecem dias prósperos “resolvendo todos os entraves ao progresso”.

Dentre estes se destaca Lobo D’Almada, governador da Capitania de São José do Rio Negro entre 1788 e 1799. Mistura de gênio administrativo e homem santo, puro e iluminado, eleito por Reis o maior administrador do período colonial: todo boas intenções, Almada acabou tornando-se alvo de invejas e maquinações de inimigos políticos que o levarão a morrer de desgosto por ter sua probidade administrativa posta em dúvida. Ao fim do governo de Almada, Arthur Reis conclui, pesaroso, que o Rio Negro “ia atravessar um longo período de amarguras. As vilas e povoados principiaram a viver novamente dias miseráveis”. Para Reis a história da região é atravessada constantemente por esses dois momentos contrastantes: um, de alto progresso conduzido por estadistas brilhantes que extraem todo o potencial da região; outro, de verdadeira decadência devido ao descaso de más administrações.

Vejo que essa narrativa trágica da história da conquista portuguesa do vale amazônico é uma resposta de um intelectual tanto às demandas regionais de suas elites quanto ao governo Vargas. Assumindo a postura que marca os intelectuais de sua geração no Brasil, daqueles que tomam como responsabilidade ajudar o Estado a construir uma sociedade em bases racionais e de traçar a política, a cultura e a consciência nacional, é como se Arthur Reis direcionasse um alerta: para que se atente ao fato de os colonizadores portugueses terem valorizado a região e estabeleceram com sua empresa civilizatória, em vários momentos, um programa de exploração das potencialidades da Amazônia que se revelou próspero em um passado não tão distante.

Caberia então ao emergente Estado varguista retomar esta valorização da Amazônia inaugurada pelo colonizador português. Ou seja, Reis realiza uma ligação temporal, da empresa civilizatória portuguesa do séc. XVII e XVIII a uma efetiva presença do Estado nacional no Amazonas em crise econômica e esquecido pelos grandes centros do País. Além disso, sua escrita historiográfica se conforma aos padrões demandados pelo Estado Novo, que propunha o enfrentamento do passado brasileiro a fim de se livrar de qualquer sentimento de inferioridade no espírito nacional: o passado deveria ser um “manancial de inspiração” para o presente, para a construção de uma nacionalidade positiva e progressista.

Em História do Amazonas Reis esboça os traços que o levam a assumir o papel do historiador que faz a mediação entre o passado e o presente, projetando-os para um futuro possível para o Amazonas: liga os ideais culturais da colonização portuguesa na Amazônia (da qual é um ardoroso e elogioso defensor) à nova conjuntura política que se ergue no Brasil no início de 30. É um homem que participa de um processo que considera trágico e que busca de forma veemente lutar para se libertar dele, superá-lo: os vários momentos de decadência econômica e abandono que a região atravessou em sua história, desde a colonização até o início da República, sendo a mais emblemática a que foi causada pelo declínio do comércio da borracha e a que Arthur Reis sentiu os efeitos mais vivamente. Para isso buscará a partir de sua primeira obra frisar, ora de maneira sutil, ora de maneira explícita, as forças e potencialidades da região; alertar quanto aos perigos e debilidades, direcionando a um futuro possível de desenvolvimento para a Amazônia, onde os sofrimentos causados pelo abandono poderiam ser superados por uma ocupação humana plena e um aproveitamento das riquezas bem coordenado.

sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.

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