Ariosto, o cineasta do Cine Porão

Em 23 de setembro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Já gostei mais da sétima arte. É que as superproduções, os efeitos especiais e a computação gráfica não me seduziram, eu gostava mesmo era dos seriados, dos filmes que as telas dos cines Odeon, Éden, Popular, Ipiranga e Avenida rodavam; as velhas produções americanas da Universal, Metro Goldwyn Mayer, 20th Century Fox, Columbia e Paramount; da francesa Gaumont; da italiana Cinecittà e da brasileiríssima Atlântida Cinematográfica. Os filmes “cabeça” vieram bem depois. Gostava do rugido do leão da Metro e daquela águia que eu e os meninos da minha geração   afugentávamos com um sonoro xô, xô, xô… Ela saia do alto de uma colina, cruzava a tela do cinema e na volta se transformava em letras escrevendo a palavra present (apresenta), para anunciar o título do filme que iniciaria. As películas épicas me encantavam, sacavam-me lágrimas, alegria e indignação com a espécie humana.

Em 1970 eu e meu primo Armando assistimos “Barbarella”, um filme de 1968 impróprio para menores de dezoito anos; tínhamos então quatorze de idade, não sei por ele, mas eu me achei o Cara do Roberto Carlos só porque o porteiro do Cine Saul, lá em Parintins, fez vista grossa e nos deixou entrar. Barbarella é uma produção franco-italiana que tem Jane Fonda no papel principal, naquele tempo ela vivia o esplendor das suas beleza e juventude, para a época um filme prá lá de excitante, desses que convida o adolescente a se trancar no banheiro de casa e “viajar” no improvável.

Filmes como “A primeira noite de um homem”, “Midnight Cowboy”, do Agente Secreto 007, os Spaghetti Westens “Ringo”, “Django”, “Pecos”; também Hercules, Maciste, Tarzan…

Giuliano Gemma, Marcelo Mastroianni, Gina Lolobrigida eram meus artistas italianos favoritos; Alain Delon, Brigite Bardot e Jean Paul Belmondo, os franceses; adorava o mexicano Mario Moreno, o Cantinflas, e os brasileiros Grande Otelo, Oscarito, Ankito, Ronald Golias, Mazzaropi e Zé Trindade, esses, impagáveis. Mas nada disso era comparável ao prazer de assistir as produções cinematográficas que passavam no porão da casa de nº 290 da Rua José Clemente.

Ora, se a indústria cinematográfica tinha como ícones John Ford, Orson Welles, Federico Fellini, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, François Truffaut, Charles Chaplin e Francis Ford Coppola, apenas para citar alguns, o cinema no porão tinha o genial dois em um Ariosto Lopes Braga Neto. Ariosto era ao mesmo tempo proprietário do cinema e criador dos filmes animados que tanto animaram a minha infância.

A coisa funcionava assim: ele e a ajudante, sua irmã Socorro Braga, recortavam figuras das revistas O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Manchete e Realidade e as colavam em um lençol branco. As figuras eram variadas, podiam ser pessoas, carros, prédios, móveis, animais, objetos… Tudo que fosse interessante e que causasse um efeito visual impactante na hora da sessão. Havia critério, a sessão só começava quando a lotação estivesse completa, os acentos todos ocupados – o que não era tarefa difícil -, aí as janelas eram vedadas pra ficar escuro e o silencio devia ser respeitado.

A animação era feita com uma vela – a inocência do público não alcançava o risco de um iminente sinistro. Ariosto ou Socorro, às vezes os dois, munidos de velas nas mãos iam para trás do lençol branco, pendurado e bem esticado, aproximavam as velas das figuras coladas e começavam a mexer as mãos que seguravam as velas; as figuras ganhavam vida, mexiam-se para frente e para trás, para cima e para baixo levando-nos ao delírio. Como eram muitas figuras a coisa passava um surrealismo indescritível.

Quando nos excitávamos em demasia o cineasta e dono do cinema nos repreendia e, se necessário fosse, abria a porta do cine-porão e colocava pra fora o(s) mais empolgado(s). Registre-se que antes das sessões gibis eram distribuídos para leitura enquanto se aguardava o início, tal qual se fazia nos cinemas tradicionais de então. Ao término de uma sessão eu e muitos outros expectadores saímos do cine-porão e esperávamos o início da próxima e da próxima sessão que exibiria o mesmo” filme”, e daí? Era emocionante assim mesmo. Quando o “filme” começava a ficar manjado o cineasta mudava as figuras, dava nova dinâmica e conseguia motivar e atrair novamente a plateia embevecida.

Ariosto, com o seu dom criativo, conseguia entreter gratuitamente uma geração inteira de meninos e meninas da minha “Rua”. O cinema no porão não tinha bilheteria nem sonoplastia, mas tinha tudo o mais que os grandes cinemas tinham: tela, lugar pra sentar, plateia, expectativa, escuro e emoção; a outra diferença é que nas salas de cinema tinha um cara que trocava os rolos de fita, já no cine-porão tinha “o cara” que manipulava velas e dava vida aos filmes que criava. Foram momentos inolvidáveis.

Fico eu a meditar: muitas vezes deixamos – por ignorância ou estupidez – de admirar o singelo, mesmo sabendo que este pode ser tão ou mais grandioso e surpreendente que o sofisticado. Chego a óbvia conclusão que as crianças são sábias, tolos são os adultos.

Ariosto fez sua escolha, trocou de arte, bacharelou-se em Direito, saiu-se vitorioso no concurso prestado e segue a sua missão de trabalhar e atuar para e pelo público. É um brilhante e respeitabilíssimo Defensor Público do Amazonas.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.