A Amazônia “revelada” e a Amazônia “interpretada” (II)

Em 4 de agosto de 2016 às 08:00, por Hélio Dantas.

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Na última postagem, falou-se da possibilidade de questionar a linearidade cronológica dos textos sobre a Amazônia cristalizada e repetida ad nauseam, a exemplo do que faz Leandro Tocantins em sua conferência intitulada Reveladores e Intérpretes da Amazônia, publicada em 1966. Tal questionamento pode ser feito através de um trabalho de mapeamento de obras de interpretação sobre a Amazônia. Constata-se que, desde o século XVI até meados do século XIX, não há nenhum texto que faça menção ao termo “Amazônia”.

Algumas publicações que aparecem no final do séc. XIX utilizam o termo Amazônia, mais para definir a área das Províncias do Pará e do Amazonas, ou a bacia do rio Amazonas, do que propriamente para definir uma região com contornos e características específicas. A Amazônia – as províncias do Pará e do Amazonas e o governo central do Brasil, publicado pelo Barão de Marajó em 1883, é a primeira delas. O Barão de Marajó – título dado a José Coelho da Gama e Abreu (1832-1906) – ocupou os cargos públicos de Diretor de Obras Públicas, Deputado e por fim Presidente da Província do Pará. Neste livro, ele afirma no início: “a região amazônica ou Amazônia, como modernamente lhe têm chamado alguns”, dando a entender que o uso do termo para designar a região era recente.

Le pays des Amazones, de Francisco José de Sant’Ana Nery (1848-1901), o Barão de Sant’Ana Nery, publicado na França em 1885 é outro exemplo. Sant’Ana Nery, também nascido na Província do Pará, passou a residir em Paris a partir de 1874, dedicou-se a “divulgar” a região amazônica e ao fomento da emigração europeia ao Pará. Com semelhantes funções, foi publicada em Gênova, na Itália, entre 1898 a 1902, a revista L’Amazzonia: seu principal objetivo era atrair imigrantes italianos para o Pará.

As populações indígenas e mestiças da Amazônia: sua linguagem, suas crenças e seus costumes, publicado por José Veríssimo em 1887, e A Amazônia em 1893, de Luiz Rodolpho Cavalcanti Albuquerque são exemplos de outros livros publicados no final do séc. XIX que utilizam o termo. Esta última, fruto do trabalho de um funcionário do Tesouro Nacional, é uma obra em que se aprecia a grande riqueza da região amazônica. Inclui dados sobre navegação, produção, comércio, tratados, estradas de ferro, colonização e emigração, entre outros.

A partir desta constatação crucial, a dúvida que passa a incomodar é: se a região passa a ser denominada dessa maneira em um determinado momento, como ela era entendida antes disso? Esse questionamento parece resolver-se no fato de que a região teria sido percebida de diversas maneiras ao longo do tempo. Diferentes representações teriam sido elaboradas sobre ela, sendo a que a denominou Amazônia apenas uma entre outras.

Contudo, tal postulado, ao invés de solucionar o problema, gera outro questionamento. Ao lançar a definição Amazônia para quando ainda não era usada, não se estaria incorrendo em um grande anacronismo?

Dessa maneira, não parece mais tão óbvio de que os textos selecionados como obras de interpretação da Amazônia aos quais Leandro Tocantins se refere estejam falando da mesma coisa, do mesmo objeto. Da familiaridade, passa-se ao estranhamento. A título de exemplo, podem-se citar obras tão díspares como o Novo descobrimento do Grande Rio das Amazonas, escrito em 1641 por Cristóvão de Acuña, o Tesouro Máximo descoberto no Rio Amazonas, escrito pelo padre João Daniel, entre 1757 e 1766, a Viagem filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, escrita por Alexandre Rodrigues Ferreira e publicada no século XIX – estariam essas obras abordando o mesmo objeto, falando sobre a Amazônia?

Partindo desse estranhamento e desses questionamentos, uma problematização muito mais fértil passa então a ser: através de quais procedimentos intelectivos, sob que estratégias institucionais e em que momento teria sido feita a montagem de um conjunto de textos que foram recortados, legitimados e instaurados como obras sobre a Amazônia?

Para essas abordagens mais tradicionais, a Amazônia permanece sempre como um a priori, – não importando como seja definida, ou que representações sejam elaboradas sobre ela ao longo do tempo – ela existe como referente inquestionável por baixo das representações. Contudo, partindo-se de tal problematização, seria possível investigar como a Amazônia, ao longo do tempo, vai se sedimentando, tanto no senso comum quanto na cultura erudita, como um referente fundamental, auto-evidente e não questionado, sobre o qual se formulam diversas representações acumuladas ao longo dos tempos, as quais seriam passíveis de análise, interpretação, crítica e superação. Longe de ser um estudo que se propusesse construir um novo “cânone amazônico”, o objetivo seria tentar perceber a construção dos diversos cânones (que inclusive tentam aparecer como o “único cânone”) e que são postos em disputa dentro do campo intelectual. No caso, uma análise que consiga dar conta nem de “revelar” ou “interpretar”, mas de explicar como vai se construindo e articulando este objeto de saber: a Amazônia.

sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.

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