A Amazônia “revelada” e a Amazônia “interpretada” (I)

Em 27 de junho de 2016 às 15:04, por Hélio Dantas.

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Em 1966, o escritor paraense Leandro Tocantins (1919-2004) teve publicado, pelas Edições do Governo do Estado do Amazonas, uma série de conferências feitas por ele na Universidade de São Marcos, em Lima, no Peru. Em uma delas, intitulada Reveladores e Intérpretes da Amazônia, o autor se propõe a realizar uma análise da produção literária e científica a respeito da Amazônia. Empreitada, reconheçamos, bem difícil. Para isso, Tocantins faz um levantamento que abrange autores e obras que remontam ao séc. XVI, até chegar ao século XX.

Ele divide as obras elencadas por ele entre o que chama de reveladores e intérpretes. Reveladores seriam os autores que, de alguma forma, teriam descrito a região, mesmo que fantasiosamente ou imprecisamente, mas mesmo assim, teriam contribuído para “apresentá-la ao mundo”. Já intérpretes seriam aqueles que teriam ido além do descritivo e chegado ao “sentido real das coisas”, realizando uma análise social e antropológica que iria além da simples especulação e observação.

Na listagem efetuada por ele, aparecem, em primeiro lugar, as crônicas de viagem escritas pelo frei Gaspar de Carvajal e pelo jesuíta Cristóvão de Acuña, que acompanharam as expedições do espanhol Francisco de Orellana, em 1535, e do português Pedro Teixeira, em 1637. Marcadas pelo fantasioso e pelo “entusiasmo ingênuo”, mesmo assim elas seriam o “primeiro relato pormenorizado das características geográficas e etnográficas do mundo amazônico”, fazendo parte do “ciclo de descoberta e integração da Amazônia ao sistema político europeu”.

Seguindo seu panorama, o autor apresenta então o texto do capitão português Simão Estácio da Silveira: a Relação Sumária das cousas do Maranhão, seguido da Descrição dos Estados do Maranhão, Pará, Gurupá e Rio das Amazonas, de Maurício de Heriarte, da Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão, de João Felipe de Bettendorf e do Tesouro Descoberto no máximo Rio Amazonas, do jesuíta João Daniel. Esses cronistas, muito embora ainda “excitados psicologicamente” com a grandiosidade da nova descoberta, estariam dentro de uma “linha sociográfica” de estudos do “homem, da natureza e das primeiras relações sociais já realizadas com o intuito de colonização permanente”.

O primeiro aparte nessas “crônicas do entusiasmo” seria feito pelo Padre Antônio Vieira, que, sem “amenidades ou romantismos”, é o “primeiro a ver a Amazônia com espírito da realidade”. Depois de Vieira, Leandro Tocantins dá um grande salto temporal, para meados do séc. XVIII, e apresenta a seu leitor “a primeira tentativa de revelação científica da Amazônia”, a saber, a “viagem filosófica” do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que escreveu uma obra “enciclopédica”, abrangendo uma vasta gama de saberes, como a etnografia, a zoologia, a botânica, a mineralogia, a agricultura e a navegação. Essa obra responderia a um interesse por parte da metrópole lusitana em “conhecer realisticamente o meio amazônico”.

Se no séc. XVIII Leandro Tocantins cita somente o nome de Alexandre Rodrigues Ferreira, o séc. XIX é para ele marcado pelas viagens de vários nomes da “ciência universal”: Johann Baptiste von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius, que na obra Viagem pelo Brasil, relatam sua passagem pela Amazônia em 1819, descrevendo-a de forma “fidedigna e minuciosa”; Henry Walter Bates, descrevendo seus 11 anos passados na Amazônia em Um naturalista no Rio Amazonas, e Alfred Russell Wallace, com a obra Uma narrativa de viagem pelo Amazonas e Negro, descrição de sua viagem realizada em 1848, apresenta a Amazônia com “revelação científica” e “depoimento social”; e o casal Louis e Elizabeth Agassiz com seu relato Viagem ao Brasil, de 1868.

Essas obras, segundo Tocantins, pertenceriam ao grupo dos reveladores. Ele explica que “toda essa literatura – informativa, científica, sociográfica – embora inspirada no meio, ainda não possuía maiores raízes que a identificasse mais intimamente com a sociedade, com a economia, expressando um espírito peculiar, um modo de ser, uma visão cósmica da Amazônia”.

A “alma regional, “as raízes da terra” começam a se delinear no “ciclo das drogas do sertão”, manifestando-se principalmente na literatura. Sendo assim, a Muhraida, poema épico sobre a “pacificação” dos índios Mura, de Henrique João Wilkens, publicada em 1819, seria a “primeira manifestação do espírito regional”, e o primeiro “romance amazônico”. E a obra Simá, publicada em 1857, de autoria do militar Lourenço da Silva Araújo e Amazonas, juntamente com O Guarani, de José de Alencar, dividiriam o pioneirismo de ser os primeiros romances indianistas brasileiros. A estética realista e naturalista daria “conteúdo e forma ao regionalismo amazônico”, por mostrar a forte ligação, na Amazônia, do homem com o meio, dando assim “cor local” à literatura. Leandro Tocantins cita então o paraense Inglês de Sousa e sua obra Coronel Sangrado, de 1877, como o “berço do realismo brasileiro”, assim como suas outras obras, O Cacaulista, O Missionário, e Contos Amazônicos. Junto a ele, nesse regionalismo naturalista, figura outro paraense, José Veríssimo, com Cenas da Vida Amazônica, de 1899.

Com o fim do “ciclo das drogas do sertão” e início do “ciclo da borracha”, a “alma regional” iria ganhar novos contornos. “A Amazônia, que até então se povoara mediante o concurso do português e do índio, formando o tipo étnico do caboclo (…) ganhou uma contribuição demográfica respeitável nos contingentes humanos deslocados do árido Nordeste para o deserto verde e úmido. Realizou-se, assim, um processo de adaptação ecológica meio tumultuário, desordenado, próprio das áreas desérticas onde o forte motivo econômico leva o homem aos entrechoques da concorrência e da ambição do ganho”.

Para Leandro Tocantins, o autor que melhor descreve esse período da história da Amazônia é Euclides da Cunha. Um misto de “arranco verbal”, “capacidade de ver, sentir e captar o realismo amazônico”, fez dele um dos maiores analistas, “lançando nacionalmente a Amazônia em novas dimensões”. Sob sua sombra, seriam escritas obras de “grandiloquência estilística”: Alberto Rangel e seu Inferno Verde, de 1908; Carlos de Vasconcelos, com Os Deserdados, de 1921, e Ferreira de Castro, com A Selva, de 1930. Aparecem nesses romances, segundo Tocantins, uma Amazônia “violenta”, “áspera”, “dramática”. Em contraponto, surgem obras que ele caracteriza como “ufanistas”, pois veiculariam uma “reação nativista” contra as obras supracitadas, de caráter “negativista” e “pessimista” em relação ao futuro da região. Figuram nessa categoria de “ufanistas”, Alfredo Ladislau com a obra Terra Imatura, de 1923, e Raimundo Moraes com: Na Planície Amazônica, de 1926. Marcadas pelo “grandioso” do estilo de Euclides da Cunha, apesar do “lirismo fácil e falso”, cumpriram o papel de “chamar a atenção para o Extremo-Norte”.

À “fase ufanista” seguir-se-ia a chegada do Modernismo na Amazônia. Na literatura, com Cobra Norato, publicado em 1930 por Raul Bopp, e Puçanga e Matupá, obras de Peregrino Jr., publicadas em 1929 e 1933, respectivamente. O Modernismo também marcaria o surgimento dos primeiros intérpretes da Amazônia: Araújo Lima e Arthur Cézar Ferreira Reis. O autor encerra seu levantamento dos reveladores e intérpretes afirmando que “a geografia espiritual da Amazônia imita a própria geografia física: extensa, fascinante e promissora”.

Chama a atenção a familiaridade com que se apresenta este levantamento. Na verdade, ele ainda figura em muitos livros didáticos, e, até em ementas universitárias, na esteira do pensamento que postula a necessidade de se realizar o levantamento de intérpretes da Amazônia, como prelúdio de qualquer tentativa de “compreender a região”. Muito embora pareça uma sucessão cronológica autoevidente, que segue desde o “descobrimento”, passando pela “conquista”, pela colônia, pelo império, até o momento em que se plenifica uma “consciência regional”, essa linearidade é passível de ser questionada.

sobre o autor

Articulista Hélio DantasProfessor de História em Manaus há 11 anos. Coordenador do Centro de Documentação do Colégio Amazonense D. Pedro II. Historiador, atuando na Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas na Gerência de Patrimônio e Museu do Teatro Amazonas. É autor do livro Arthur Cézar Ferreira Reis: Trajetória Intelectual e Escrita da História (Paco Editorial, 2014). Tem particular interesse pela História dos Intelectuais e da Educação no Amazonas.

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