ALTERNATIVAS VIÁVEIS

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O Brasil e o Amazonas vivem uma temporada aberta de greves: caminhoneiros, rodoviários e petroleiros disputam o privilégio de alterar a rotina das cidades e mostrar sua importância. Nisso tudo, há algumas reflexões que precisam ser feitas, para além do sentido político de tais greves.

As grandes metrópoles brasileiras, incluindo-se Manaus nesse time, vêm sofrendo muito com essas paralisações, especialmente a dos caminhoneiros. Em sua briga por um diesel mais barato, eles pararam o abastecimento das cidades, deixando os cidadãos sem comida, bebida e combustível, entre outros elementos. No campo, deixaram os agricultores sem rações e insumos, matando milhares de espécies e fazendo com que produtores perdessem toneladas e litros de alimentos e leite, por exemplo.

Isso mostrou que nossa logística está extremamente dependente das rodovias. Quase 70% de nossa produção nacional circulam pelas rodovias, pelos caminhões. O restante se distribui pelas ferrovias e pelo transporte aquaviário. Desde a república velha, com Washington Luis e seu lema “governar é construir estradas”, que priorizamos as rodovias como forma quase exclusiva de transporte de cargas e passageiros. Ignoramos solenemente as ferrovias, os rios e a cabotagem. O resultado é o que se viu esta semana: desabastecimento, carestia e imobilismo. A perplexidade dos governantes é surpreendente. Foram eles que construíram este modelo. Quando algo dá errado, as perdas são enormes e sentidas por todos, democraticamente: carros sem gasolina, mercados sem comida e gado sem ração, entre outros tristes exemplos.

Da mesma forma, não se discute o quase monopólio da energia fóssil. A gasolina e o diesel são as estrelas principais e únicas de nossos modais. Não investimos em pesquisas sobre energias alternativas, como o vento e o sol, acreditando que os combustíveis fósseis irão durar para sempre. E mesmo que durem mais algumas décadas, agora que há o pré-sal, os eventos mostraram como essa dependência enfraqueceu nosso modelo de desenvolvimento e nos deixou em um beco sem saída.

É mais do que hora de usarmos essas greves para pensar investimentos em pesquisa e inovação. Buscarmos alternativas energéticas e soluções criativas para dilemas de logística e mobilidade, que fujam dos BRTs, dos aplicativos e dos coletivos. Em Manaus, por exemplo, temos o gás, que poderia ser usado nos ônibus e embarcações. Por que não se pensar e projetar isso? São saídas de médio e longo prazo, assim como investir nos biocombustíveis e nos veículos elétricos. Porém, se não iniciarmos agora esse movimento, incentivando pesquisas e projetos inovadores de energia, logística e mobilidade, estaremos novamente fadados a sermos reféns de uma ou outra categoria profissional. E não quero discutir se as demandas de tais grupos são legítimas, ou não. Minha questão é mostrar como um país não pode ser prisioneiro de modelos exclusivos de infraestrutura. Somente a pesquisa, a ciência e a tecnologia podem criar alternativas concretas e viáveis, antes que esse “caos” anunciado volte a se repetir.

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