Alforria a ferro e fogo

Em 30 de junho de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Ao iniciar esse texto, relutei em dizer a palavra ganhei, para expressar a obtenção da alforria como uma conquista, algo que não foi de graça. Na realidade, um longo trajeto de lutas e conquistas, nem sempre felizes ou suaves, mas o peso e o suor também produziram fibras e alentos agradáveis. Nestas travessias, também encontrei muitas pessoas que apoiaram meus passos, assim como muitas boas coisas aconteceram para me animar. Até os tropeços e as quedas, muitas vezes me ajudaram e de alguma forma moldaram quem sou. Muitas vezes, assumi compromissos a ferro e fogo, uma atitude que não admitia outra alternativa. Me abraçava fortemente aos compromissos assumidos. Por conta disso, muitas vezes me indispus com muitas pessoas.

Certamente devo ter feito cobranças muito rígidas para quem tinha outros interesses ou maneiras de tratar o trabalho, de acordo com seus entendimentos de vida. Já não posso afirmar que estava correto, mas assumo estar satisfeito com as práticas e atitudes assumidas na vida. Uma ou outra, certamente reprovável, mas no geral, não há o que lamentar. Passou. Algumas ainda merecem críticas e maiores reflexões. Não havia receita, fui aprendendo a ser, sendo, sem uma orientação ou racionalização. Talvez tenha feito exigências em demasia, que em diferentes tempos pareciam essenciais.

Agora, me sinto alforriado, coisa que não era capaz de imaginar antes. Mesmo que continue compromissado com muitas de minhas práticas e ideias, não me transformei em outra pessoa. O sofá ainda vai terá que me esperar mais algum tempo. Assim espero. Agora, disponho de uma certa liberdade e opções para comigo mesmo. Mesmo minha saúde ficava para depois. Agora sim, estou em primeiro plano de minhas ações. Ainda que não possa esquecer completamente os outros, ainda que sinta alguma pressão. Que a vontade de escrever seja maior do que a vontade de aquarelar. Como se por uma limitação própria, da minha forma troiana de levar a vida a ferro e fogo, não tivesse como conciliar as coisas, e somente agora, depois de cumprido as exigências, finalmente eu tivesse direito usufruir delas.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.