¿Adónde fue a su gracia, bello angelito?

Em 23 de dezembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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O pequeno foi o primeiro a acordar naquela manhã de domingo, último Natal dos anos setenta. Isso ele sabia fazer bem, pois naqueles seus primeiros nove meses de vida, tudo se resumia em dormir e acordar; comer e defecar; beber e urinar. O resto seus jovens pais resolveriam. Se não estivesse satisfeito, bastava que botasse a boca no trombone e tudo rapidamente seria solucionado. Simples assim, embora no dia anterior tenha resolvido inovar – ele que até então só engatinhava – e tivesse ficado de pé pela primeira vez, apoiando e tracionando seus tenros bracinhos para cima do assento de um sofá da sala – feito reproduzido durante a ceia natalina diante dos avós, tios e conhecidos, para gáudio de seus pais.

Depois foi a vez dos pais saltaram da cama simultaneamente e cumpriram suas tarefas previamente pactuadas: a mãe trocou as fraldas e realizou a higiene matinal; o pai, na cozinha, preparou a primeira mamadeira. O café da manhã aos domingos costumava ser no Restaurante Maranhense, duas quadras abaixo, na Avenida Eduardo Ribeiro, a “Avenida”, como era conhecida. Depois, novos arranjos para o deslocamento até o Olímpico Club, onde se passaria a manhã e, eventualmente, se almoçaria.

O apartamento, presente dado por uma das avós da mãe do pequeno, ficava no décimo terceiro andar do Edifício Cidade de Manaus, na avenida Eduardo Ribeiro, centro da cidade. Era composto por sala, quarto, área de serviços, banheiro e dependências para empregados. Tinha uma vista espetacular para o Teatro Amazonas e o rio Negro, e era um dos raríssimos edifícios da cidade com mais de cinco andares. O prédio quase nobre, não tinha vagas na garagem e o Chevette vermelho, novinho em folha, presente da mesma avó, tinha que dormir na rua.

 

Ya se va para los cielos

ese querido angelito

A rogar por sus abuelos

Por sus padres y hermanitos

 

Cuando se muere la carne

El alma busca su sítio

Adentro de una amapola

O dentro de un pajarito” (1)

 

Os pais tinham acordado que “trancariam” as respectivas matrículas ao término do quinto ano do curso de Medicina, para melhor cuidar do pequeno. Ela talvez tivesse o melhor curriculum de toda a turma e era professora contratada da rede pública estadual de ensino. Extremamente organizada e metódica, trazia o apartamento e o pequeno sob seu total controle, assim como as finanças familiares. Ele, aluno mediano, era um mix de líder universitário com militante partidário e professor de cursinhos pré- vestibulares. E ainda fazia, aos domingos, exames de pele nos frequentadores da piscina do Club, o que lhe rendia uns trocados a mais e o direito de frequentar com sua família as dependências do mesmo.

Não almoçariam no Club, pois nenhum restaurante poderia lhes oferecer melhores acepipes do que os que os aguardavam na geladeira de casa. Os hoje conhecidos R.O. (os restos de ontem). Uma belíssima pescada amazonense, com batatas, couve, repolho e muito azeite português, mais bacalhau em postas enormes e, por sobremesa, rabanadas e frutas da época. Tudo produzido pelas mágicas mãos das avós e tias dela. Depois uma merecida soneca, que ninguém é de ferro.

 

La tierra lo está esperando

Con su corazón abierto

Por eso és que angelito

Parece que está despierto

 

Cuando se muere la carne

El alma busca su centro

En el brillo de una rosa

O de un pececito nuevo” (2)

 

Acordados novamente pelo pequeno, os pais já sabiam de antemão o que fariam a seguir. Ela conferiria o pequeno, o higienizaria, lhe daria algum lanchinho e o colocaria para engatinhar na sala, devidamente isolada dos demais cômodos por duas pequenas cercas de madeira gradeada. Colocaria no toca-discos um Long Play do Milton Nascimento, que parecia acalma-lo. Ouviriam “Caçador de Mim”, “Coração de Estudante” e, principalmente, “Cantiga de Caicó” (“Ó mana deixa eu ir, ó mana eu vou só…”). Depois lavaria na máquina algumas peças de roupa do pequeno e alguma louça. Tinha a esperança de ainda ter tempo para estudar, pois o ano sabático estava por findar-se e o estágio de conclusão do curso de Medicina logo iria começar.

Ele, o pai, tinha planos mais amenos. Primeiro, acompanharia seu cunhado mais novo em uma pelada de futebol, num campo de terra, em um bairro periférico. Era seu esporte predileto, embora se portasse razoavelmente bem no tênis de mesa (melhor dizer ping-pong) e na sinuca (melhor dizer bilharito). Depois veria se atenderia a solicitações de alguns colegas de faculdade, para emitir sua opinião sobre o andamento da campanha eleitoral para o Diretório Central dos Estudantes da Universidade. Como a ditadura militar que dominava o país já começava a dar sinais de fraqueza, ele já não curtia tanto esse espaço de luta política. Achava melhor atuar mais intensamente no processo incipiente de construção de um partido político que pudesse ser mais efetivo na derrubada da mesma.

 

En su cunita de tierra

    Lo arrullará una campana

    Mientras la lhuvia le límpia

  Su carita en la mañana

 

   Cuando se muere la carne

  El alma busca su diana

    En el misterio del mundo

      Que le ha abierto su ventana” (3)

 

Já o pequeno não tinha planos. Ou será que tinha? Acomodado no tapete da sala com algumas almofadas em volta, pôs-se a fazer o que já era rotina: engatinhar. Esta habilidade o tinha possibilitado ver o mundo a partir de alguns centímetros a mais do que quando só podia olhar para cima ou para os lados. Era diferente! Mas melhor ainda era ficar apoiado em suas perninhas e ver o mundo a partir de, talvez, quarenta centímetros. Buscou fazê-lo de novo, apoiando-se no bordo do sofá modulado (marca Pelmex) encostado na parede sob a janela aberta. Sentiu pela primeira vez o contato com as gotículas da chuva recém iniciada que, rebatidas no umbral metálico da janela aberta, compunham uma linda cortina líquida que, ao atingir seu corpinho, o fazia estremecer prazerosamente naquele fim de tarde que tinha começado tão abafado e quente.

Apoiado com as mãos sobre o assento do sofá, lançou uma das perninhas para o alto e a seguir puxou a outra e, voilá! Estava sobre o assento. Mais gotinhas maravilhosas acariciavam seu corpinho, impulsionando-o a dar o passo seguinte, que era colocar-se sobre o limite superior do encosto, cerca de quinze centímetros do umbral da janela. Já experiente no processo e magnetizado pela vastidão do que se descortinava ante seus olhinhos, somado ao aumento da quantidade de gotículas que o atingiam, repetiu tudo e atingiu a marquise externa de cimento liso. E… flutuou no ar como se fosse um pássaro!

Las mariposas alegres

 De ver el bello angelito

  Alredor de su cuna

  Le caminan despacito

 

Cuando se muere en la carne

  El alma va derechito

  A saludar a la luna

    Y de passo al lucerito” (4)

 

A mãe, entretida e concentrada sobre o que estava a fazer na área de serviços, súbita e chocadamente deu-se conta que o disco tinha parado há algum tempo e não ouvia qualquer ruído vindo da sala. Correu. Não o viu na sala. Foi para o quarto, banheiro… e nada. Então viu a janela aberta. Não! não podia acreditar! Lançou-se sobre o umbral e o viu. Sua percepção imediata apontou para a solidão do pequeno no pátio, treze andares abaixo, sob aquela fina chuva. Queria confortá-lo, aquecê-lo. Pensou que o elevador seria demorado. Idem as escadas. Mais rápido seria ir pelo mesmo trajeto que o pequeno tinha seguido.

O pai que tinha perdido o pênalti que eliminara seu time da pelada, estava a caminho de casa.

 

Adónde fue a su gracia

Adónde fué su dulzura

  Por que se cae su cuerpo

    Como una fruta madura? “

 

  Cuando se muere en la carne

El alma busca en la altura

La explicación de su vida

 Cortada con tal premura

La explicación de su muerte

Prisionera en una tumba

Cuando se muere en la carne

El alma se queda oscura” (5)

 

Naquele ano, a cantora Simone quebraria todos os seus recordes de venda de discos com versões ou novas interpretações de clássicos natalinos. Um dos hits mais tocados era a versão chinfrim de “Merry Christmas“, de John Lennon. A letra traduzida começa assim:

 

“Então é natal! E o que você fez?”

 

 

(1), (2), (3), (4) (5) Violeta Parra

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.

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