• Durango Duarte - Vista da Biblioteca Pública do Estado do Amazonas
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    Vista da Biblioteca Pública do Estado do Amazonas

    Cartão-postal Foto Manaus.

    A história da Biblioteca Pública do Estado do Amazonas – primeiro espaço público organizado para consulta de livros em Manaus – inicia em 1870, quando o presidente da Província, Clementino José Pereira Guimarães, por meio da Lei 205, de 17 de maio daquele ano, instituiu uma Sala de Leitura originada de um projeto do deputado Aprígio Martins de Menezes.

    Com um acervo aproximado de 1.200 títulos, a inauguração dessa Biblioteca deu-se quase um ano depois, em 19 de março de 1871, no então Liceu Provincial Amazonense. No final de 1873, essa Sala de Leitura foi transferida, junto com o Liceu, para o térreo do Palacete Provincial, que estava para ser inaugurado. Sete anos depois, em 1880, ela acompanhou novamente aquela escola secundarista e passou a funcionar no prédio do Seminário São José.

    Em 1882, por meio da Lei 582, de 27 de maio, o presidente da Província, José Paranaguá, criou a Biblioteca Pública Provincial do Amazonas – primeira nomenclatura oficial dessa instituição. Sua inauguração ocorreu quase um ano depois, em 25 de março de 1883, no aniversário de 59 anos da Constituição Política do Império do Brasil. Instalada de maneira provisória em um salão no lado leste da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, foi aberta ao público dois dias após ser inaugurada. Para facilitar o acesso dos visitantes, mandou-se construir uma escada de pedra nos fundos da igreja, no extremo oriental do muro.

    Boa parte do acervo dessa biblioteca fundada por José Paranaguá era procedente da antiga Sala de Leitura. Seu quadro de pessoal era composto por Lourenço Pessoa, bibliotecário, e Miguel Pereira Franco, porteiro. Até dezembro de 1883, perto de 1.900 pessoas já haviam a frequentado.

    Em 1888, a Biblioteca Pública Provincial foi transferida para uma das salas do recém-inaugurado prédio do Liceu, situado na rua Municipal, atual avenida Sete de Setembro, sendo seu novo diretor o bacharel Jorge Augusto de Brito Inglez. Seu funcionamento teve início no dia 31 de julho daquele ano.

    Decorridos sete anos, em 1895, em razão do estado de precariedade em que se encontrava o acervo, o governador Eduardo Ribeiro transferiu o que havia restado das obras – muitas, incompletas ou deterioradas – para um armazém localizado na praça da Constituição, atual Heliodoro Balbi, próximo à rua Guilherme Moreira. Nessa época, o bibliotecário era Pedro Regalado Epiphanio Baptista.

    A Biblioteca perdeu a sua autonomia como repartição pública em 1897, visto que a administração estadual, pelo fato de considerá-la onerosa para os cofres do governo, a transformou numa seção do Departamento de Estatística. Nascia, então, a Repartição de Estatística, Arquivo Público e Biblioteca e, mais uma vez, o acervo – que à época continha 3.165 volumes e 131 mapas – mudou de lugar, sendo transferido, em 1898, para uma casa na rua do Progresso, hoje, Monsenhor Coutinho.

    O Legislativo Estadual, por meio da Lei 254, de 9 de agosto de 1899, autorizou o então governador Ramalho Júnior a reorganizar a Biblioteca Pública e a desanexá-la da repartição a que pertencia e tornou-a novamente uma diretoria autônoma. Tal medida foi regulamentada no ano seguinte, em 3 de janeiro, pelo Decreto 375-B. No entanto, somente em 1902 é que a Repartição de Estatística deixaria o prédio da rua do Progresso. Permaneceram nesse local o Arquivo e a Biblioteca.

    Em 1905, no governo de Antônio Constantino Nery, foram iniciadas as obras da construção do prédio – projetado pelo arquiteto paraense José Castro de Figueiredo – que iria abrigar definitivamente a Biblioteca Pública e onde seriam também instaladas as seções de Arquivo e de Estatística. No terreno, situado na rua Barroso, esquina com a antiga rua    Municipal, atual avenida Sete de Setembro, funcionava o Estábulo Público, ao lado do palacete da Imprensa Oficial do Estado. Nessa época, o acervo da biblioteca já havia sido novamente transferido e instalado em uma casa da avenida Eduardo Ribeiro.

    Enquanto prosseguia a construção do edifício, também se cuidava de melhorar o seu acervo bibliográfico, já bastante desfalcado. Para tanto, em 1906, a administração estadual adquiriu mais de 2.600 títulos que pertenciam a Fernando de Castro Paes Barreto. Entretanto, a Biblioteca foi fechada no governo de Constantino Nery e ficou assim até ser transferida para sua sede própria. Durante esse período, ela foi dirigida e reorganizada pelo jornalista Bento Aranha, filho do primeiro presidente da Província, Tenreiro Aranha.

    A solenidade de instalação da Biblioteca Pública do Estado em seu prédio próprio ocorreu na administração estadual de Antônio Bittencourt, em 5 de setembro de 1910, dia em que se comemora a Elevação do Amazonas à Categoria de Província. No início de suas atividades, funcionava na ala sul do andar térreo.

    Decorridos três anos da inauguração oficial desse edifício, em 1913, a Assembleia Legislativa passou a ocupar a ala sul do 2º andar do prédio. Nessa época, a administração do Estado estava a cargo de Jonathas Pedrosa e a direção da biblioteca era de responsabilidade de José Chevalier Carneiro de Almeida.

    Entre 1914 e 1915, frequentaram essa unidade de informação perto de 9.800 pessoas. Em março de 1925, ela passou a funcionar também no horário noturno, durante os dias úteis, de 19 às 21h. No início da década de 30, o seu acervo aproximado era de dez mil títulos, porém, menos de cinquenta por cento dessas obras se encontravam catalogadas.

    Em 1931, os familiares do escritor Antônio Brandão de Amorim, conhecido como o colecionador das histórias e lendas, doaram à Biblioteca Pública todo o acervo a ele pertencente. A coleção foi instalada no dia 27 de abril daquele ano, em uma estante que recebeu o nome do escritor. Aliás, vale ressaltar que, ao longo dos anos, a Biblioteca Pública recebeu algumas doações de acervos particulares, os quais também eram organizados em estantes que levavam a denominação de seus patronos.

    Com a criação do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda – Deip, em 1943, a Seção de Imprensa Pública foi desanexada da Biblioteca e do Arquivo e essas duas últimas passaram a compor uma única diretoria. O responsável pela Biblioteca era o jornalista Genesino Braga. A frequência de leitores, registrada entre junho de 1943 e maio de 1944, foi de mais de 34 mil pessoas.

    A década de 40 reservaria ao palacete da rua Barroso e, principalmente, à Biblioteca Pública do Estado, uma triste passagem na história: na madrugada de 22 de agosto de 1945, um incêndio iniciado no segundo piso – que, desde 1913, estava sendo ocupado pela Assembleia Legislativa – alastrou-se rapidamente e destruiu toda a ala sul do prédio, lado que dá para a avenida Sete de Setembro. Da Biblioteca, o fogo consumiu os móveis e o acervo de mais de trinta mil títulos que nela existiam na época do sinistro.

    O incêndio foi tão intenso que a estrutura metálica do telhado da ala sul desabou e destruiu os pisos do 2º andar e do térreo. A área norte não sofreu danos estruturais. De todo o acervo, salvou-se apenas uma coleção de sessenta livros raros, transferidos, dias antes do desastre, para um estande da Biblioteca, montado na 1ª Exposição-Feira da Amazônia.

    O processo de recomposição do acervo bibliográfico foi iniciado já no dia seguinte à tragédia. A primeira ação realizada nesse sentido partiu do próprio interventor federal Álvaro Maia, que doou cerca de 2.500 livros de sua coleção particular.

    Alunos do Colégio Estadual e da Faculdade de Direito andavam em um caminhão a fim de recolherem os livros doados pela população. As doações eram feitas, não somente pela sociedade amazonense, mas vinham, também, de instituições culturais de outros Estados e até de outros países.

    Decorrido pouco mais de um mês do incêndio, o jornal Amazonas anunciava, em matéria veiculada em 30 de setembro de 1945, que a diretoria da Biblioteca já havia recebido cerca de dez mil títulos. Além de Álvaro Maia, ao longo dos anos, a Biblioteca Pública recebeu doações de livros de Arthur Reis, Alfredo da Matta, Agnello Bittencourt, Mário Ypiranga, Ruy Araújo, André Araújo, Henoch Reis, entre outros. Essas obras existem até os dias de hoje e são classificadas como Coleções Especiais. Ao todo, são quase trinta coleções, que, juntas, contém um acervo de, aproximadamente, cinco mil títulos.

    As portas da Biblioteca Pública Estadual seriam novamente franqueadas ao público no dia 21 de novembro de 1947, no governo de Leopoldo Neves, com um acervo aproximado de 45 mil títulos. O salão de leitura, juntamente com a seção de referência, foi instalado na ala norte do andar térreo, lado que dá para a rua Henrique Martins. A seção de periódicos, a diretoria, a secretaria, os setores de aquisição, catalogação e classificação e os cursos passaram a funcionar no outro extremo do prédio. Nessa mesma área, em fevereiro de 1949, foi inaugurada a Biblioteca Infantil, com mais de setecentos livros.

    Em 1950, por meio da Lei Estadual 677, de 18 de agosto, a Biblioteca foi desanexada da repartição do Arquivo Público  e voltou a ser uma entidade autônoma. Nascia, então, a Diretoria da Biblioteca Pública. No ano seguinte, o governador Álvaro Maia, por meio da Lei 45, de 6 de agosto de 1951, deu a denominação Palácio Ruy Barbosa ao prédio da rua Barroso. Em 1955, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa, em parceria com essa unidade de informação, promoveu um curso de Biblioteconomia que funcionou na própria Biblioteca.

    Na administração estadual de Arthur Reis (1964-1967), quando a Biblioteca já era um Órgão subordinado à então Secretaria de Educação e Cultura, passou por novas reformas, principalmente no andar superior, área onde foram inaugurados o Auditório Alberto Rangel e a Pinacoteca do Estado. Nessa mesma restauração, uma das suas salas de leitura recebeu a denominação José Chevalier.

    Aliás, vale ressaltar que, ao longo dos anos, outras  seções dessa unidade de informação receberam nomes de personalidades que fazem parte da história da Biblioteca, como o salão para estudos em grupo, denominado Thália Pedra, e a sala para pesquisa com material da Biblioteca, intitulada Genesino Braga, ambas no térreo. No 2º piso, existe o salão José Lindoso – Biblioteca Luso-Brasileira Ferreira de Castro, em que são encontrados livros e documentos sobre a cultura portuguesa.

    Em 1988, por meio do Decreto 11.033, de 12 de abril, o prédio da Biblioteca Pública foi tombado como Monumento Histórico do Estado. No terceiro mandato de Gilberto Mestrinho como governador (1991-1995), o palacete sofreu nova reforma. Entre os melhoramentos realizados, adaptou-se o porão da ala norte do edifício para instalação da Biblioteca e Teatrinho Infantil Alfredo Fernandes. Posteriormente, em 1999, esse espaço passou a ser ocupado pela biblioteca Braille.

    Desde janeiro de 2007, a Biblioteca Pública do Estado do Amazonas, localizada na rua Barroso, n. 57, Centro, encontra-se fechada em razão de uma “reforma” em seu prédio. Contudo, passados dois anos, essa obra sequer foi iniciada. Enquanto isso, seu acervo encontra-se espalhado entre a Casa da Cultura, o Centro de Convenções, popularmente conhecido como Sambódromo, e o Centro Cultural Povos da Amazônia – CCPA, onde ficará armazenado até a conclusão das obras.

    Imagem e texto retirados do livro Manaus, entre o passado e o presente do escritor Durango Duarte.

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