Governo Vargas: da hesitação inicial à opção pelos países aliados

Em 7 de setembro de 2017 às 08:00.

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O fim da Primeira Guerra Mundial foi determinante na mudança do cenário na geopolítica mundial, ao revelar a queda da hegemonia inglesa, o despontar dos Estados Unidos como uma potência econômica, política e militar e o início da recuperação da Alemanha derrotada, baseada em uma política nacionalista de cunho fascista.

Com o quadro internacional assim pincelado, o governo de Getúlio Vargas adotou uma posição hesitante. Em princípio não apoiou nem aos Países Aliados, tendo na linha de frente a Inglaterra, França e União Soviética, nem aos países do Eixo, com a Alemanha, Itália e Japão no comando.  Com esse comportamento indeciso, o Brasil se aproveitou e tirou vantagem comercial da rivalidade entre esses países. Nessa fase reticente, a Alemanha foi a principal compradora de algodão e a segunda de café, tendo tido uma participação significativa no comércio exterior do Brasil.

Enquanto o Brasil não se definia, o governo do presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, acompanhava com atenção o avanço alemão no comércio brasileiro. Em decorrência dessa relação comercial com a Alemanha, alguns grupos econômicos americanos manifestaram o desejo de que os Estados Unidos adotassem medidas de represálias contra o Brasil. Mas o presidente americano preferiu evitar qualquer ação radical e agiu com cautela, talvez com receio de o Brasil aliar-se à Alemanha. Washington estava preocupada com a produção de matérias-primas necessárias a manutenção da guerra, pois o Brasil tinha uma importância estratégica, uma vez que era o segundo maior produtor de borracha vegetal do mundo, produto indispensável para o armamento bélico, o maior produtor de borracha vegetal estava nas mãos dos japoneses no Sudeste Asiático.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, especialmente depois do bombardeio dos navios brasileiros pela esquadra alemã e a entrada dos Estados Unidos no bloco dos Países Aliados, o presidente da República, Getúlio Vargas, optou por juntar-se aos Aliados, definindo, finalmente, os rumos da política externa brasileira.

Em maio de 1941, o presidente do Export Import Bank, Warren Pierson, veio ao Rio de Janeiro e assinou um acordo com o Brasil, nele o governo brasileiro se comprometia a vender com exclusividade aos Estados Unidos materiais considerados estratégicos. Caso as empresas particulares norte-americanas não absorvessem a totalidade da produção brasileira, o governo americano comprometia-se a adquirir o excedente produzido, além de facilitar o embarque dos materiais essenciais à indústria brasileira, cuja exportação dos Estados Unidos dependesse de formalidades governamentais.

“Esse primeiro passo na colaboração Brasil-Estados Unidos ocorreu exatamente no momento em que as autoridades militares norte-americanas pressionavam as brasileiras no sentido de permitir a presença de suas tropas em bases aéreas do Nordeste brasileiro, tendo em vista seus planos de defesa hemisférica. A estes planos se opunham os militares brasileiros, que admitiam a presença de tropas norte-americanas em solo brasileiro somente em caso de invasão, devendo a defesa inicial do território contar com o esforço puramente nacional. O impasse começou a se romper rapidamente ao final de 1941, com a entrada dos Estados Unidos na guerra. Imediatamente convocou-se a II Conferência dos Chanceleres para o Rio de Janeiro, a fim de debater o rompimento de relações das nações americanas com o Eixo. A posição brasileira foi intensamente negociada durante aquela reunião (15 a 28 de janeiro de 1942), especialmente em torno do reequipamento das forças armadas e de questões econômicas”.

Em dezembro de 1941, a política econômica externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil ficou evidente, em virtude da necessidade das matérias-primas oriundas do país. O interesse dos americanos voltara-se para as matérias estratégicas, como o minério de ferro, o manganês e a borracha vegetal. Os Estados Unidos precisavam garantir o fornecimento da borracha, fundamental para a fabricação dos materiais bélicos.

“As conversações político-estratégicas foram conduzidas pelo próprio chefe da delegação norte-americana à conferência, o subsecretário de Estado, Sumner Welles, que manteve contatos diretos com o presidente Vargas. As conversações em torno dos materiais estratégicos foram conduzidas por Warren Pierson. Em 1941, o objetivo principal de Pierson tinha sido o de cortar as fontes de suprimento de matérias-primas do Eixo. Em 1942, porém, os Aliados (americanos e britânicos) necessitavam de maneira crucial dessas matérias-primas, especialmente borracha, manganês, tungstênio e ferro. Por isso, o governo americano considerou essas conversações da “mais alta importância para o esforço de guerra anglo-americano”. Entre outros dados, Pierson apresentou um plano que dispunha sobre a abertura da mina de Itabira e melhoramentos ferroviários para transportar o minério de ferro para o porto de Vitória, além de um empréstimo para: 1) capacitar a Central do Brasil a transportar grandes quantidades de manganês e minério de ferro para o porto do Rio de Janeiro; 2) realizar melhoramentos nesse porto. O governo brasileiro concordou com o plano, mas condicionou-o ao sucesso de conversações concretas em torno do fornecimento de armas ao Brasil”.

Ao final da Conferência dos Chanceleres, governo brasileiro anunciou o rompimento de relações diplomáticas e comerciais com a Alemanha e a Itália. Logo em seguida, Getúlio Vargas enviou o ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa, a Washington, a fim de discutir as questões militares e econômicas concretas, decorrentes das conversações havidas no Rio de Janeiro, e estabelecer os acordos correspondentes.

A missão de Sousa Costa em Washington era tentar reduzir os prazos de entrega do equipamento militar e econômico pretendido pelo governo brasileiro, discutir assuntos econômico-financeiros, assim como estabelecer as melhores condições para o fluxo de matérias-primas industriais para o Brasil. A maior dificuldade a ser superada era a desconfiança dos militares norte-americanos, que receavam em conceder prioridade ao material solicitado pelo Brasil, quer pela fama que os altos círculos militares do Rio de Janeiro tinham de ser pró-alemães, quanto pela recusa brasileira em permitir a presença de tropas norte-americanas nas bases do Nordeste.

“O impasse foi vencido mediante um acordo pelo qual os Estados Unidos elevariam para duzentos milhões de dólares o valor do armamento e munições que entregariam ao Brasil pelo Lend-Lease Act (Lei de Empréstimo e Arrendamento), que financiava a entrega das armas e munições contra o pagamento de apenas 35% do valor total, em seis anos de prazo. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro concordava em conceder novas facilidades ao Exército e Marinha dos EUA e permitir a presença de numeroso contingente norte-americano (técnicos e soldados) no Nordeste”.

Tão logo as arestas terem sido aparadas, os acordos econômicos foram firmados.

Fontes:

Acordo sobre Borracha celebrado, por troca de notas, entre o Brasil e os Estados Unidos da América – SCI.

Nilda Nazaré Pereira de Oliveira. ANPUH – Simpósio Nacional de História – João Pessoa, 2003.

A Luta pela Borracha no Brasil – Warren DeanVale.

A Batalha da Borracha na Segunda Guerra Mundial  e Suas Consequências para o  Vale Amazônico – Pedro Martinello.

Associação Comercial do Amazonas e Associação Comercial do Pará, 1943.

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