Fordlândia, a primeira “cidade empresa” edificada na Amazônia

Em 25 de abril de 2017 às 08:00.

compartilhe

Ford poderia ter obtido gratuitamente a concessão de 1 milhão de hectares (equivalente ao tamanho da cidade de Goiânia) no estado do Pará, pois, em 1925, o governador Dionísio Bentes prometia doações a quem se dispusesse cultivar seringueiras. Villares se dispôs e assim  conseguiu as suas terras.

O esquema de Villares envolvia políticos, diplomatas e funcionários do alto escalão da fábrica. Todos mancomunados imbuídos de um único propósito: agarrar Ford não pela lucratividade do empreendimento, mas sim por sua filosofia de levar a modernização para todo o planeta, convencendo-o que ele poderia mudar o quadro social e econômico da Amazônia, devastada pelo fim da hegemonia da produção de borracha. Foi com esse cenário inteiramente desconhecido por Ford, que ele enviou uma comitiva de funcionários ao Pará. Villares os aguardou e recepcionou. Seus planos foram cumpridos à risca, não lhe interessava mostrar outras propriedades senão as suas, distribuídas ao longo do Baixo Vale do rio Tapajós.

Para que o golpe da venda das terras desse certo, Blakeley teria convencido Henry Ford de que “devido às sementes de seringueiras que originaram as extensas plantações do Oriente terem saído do vale do Tapajós, produzir borracha naquela região seria fácil, pois estabeleceria sua plantation no berço natural das seringueiras”. Essa hipótese ganha veracidade quando se verifica que na relação inicial dos técnicos que vieram para a implantação da cidade e do seringal, estavam engenheiros, médicos, contabilistas, eletricistas, desenhistas, mas ninguém ligado ao setor agrícola.

A Fordlândia, portanto, nasceu a partir de um golpe aplicado pelo brasileiro Villares no americano Ford, que para ele vendeu por 125 mil dólares, 1 milhão de hectares de um terreno de relevo muito acidentado e impróprio para o cultivo de seringueiras, área que um ano antes havia recebido gratuitamente do governo paraense. Além disso, naquela altura, havia uma outra desvantagem, o Rio Tapajós não era navegável para navios de maior porte durante o período da vazante, ou seja, durante quase 6 meses do ano a produção de borracha não poderia ser escoada. O terreno vendido por Villares aonde veio a ser fundada a Fordlândia, definitivamente, não era apropriado à plantação de seringais.

A outra metade da área da Fordlândia era constituída por terras públicas e foi concedida, pelo governo paraense, sem ônus. A esse respeito, aliás, muitas críticas foram feitas pelos jornais de tendência nacionalista tanto da capital do país quanto do estado do Pará, apesar disso, a concessão foi ratificada pelo legislativo estadual em setembro de 1927.

Adquirida a terra localizada à margem direita do Rio Tapajós, na bacia do Rio Cupari, dentro dos municípios de Aveiro e Itaituba, numa comunidade denominada Boa Vista, o passo seguinte foi construir a cidade que iria dar suporte à plantation.

No ano seguinte, Ford enviou suprimentos e funcionários à Amazônia com a missão de criar um subúrbio americano no coração da floresta. Em dezembro de 1928, dois navios chegaram a Fordlândia – Lake Ormoc e Lake Farge – trazendo os componentes que estruturariam a nova cidade. Coube ao americano Einar Oxholm dirigir os operários brasileiros no imediato trabalho de construção daquela que, em curto espaço de tempo, iria se transformar na terceira mais importante cidade da Amazônia.

Estrategicamente a caixa d’água, símbolo da presença do Ford na Amazônia, trazida encaixotada dos Estados Unidos, foi montada e colocada em local que pudesse ser vista por todos que lá atracassem. A “Fordlândia seria a primeira “cidade empresa” edificada na Amazônia, criada para garantir a lógica produtiva dos grandes projetos, provocando verdadeira revolução na realidade local e regional, transformando as relações de trabalho e a vida social dos seus habitantes”.

Dentro de um curto período de tempo, já haviam sido construídas vilas de casas para funcionários, administradores e visitantes, luz elétrica, água encanada, restaurante, porto, hidrantes nas ruas, depósitos, oficinas mecânicas, campo de futebol, igreja, emprego e um hospital muito bem aparelhado, tanto que nele foi realizado o primeiro transplante de pele no Brasil. Havia, ainda, coisas extras como piscinas e até um cinema, condizentes com a sólida crença de Ford de que “o lazer é uma parte essencial da economia”.

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *