Dossiê: “A Construção dos heróis”: entre o mártir e o imperador

Em 29 de março de 2016 às 08:00.

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Neste dossiê, conheceremos personagens que ao longo de nossa história ajudaram na construção de nossa identidade nacional. Um panteão de heróis brasileiros que após a independência e o início do período republicano brasileiro foram sacrificados em prol a emancipação política e econômica do país.

A construção da nacionalidade brasileira é o tema principal desta matéria, personagens com D.Pedro I, Duque de Caxias, General Osório, Bento Gonçalves e Tiradentes, nos ajudam a compreender em suas trajetórias de vida um pouco mais sobre a História do nosso país.

Por Weder Ferreira da Silva

Se durante os festejos dos 150 anos de emancipação política do Brasil, em plena ditadura civil­militar, se tentou novamente elevar a imagem de D. Pedro I à condição de principal protagonista da independência do país, durante boa parte do século XIX travou­se na imprensa brasileira uma verdadeira batalha para definir em quem deveria repousar o título de principal herói nacional.

A multidão que acorreu à região portuária do Rio de Janeiro no 21 de abril de 1972 para assistir à chegada da esquadra que trazia ao Brasil os restos mortais de D. Pedro I, ou que compareceu aos cinemas para aplaudir o filme Independência ou morte, no qual o galã Tarcísio Meira interpretava um altivo príncipe libertador, talvez não pudesse imaginar que, há mais de um século, a memória da mesma personagem fora objeto de intensas polêmicas na imprensa política do Brasil Império. Em março de 1862, durante as festividades da inauguração da estátua equestre de D. Pedro I na antiga praça da Constituição, atual praça Tiradentes, muitos jornais manifestavam-se contrários ao monumento a ponto de rotulá-lo de “mentira de bronze”.

A imagem de D. Pedro I recebeu, ao longo do tempo, diversas interpretações. Personagem incontornável da história nacional, o primeiro imperador do Brasil ainda hoje desperta não apenas o interesse acadêmico como também o do grande público pela complexidade de sua trajetória, marcada por peripécias e pela grande influência que exerceu nas duas margens do oceano Atlântico.

Se compararmos o percurso da formação das identidades nacionais dos países americanos que emergiram da fragmentação do império espanhol com a realidade experimentada pelo Brasil no decurso do século XIX, observa­se que para este último havia um obstáculo maior ao edifício da identidade nacional e da construção do grande herói nacional.

Ao herdarem o regime político e o território da antiga América portuguesa, os intelectuais brasileiros tiveram que se confrontar com as ambivalências de um processo de independência que tem na figura de um príncipe português seu principal protagonista. Além disso, a geração de 1830, que participou ativamente do movimento que culminou na abdicação do Trono Imperial, refutava a imagem heroica de D. Pedro I representada pela estátua equestre, por considerá­lo um tirano que não media esforços para perseguir e aniquilar seus inimigos políticos, como o fez durante a dissolução da promulgar a primeira constituição do Brasil.

Neste sentido, o 7 de Setembro de 1822 constituiu­se num constrangimento que dividiu a classe dirigente brasileira, sobretudo durante a década de 1860, quando a imprensa política saquarema (conservadora) e luzia (liberal) debateu de forma apaixonada a questão sobre a quem deveriam ser concedidos os louros da nossa emancipação política. No epicentro das discussões encontrava­se a controvertida inauguração da estátua equestre de D. Pedro I.

Quarenta anos após a proclamação da independência política do Brasil, erguia­se na antiga praça do Rocio, no centro do Rio de Janeiro, a imponente estátua equestre em homenagem a D. Pedro I, falecido em 24 de setembro de 1834 no mesmo quarto em que nascera, no palácio de Queluz, em Portugal. De todas as estátuas inauguradas no Brasil homenageado, poucas causaram tantas controvérsias quanto a da praça carioca que hoje leva o nome do mártir da Inconfidência.