Bacia Amazônica: As diferentes pretensões do Brasil e dos EUA

Em 1 de novembro de 2017 às 08:00.

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Os Acordos de Washington pouco a pouco iam sendo traçados e, com isso, escancarando as enormes diferenças entre o que Brasil e Estados Unidos pretendiam em relação ao programa a ser desenvolvido no Vale Amazônico.

Do lado brasileiro, escolado com a experiência adquirida nos revezes colhidos quando da crise e da depressão de mais de três décadas, defendia-se um programa de desenvolvimento de longa cobertura, acompanhado de medidas de alcance perpétuo. A convicção era tanta e a inquietação tamanha, que algumas autoridades regionais não se furtavam em deixa-las explicitas.  Álvaro Maia, então interventor do Amazonas, ao saudar o embaixador americano, em visita a Manaus, assim se expressou: “Sinto-me honrado em render a V. Excia. as expressões de nossa admiração, associando-me pelos homens da Bacia Amazônica, às homenagens justamente prestadas aqui, pelas classes conservadoras do país, ao embaixador que, pela compreensão dos problemas continentais e por uma intensa irradiação pessoal, não está vendo apenas a transitoriedade do presente, mas a segurança e o alicerce do amanhã. Não se trata apenas da contribuição para a vitória a que todos nos sentimos obrigados por imposição de sangue, compromissos coletivos e crença moral, e sim dos princípios assecuratórios de uma nova era fartamente documentada nas conferências pan-americanas, desde o instante imortal, ainda nas penumbras das guerras coloniais, em que imaginou o gênio Bolívar”.

O empresário santista Valentim Fernandes Bouças, executor da alta política do governo Vargas no campo financeiro e grande acionista do Banco de Crédito da Borracha, assim sentenciou: “é de todo sabido como e porque fomos derrotados na competição internacional, quais as causas internas e externas que levaram à ruína a produção da borracha, ruína que trouxe consigo a decadência de quase dois terços do território nacional. Aferrados a um imediatismo imprudente e antipatriótico, embalados pelos sonhos de lucros fabulosos, pela crença displicente num Eldorado perpétuo, cegaram-se todos os olhos à realidade, com o seu cortejo de desilusões até um despertar impotente diante dos fatos consumados que o egoísmo não soubera prever”. Do lado brasileiro, portanto, havia preocupações que não se repetisse os mesmos desastrosos erros do ciclo da borracha, mas que se pensasse em um programa perenal.

Do lado americano, pressionados pela urgência que uma guerra reclama e a carência de borracha a ameaçar não apenas seu esforço de guerra, mas a sua indústria, não enxergava como prioridade o programa de desenvolvimento defendido pelos brasileiros. O interesse dos americanos era, tão somente, aumentar a produção de borracha. Havia a chancela da urgência e do imediatismo. Imediatismo e oportunismo que “se manifestaram desde o início das negociações dos Acordos de Washington (março de 1942) quando Nelson Rockefeller quis impor a todo custo, à Missão brasileira, seu programa de desenvolvimento da Bacia Amazônica. Não fosse a veemente oposição de Bouças, este plano sinistro, com objetivos semelhantes aos de uma companhia de cartel, certamente nos seria impingido”.

Aos americanos, portanto, interessava a máxima produtividade no menor espaço de tempo. Isso ficou bem patente na filosofia traçada pela Rubber Development Corportion, substituta da Rubber Reserve Company: a) “As Nações Unidas necessitam, agora mais que nunca, da borracha natural para usar em suas manufaturas ou em seus artigos de combate ou para misturar com a borracha sintética; b) A Rubber Development Corporation deveria se concentrar no fundamental, isto é, somente naquilo que diretamente concorresse para a aquisição de um montante cada vez maior de borracha natural e eliminar o não essencial que anteriormente ocupou uma vasta porção do nosso tempo e energias”.

A materialização dessa filosofia deu-se quando, em fevereiro de 1944, os Estados Unidos deram à borracha um “prêmio suplementar” de USD 0,33, 1/3 ao preço básico de USD 0,45. Em contrapartida, exigiram que se retirassem incondicionalmente do financiamento de todos os projetos que tinham participação na Amazônia, tais encargos passariam a ser de inteira responsabilidade do governo brasileiro.

Quando da criação do Banco de Crédito da Borracha, um dos objetivos do presidente Getúlio Vargas era fomentar um fundo de reserva para o desenvolvimento do Vale Amazônico, mas os americanos e o presidente Vargas tinham visões de desenvolvimento diametralmente opostas, como se pode conferir na afirmação de Douglas H. Allen, presidente da Rubber Development Corporation – RDC: “ Em conexão com a utilização do fundo para o desenvolvimento, queremos enfatizar que nosso principal interesse se prende às medidas designadas para provocar um estímulo imediato da produção antes que visar os projetos de cultivo de longo prazo […], mas talvez não seja oportuno nem sábio se opor ao uso de uma parte deste fundo para tais projetos mais duradouros, particularmente tendo em vista o interesse do presidente Vargas em tais planos”.

“Portanto, está mais que claro nestes depoimentos que os americanos não se interessavam nem pelo desenvolvimento da Amazônia e nem pelo bem-estar da população, embora alardeassem isso. O que de fato lhes interessava era o aumento da produção da borracha num lapso de tempo sempre menor”.

A propósito desses desacertos e discrepâncias o professor Samuel Benchimol assim escreveu em sua consagrada obra “A Amazônia: um pouco antes e além-depois”: “A segunda batalha iniciava-se assim, sob o signo da discórdia e do desentendimento… Iríamos assistir no seu desenrolar, a repetição dos mesmos erros e do mesmo drama, sob o comando agora de novas siglas e órgãos que passaram a dirigir as operações de guerra da selva, sob a liderança de uma nova tecnocracia que começou a surgir para depois empolgar o processo decisório do nosso ulterior desenvolvimento”.

 É discutível se essa discordância de pontos de vista era ou não proposital ou mal intencionada, afinal, os americanos estavam vivendo uma guerra, na qual “todos os esforços e empreendimentos deviam ser subordinados ou mesmo justificado pelo esforço bélico. Deviam inferir, porém, que aos brasileiros cabia zelar pelos próprios interesses nacionais. Infelizmente, os brasileiros que de início se mostravam tão ciosos da própria soberania, foram aos poucos arrefecendo tais brios, oprimidos, talvez, seja pelo peso e extensão do conflito, seja pelo crescimento constante da grandeza e potência dos EUA”.

Fonte:  A Batalha da Borracha na Segunda Guerra Mundial e Suas Consequências Para o Vale Amazônico – Pedro Martinello

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