A Batalha da Borracha

Em 5 de dezembro de 2017 às 08:00.

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Para dar cumprimento aos Acordos de Washington, foram feitas diversas campanhas cívicas, dentre elas, a “Batalha da Borracha”. As campanhas deveriam “conscientizar e mobilizar a sociedade brasileira para o conflito”. Respondendo ao apelo da propaganda, aos incentivos governamentais e, em decorrência da seca de 1942, cerca de 50 mil trabalhadores nordestinos se dispuseram a enfrentar a batalha da produção.

A propósito dessa gigantesca migração o jornal A Noite, de Belém, do dia 7 de janeiro de 1943, publicou que o Sr. Paulo Assis Ribeiro, chefe do serviço de mobilização dos trabalhadores para a Amazônia esteve em contato com o Banco da Borracha e com o Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará – SNAPP – e com eles trocou ideia sobre a colocação desses 50.000 trabalhadores nos seringais da Amazônia. Desses encontros ficou resolvido que o recrutamento de novos seringueiros passaria a ser processado por intermédio do Serviço de Mobilização e que a sua localização nos seringais passaria a ser feita de acordo com as indicações do Banco da Borracha, com o qual os seringalistas aviadores deveriam se entender diretamente ou por intermédio das agências de Santarém, Manaus, Porto Velho, Guajará Mirim e Rio Branco, declarando suas necessidades sobre o pessoal, bem como sobre o material, a fim de se intensificar, imediatamente, a produção.   A previsão era que, dentro de três meses, passariam por Belém 50.000 homens rumo ao interior da Amazônia, sendo 12.000 em fevereiro, 15.000 em março e 23.000 em abril. Os nordestinos seriam transportados em caminhões, trens de ferro e aviões. Registra o periódico que 2.500 caminhões já estavam aparelhados para o transporte dos homens até Terezina, capital do Piauí. As famílias dos seringueiros iriam depois.

Os trabalhadores nordestinos acreditaram que conseguiriam refazer suas vidas em condições mais seguras, pois, além de bancar os custos financeiros da viagem para a Amazônia, o Estado prometia empreender novos planos de colonização da região. Registre-se que o imaginário sobre a Amazônia era constituído de elementos contraditórios, onde sobressaía a imagem de uma floresta verde e pujante, misto de Éden e Inferno Verde. “Para o migrante nordestino, a Amazônia era marcada por dois elementos que, ao contrário da escassez nordestina, havia em fartura: água e terra”.

“Ao elaborarem um discurso que justificava as políticas públicas levadas a efeito na Amazônia, durante o período da Segunda Guerra Mundial, os ideólogos do Estado Novo buscaram conferir um sentido menos conjuntural aos seus projetos. Visavam apresentar tais medidas como um feito que redimiria a Amazônia do descaso governamental que a região vinha sofrendo desde a decadência da borracha. Ao mesmo tempo, apresentavam a campanha como uma solução para a questão dos camponeses nordestinos, que além de ganharem dinheiro, teriam facilidade para conseguir terras. Para tanto, lançaram mão, discursivamente, da “Marcha para o Oeste”, assim, a “Batalha da Borracha” passou a fazer parte da campanha bandeirante que visava integrar os sertões ao corpo da Nação”.

“Para o Estado Novo, o Brasil ainda não estava geograficamente integrado. Urgia ocupar o sertão; daí as campanhas da “Marcha para o Oeste” e da colonização da Amazônia. Ao alardear a fartura de terras sem donos, o regime atraía muitos migrantes que esperavam encontrar a terra e a liberdade de nela reconstruir suas vidas, tal como vinha acontecendo desde os anos áureos da borracha”.

“Os incentivos para a migração começaram já em 1940, anteriores, portanto, aos Acordos de Washington, na forma de distribuição de passagens gratuitas para quem se dispusesse a migrar para a Amazônia. Ao mesmo tempo, resolvia-se em parte, e de forma bastante tradicional, o problema da seca que novamente grassava pelo sertão do Nordeste. Por outro lado, supria-se de mão-de-obra barata um setor da economia que estava em crise. Objetivava-se, pelos Acordos de Washington, intensificar a produção de borracha, a ponto de suprir a necessidade bélica dos aliados, comprometida com o domínio do Japão sobre as regiões produtoras na Malásia”.

“Pensava-se poder incrementar a produção para chegar a cem mil toneladas, pretensão que logo se percebeu impossível de ser concretizada, devido principalmente ao pouco interesse dos seringalistas em abrir mão do controle sobre o sistema extrativista. Mas os recursos financeiros, colocados à disposição pelos Estados Unidos para a campanha da borracha, visavam principalmente aumentar a produção de forma extensiva, reincorporando os seringais abandonados desde o final do boom da borracha. Para tanto seria necessário aumentar a mão-de-obra, via migração. Assim, montou-se pelo Nordeste e pela Amazônia uma rede de arregimentação de trabalhadores que se dispusessem a ir para os seringais, com a construção de hospedarias com serviços médicos. Fabricou-se também, na Amazônia, um sistema de abastecimentos (papel que coube à Rubber Development Corporation, pela facilidade de importação dos Estados Unidos) e uma rede de transporte para levar os nordestinos migrantes para os seringais. Além de todo esse aparato, elaborou-se uma propaganda em que se prometia ao migrante amparo estatal, através da assinatura de um contrato de trabalho que, em linhas gerais, atacava o sistema de aviamento, responsável pela escravidão do seringueiro ao barracão, e um auxílio monetário para a família que ficava, além de dispensar todas as despesas com a viagem.

A elite amazônica que controlava a produção e comercialização da borracha, no entanto, não aderiu de pronto à campanha, apesar do incentivo à produção por preços mais altos do que os praticados no mercado internacional. A resistência maior se voltava contra a regulação do Estado, através do Banco de Crédito da Borracha e da Rubber Development Corporation, que controlavam, respectivamente, a comercialização da borracha e o abastecimento dos seringais, alijando as casas comerciais do lucrativo sistema de aviamento.

Quanto aos migrantes nordestinos, a preocupação maior era mascarar as reais condições de vida nos seringais e continuar a atrair novos contingentes de trabalhadores, uma vez que a escassez de mão-de-obra tomava-se flagrante devido à alta mortalidade e às constantes fugas. Por outro lado, a única possibilidade de aumentar a produção, mantido o sistema extrativista — uma vez que os seringais encontravam-se abandonados —, era via extensão da mão-de-obra. De fato, para o trabalhador que tinha migrado restava tentar sobreviver, enfrentando não só as agruras da selva amazônica e o arcaico sistema de aviamento implantado nos seringais desde o período áureo da borracha, mas tendo também que reelaborar substancialmente seus referenciais culturais, espaciais e temporais. Discursivamente, contudo, apresentava-se o problema como parte de um plano global de colonização da Amazônia — um programa de desenvolvimento da região num contexto de economia de guerra e de crise da produção da borracha. Os nordestinos que para lá migrassem seriam os “soldados do trabalho”, contribuindo para a conquista e ocupação de uma grande região esquecida pelos poderes públicos, incorporando-a definitivamente ao corpo da Nação”.

Fontes:

Diário Oficial do Estado do Amazonas, ano L, NÚMERO 14.225;

Pedro martinello, A Batalha da Borracha na Segunda Guerra Mundial;

Isabel Cristina Martins Guillen, A BATALHA DA BORRACHA: PROPAGANDA POLÍTICA E MIGRAÇÃO NORDESTINA PARA A AMAZÔNIA DURANTE O ESTADO NOVO – Fundação Joaquim Nabuco.

 

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