A VIDA NO DESERTO

Em 30 de abril de 2019 às 08:54, por Gilson Gil.

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Muitas vezes, se pensa que a vida pode transcorrer tranquilamente, sem incidentes. Especialmente na gestão pública, se crê que as medidas podem ser tomadas em um horizonte neutro, de papel em branco. Há dificuldades em se acreditar que a vida continua e que ninguém, seja novo ou velho, irá agir de forma impune, sem críticas.

Falo em um horizonte de acontecimentos porque a vida está continuando e em ritmo acelerado. É a consulta pública motivada pela OMC, que pode prejudicar o PIM, o decreto dos concentrados, que continua ativo, a discussão sobre a flexibilização dos PPBs, que não acontece, o CBA, esse eterno adormecido, enfim, são vários impasses que permanecem. E agora, no âmbito estadual, abriu-se a temporada dos debates salariais, com seu inevitável desdobramento, as negociações e greves. O governo mantém o discurso da austeridade em relação à LRF, dizendo que não pode dar aumentos, que “até gostaria”, mas não pode etc… Algumas categorias recebem reposições, outras não, o que gera burburinho e desconforto para quem não recebe a remuneração pleiteada. Nisso tudo, as oposições crescem e se articulam. As denúncias surgem, se avolumam e ocupam espaço dos noticiários.

E há o espaço municipal. Manaus enfrenta inúmeros problemas: desde os infinitos buracos, que surgem diariamente, o trânsito caótico, o abandono urbano, o centro sucateado, até as supostas obras que supostamente irão melhorar a mobilidade urbana. Contudo, o horizonte municipal é o das eleições para a prefeitura. Todos os atos, a favor ou contra, são direcionados para essa meta. Obras começam a surgir, de forma redentora, com recursos que antes não pareciam existir. Promessas, como o BRT ou a Cidade Inteligente, somem no ar, mostrando, como diria o velho Marx, que “tudo que é sólido se desmancha no ar”.

Temos de pensar que a eleição de 2018 trouxe novidades. Novos grupos, novos arranjos e um cenário inovador na direção do país e do estado. Todavia, os desafios não pararam de acontecer. Quem achava que o “novo” poderia aprender a governar livremente, sem empecilhos, se enganou. O cenário macroeconômico continua ruim – desemprego, pessimismo, déficit público, reformas contestáveis, falta de investimentos etc – e a vida segue, sem tempo para olharmos no VAR (tão em voga no esporte).

Finalizando, é tempo de pensar que a mudança e a instabilidade são o costumeiro na vida e não o incomum. Governar é enfrentar problemas. Aturar greves, protestos, buracos e denúncias é o rotineiro. Se isso paralisar os governantes, deixando-os atônitos, então a situação é grave. O Amazonas e Manaus estão atravessando um deserto. Se não houver coragem, inovação e competência, esse deserto irá ficar cada vez mais árido. Viver no deserto é duro, mas é preciso…

 

 

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.