A SERVENTIA DO OVO (“O ovo é meu”!)

Em 28 de agosto de 2018 às 10:43, por Lúcio Menezes.

compartilhe

No ano em que nós, personagens desta crônica, completamos cinquenta anos (2006), elegemos uma data, reunimo-nos e comemoramos com direito a tartarugada, samba, choro e tudo mais. O convite do evento trazia ilustrados um muro e uma ponte, numa alusão à música Pesadelo, gravada pelo grupo musical MPB4, e a distancia geográfica que separa os que aqui residem dos que fora moram.

A partir daquele evento o Maneca passou a nos rotular de Ponteunenses. Os Ponteunenses “imortais” são por ordem alfabética: Antônio Cláudio (MACA), Ariosto (BIRO), Claudio Barros Gomes (BARROSO), Hamilton (BIDE), José Wilson (PARDAL), eu, Manoel Ribeiro (MANECA) e Norton César (BALACO). Há também os Ponteunenses mortais: Adalberto (Carneiro), Carlinhos (METOX), Sergio (LOBATO), Arnaldo Possidônio (LILIO), Hermes Cantanhede (GILDO), Armando Viana (Mandoca), Frederico (Fedê) e outros menos presentes naqueles anos dourados.

Na primeira metade dos anos 1970, sempre às sextas-feiras, deixávamos as namoradas – quem as tinha – mais cedo, marcávamos um local de encontro, geralmente na porta da casa do Ariosto, e seguíamos, portando os instrumentos musicais necessários, rumo ao bar eleito. Não lembro o critério da eleição.

Não seria pretensão dizer que fomos os pioneiros a levar as rodadas de samba para os bares da nossa cidade. Se essas já existiam, eram profissionais, as nossas eram por diversão, sem a obrigação perfeccionista, diletantismo puro.  

Castelinho, Mineirão, Telhadão, Caxuxa, Tarumã e o Bar do CEASA, eram os bares preferidos, todos infelizmente já não existem mais.  

Depois da cantoria, que normalmente se estendia até as 03:30h da manhã, era de lei “rebater”, ou completar a cota estomacal, com alguns kikões (hot dogs) com muita maionese e queijo ralado ou saborear uma caldeirada de tambaqui ou tucunaré. A Peixaria Guadalajara, de propriedade da Sabá, Restaurante São Francisco, Canto da Peixada, Bar do Tarumã e Panorama, tinham a nossa predileção.

Madrugada, quase cinco horas de violão, batucada, canto e cerveja, arrebentavam as cordas vocais (e haja Colubiazol!), potencializavam a emissão de feromônio e a chegada da fome.

A típica caldeira amazonense requer que o peixe esteja tratado – sem escamas e sem vísceras, cortada em postas e agora também na versão sem espinhas -, limpo e lavado com limão e água corrente para tirar o pitiú. Deixa-se o peixe descansando na vinha-d ‘alhos por vinte minutos para o gosto entranhar (pimenta do reino, cheiros-verdes, limão e sal). Refogam-se a cebola, o pimentão (sem sementes) e o tomate (sem sementes) todos em rodelas, alho picado, azeite e sal a gosto. Quando a cebola murcha acrescenta-se água, o peixe em postas (cabeça, meio e rabo), tampa-se por mais ou menos trinta minutos em fogo médio, tendo o cuidado para não deixar o peixe esfarelar. Nos últimos cinco minutos acrescentam-se duas batatas pré-cozidas em água e sal. Para finalizar despeja-se o restante do maço de cheiros-verdes picado (coentro, cebolinha e chicória). Acompanha arroz branco, farinha e pirão feito com o caldo do peixe e farinha de mandioca. Uma delícia! Eu não como se não tiver pimenta murupi e azeite à mesa.

O azeite, indispensável na dieta mediterrânea e na culinária contemporânea, caiu no gosto popular, agora, ovo na caldeirada… Pra mim é como comer pato no tucupi com batatas, alface e quiabo; ou sushi com feijão preto, sarapatel e joelho de porco. Valei-me!

O ovo da caldeirada era o único objeto de disputa entre os Ponteunenses. O protagonista cativo era o Ariosto, outros se revezavam. No episódio que passo a narrar, Ariosto dividiu a cena com o imortal Wilson e o mortal Hermes, o Gildo, ambos também chegados a um ovo.

A discussão começou ainda no Castelinho. Ariosto, como de hábito, foi o primeiro a gritar: “O ovo é meu”! Wilson ponderou: “Então vamos bandeá-lo ao meio, porque dele eu não abro mão”.  “Bandeá-lo ao meio é o meu ovo esquerdo”! Retrucou Gildo, com um bafo de cerveja de matar a mãe do guarda – não tenho a menor ideia do por que da fixação pelo ovo esquerdo e tampouco pela mãe do guarda, enfim…

Quando chegamos à Peixaria a disputa já estava declarada, não havia acordo, os três queriam ter direito ao ovo esquerdo do Gildo, quero dizer, ao ovo da galinha, um gosto sinistro (no idioma italiano sinistro significa esquerdo).

Garçom! Mesa pra nove.

Gildo, concentrado, tinha uma vantagem sobre os demais, seus óculos fundos de garrafa enxergavam a superfície e o fundo da panela com mais rapidez que os demais concorrentes. Ariosto, sem disfarce, pinicava nervosamente a mesa com o garfo. Wilson mexia-se na cadeira inquietamente ao mesmo tempo em que arregalava os olhos deixando à mostra as duas escleras, vulgarmente conhecidas como o branco do olho, brancas como dois ovos cozidos (justo a quantidade de ovos que faltava).   

A primeira e mais simples solução para o impasse seria aumentar para três a quantidade de ovos. Essa opção estava descartada, pois implicaria em custo adicional e extrapolaria as macérrimas finanças do fim de noite Ponteunense. A segunda seria o Maca, dono de granja, doar os dois ovos faltantes, mas, granjeiro da gema, deixava às claras sua indiferença com aquela paranoia. Talvez porque sua dieta diária contivesse ovo, e isso deixa qualquer um com os ovos murchos. Talvez porque já tivesse vendido ovos o dia inteiro e isso deixa qualquer um com os ovos chocos. A terceira e mais drástica envolvia um segundo doador, o Barroso, dono dos dois maiores ovos, ovos que ele encubava em uma sambada cueca supermacho (bons tempos aqueles em que cueca servia apenas para guardar um pinto e dois ovos). Mas ao saber daquela possível solução, berrou: “Meus ovos um cacete! Quem quiser que doe os seus”. Essa hipótese, portanto, também não vingaria.

Lá vem ela! A caldeirada chegou! Anunciou o Maneca com a fome de quem acaba de chegar do curso de sobrevivência na selva do CIGS. Estava instalado o ovicídio. Os três, feito lobos famintos, investiram inescrupulosamente sobre a panela quente. Prevaleceu a mão, digamos assim: bem nutrida, espaçosa e ágil do Gildo. O saldo da sua conquista foi uma queimadura de segundo grau. Nada que óleo de cozinha ou manteiga não resolvesse. As estratégias dos demais concorrentes revelaram-se ineficazes. Ariosto foi lento e teve que recolher o garfo evitando uma tragédia maior, restou-lhe chupar o garfo. Wilson optou por procurar o ovo no pirão – a fome e o álcool dão asas à imaginação, ele apostou que a Sabá pudesse enganar a todos, menos a ele, e colocar, pela primeira vez na história daquela peixaria, o ovo no pirão e não no caldo. Que tal?

Ponteunense que se preza é passado na casca do ovo, quero dizer do alho, e sabe ser um bom perdedor. Os dois partiram então para o plano B, de batata, cada um ficou com uma das duas que compunham a iguaria. A cena que não me sai da lembrança é a dos vencidos comendo o ovo com os olhos e o Gildo com a boca.

Na volta pra casa a comemoração do Gildo saiu pela cauda. Norton e Maca botaram suas cabeças pra fora da janela do fusca e se safaram. Hamilton, que dividia comigo e com o Gildo a poltrona traseira, acabou uma caixa de fósforos, pra mim sobrou tapar o nariz com os dedos, quase explodo meus pulmões. Estava revelada a serventia do ovo.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.