A Corrida da Rua

Em 12 de setembro de 2017 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Ninguém dormiu direito na véspera daquele feriado, a ansiedade tomou conta dos competidores inscritos na 1ª e única “Corrida da Rua”. Não sei quem foi o idealizador, mas a aprovação e adesão foi unânime – definitivamente a natureza humana acolhe a disputa como algo vital. Ora, era a oportunidade única de provar e consagrar, de uma vez por todas, aqueles que seriam aclamados os “Ícaros da Rua” – considerávamos da “Rua” quem morava no quadrilátero: Avenida Epaminondas, Rua Dez de Julho, Avenida Eduardo Ribeiro e Rua Saldanha Marinho. O coração do quadrilátero hospedava parte das Ruas Lobo d’Almada, 24 de Maio, Joaquim Sarmento e José Clemente. Como dormir antes de um evento daquela magnitude? Impossível.

Teve até quem “treinasse” na noite anterior na inocente ilusão de que um treino às vésperas do evento pudesse auferir vantagem sobre os demais concorrentes. Os registros contábeis do ano de 1968, da Farmácia Nunes e da Drogaria Rosas, demonstram o recorde de vendas, em um dia, do milagroso   Sebo de Holanda – um sebo de carneiro que, dentre outras utilidades, auxilia no aquecimento muscular com a promessa de melhoria para as articulações. O cheiro do Sebo de Holanda é inconfundível, para mim é o cheiro perdido dos grandes e inesquecíveis clássicos do futebol amazonense, o cheiro que eu inalava quando ia torcer pelo Naça no Parque Amazonense e no Estádio da Colina, levado pelo meu papai ou pelo tio Ruy Holanda; cheiro que, nos intervalos dos jogos, era substituído pelo odor apetitoso do “Disco Voador” do “Seo” Vasco, o melhor sanduba que eu já comi em toda a minha vida. Hummmm! Aquele pão redondo recheado de picadinho com batata, molhadinho, levemente prensado e aquecido numa forma de ferro. Inigualável!

Tudo ficou acertado duas noites antes, lá na esquina do Bololô. A divisão em dois grupos distintos, os mais velhos e os mais novos, foi um critério justo. O grupo dos mais velhos tinha o Bujuga, Álvaro Capiroto, Fábio Biváqua (pombo), Geraldo Rocha (Chapeleta) e Demóstenes (Dedé) como os mais bem cotados na Bolsa de Apostas. No grupo dos mais novos  Ariosto, Frederico Biváqua, Washington e Ivan Porto disparavam nas pesquisas de opinião. Eu, meu irmão Cadinho, os Cordeiro, Camilo Gil, Onofre Tadeu, Cliderbal, Chiquinho e outros meninos fazíamos parte da corrida preliminar, ou seja, a corrida dos mais novos, mas não tínhamos qualquer chance, só se desse uma zebra jurássica.

O que menos importava eram os prêmios: um copo de vidro (Nadir Figueiredo) cheio de guaraná Baré com uma pedra de gelo boiando e um pião de madeira velho e todo pinicado de tão usado, uma paca! (a carne da paca é uma das carnes mais sem graça que eu já comi, assim, troquei a expressão porcaria por paca). O bom era chegar a casa e contar pra família que tinha sido o campeão, além da pavulagem de se mostrar pela “Rua” se achando o pé de vento, é claro.

Tudo pronto para a largada da corrida preliminar, o circuito era o mesmo para os dois grupos, uma volta em torno do quarteirão da Santa Casa, com saída e chegada na esquina do Bar Caldeira, que na época ainda não tinha esse nome, era o bar do português “Seo” Araújo, antecessor da Dona Maria, esposa do também português, o “Seo Antonio”.  A família Porto morava em uma das esquinas do cruzamento da Rua Lobo d’Almada com a Rua José Clemente, local privilegiado, uma espécie de camarote “first class” para assistir a largada e a chegada. Uma casa com muitas janelas, todas abertas e ocupadas pelos membros da família a torcer freneticamente pelo varão Ivan Porto. Incentivava a mãe, irmãs, empregada, papagaio, cachorro, um fã clube de causar inveja. A responsabilidade do Ivan crescia na medida em que os gritos e as palavras de incentivo eram proferidas.  Ivan aquecia, pulava, flexionava, alongava, dava cambalhota, pique no lugar e haja palmas, assovios e uis.

A largada foi dada, Ivan disparou deixando todos pra trás, a família foi ao delírio, a Alba, sua irmã caçula, quase se joga da janela tamanha a emoção; Ivan dobrou a esquina da Rua Dez de Julho liderando com folga, mas na altura da porta da Santa Casa ele sentiu a famosa dor de veado, aquela “dorzinha” chata pra cacete que dá no abdômen, na altura do baço; aí começou a diminuir a velocidade, parou, juntou uma folha verde caída no chão, prendeu-a no elástico do calção – e eu lá sei por que fazendo isso a gente acreditava que a dor diminuía – e completou a prova. Ivan foi o “fona”, o “ foba”, o último a chegar, a euforia inicial da família Porto transformou-se em velório de mudo, não se ouvia um piu. O silencio só foi quebrado com o fechar abrupto das janelas antes escancaradas.

Deu a lógica, Ariosto ganhou a corrida preliminar e Demóstenes (Dedé) a dos mais velhos.

Os sorrisos iniciais da família Porto foram premonitórios, não serviram para lhe assegurar a vitória naquela corrida, mas na corrida da vida direcionaram a sua vocação profissional, Ivan hoje é um renomado dentista da nossa cidade.

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.

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