A Colônia Japonesa Efigênio de Sales (Série 1960)

Em 22 de novembro de 2017 às 14:01, por Durango Duarte.

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No mandato do governador Ephigenio Ferreira de Salles (1926–1929), preocupado em criar alternativas econômicas para o estado que preenchessem o vácuo surgido com o fim da economia gomífera, no início daquele século, tinha interesse em atrair imigrantes japoneses para o Amazonas. A introdução de novas técnicas de cultivo e a entrada de novos produtos agrícolas eram muito bem-vindas, pois poderiam vir a se consolidar como economicamente viáveis. Assim, em 1926, quando o primeiro embaixador do Japão no Brasil, Shichita Tatsuke, visitou Manaus, recebeu do governador do Estado do Amazonas a concessão de terras para colonos japoneses.

No dia 11 de março de 1927, com o apoio do sucessor de Shichita Tatsuke, o embaixador Akira Ariyoshi, juntamente com Genzaburo Yamanishi e Kinroku Awazu, assinaram o contrato de opção com o governador Ephigenio Salles, para a escolha de áreas apropriadas dentro de 2 anos, com recursos próprios. Foi a primeira concessão de terras aos japoneses na Amazônia.

No dia 2 de janeiro de 1930, chegaram ao Amazonas os primeiros colonos japoneses. Eles se estabeleceram e se dedicaram ao cultivo do guaraná, em Maués.  Entretanto, em 1941, uma epidemia de malária matou várias famílias, fazendo com que esses japoneses se dirigissem para a colônia japonesa na Vila Amazônia, próxima a Parintins.

Em 20 de junho de 1931, a Vila Batista, primeiro nome da Vila Amazônia, recebeu a primeira turma de koutakuseis – termo que se refere aos alunos da Kokushikan Koutou Takushoku Gakkou (Escola Superior de Colonização de Kokushikan), na abreviação, Koutaku. O grupo era composto por 38 jovens com idades entre 19 e 20 anos, eram todos estudantes de agronomia, provenientes de famílias de classe média e treinados para liderar a colonização japonesa na região da Amazônia, a partir do Instituto Vila Amazônia, fundado em 21 de outubro de 1930, em Parintins. Da 1ª turma, que chegou a Parintins, até a 7ª e última turma, em 1937, foram 243 graduados.

Em 1953, para trabalhar na produção de hortifrúti e avicultura, chegaram para a Colônia Sol Nascente, no município de Manacapuru, 17 famílias de imigrantes, num total de 54 pessoas.

Somente em 10 de novembro de 1958, a primeira leva de colonos japoneses se instalou em Manaus, na Colônia Efigênio de Sales, localizada na AM-010, a partir do quilômetro 40 até o 54, da Estrada Manaus-Itacoatiara. Agricultores por excelência, em março de 1960, os imigrantes exibiam os primeiros campos de arroz. No ano seguinte, quarenta e três propostas de japoneses daquela colônia, pleiteavam empréstimos junto ao Banco de Crédito da Amazônia, para o cultivo da mandioca. Os nipônicos queriam experimentar, pela primeira vez, a cultura daquele tubérculo.

Na referenciada colônia trabalhavam 64 famílias, num total de 400 pessoas. Lá se cultivava além de arroz, pimenta do reino, verduras, legumes, mandioca, cana, milho e o que mais fosse necessário para a alimentação. Através do cooperativismo, vendiam seus produtos, faziam suas compras e recebiam do fomento federal e estadual, sementes, máquinas, adubos e outros implementos.

Em 24 de novembro de 1961, o embaixador do Japão no Brasil, Keiichi Tatsuke, veio a Manaus exclusivamente para conhecer duas colônias aqui estabelecidas: Água Fria, no Cacau Pirêra – antes pertencente ao município de Manaus – e a Colônia Efigênio de Sales. Uma motivação de cunho sentimental o trouxe até Manaus, seu pai, Shichita Tatsuke, havia sido embaixador no Brasil, de 1923 a 1926. Foi ele quem, em 1925, estabeleceu as primeiras bases para o intercâmbio migratório do Japão com o Amazonas e também quem recebeu do governador Efigênio de Sales, uma concessão de terras de cem mil hectares, destinada à agricultura.

Em 1962, apesar do ciclo das cheias dos rios, os nipônicos, fazendo uso de sua tecnologia, superaram as dificuldades naturais e produziram verduras com fartura, as quais foram abasteceram as feiras e mercados da cidade.

No mesmo ano, dois outros fatos relevantes ocorreram: o primeiro, em fevereiro, sob o patrocínio do Instituto Nacional de Imigração e Colonização, mais 100 famílias japonesas chegaram ao Amazonas, mas dessa vez para se estabelecer em terras pertencentes àquele Instituto, nas Colônias de Bela Vista, em Manaus, e Boca do Acre; o segundo, em julho, a Associação dos Nisseis Nipo-Brasileiros do Amazonas, entidade fundada no dia 22 de abril daquele ano, em Manaus, lançou o primeiro número do jornalzinho “O Nissei”.  A associação tinha por finalidade congregar toda a juventude nipo-brasileira e, através dela, conseguir melhor integração na nova pátria, em particular, na região amazônica. Dentre outras informações, o jornalzinho trazia a história da criação da Associação.

No mês de julho de 1966, o consul Todashi Nakagawa e representantes japoneses em Manaus, foram visitar a Colônia Efigênio de Sales. O lugar que no ano de 1958, tinha iniciado com 17 japoneses, agora contava com 62 famílias, totalizando 353 pessoas, todas dedicadas à agricultura e avicultura. A povoação tinha 80.000 pés de pimenta do reino plantados e uma produção estimada em 200 toneladas. Dessa produção, as famílias oriundas da terra do Sol Nascente exportaram 45 toneladas de pimenta do reino para os Estados Unidos e 20 toneladas para a Argentina.

Outra atividade desenvolvida por eles era a criação de galinha – para a postura e abate – e dispunha de um plantel de 15 mil bicos, acumulados em apenas 12 anos de atividade. A Cooperativa Agrícola Mista Efigênio Sales dispunha de um posto de vendas em Manaus, na Rua Dez de Julho, 618, onde era possível adquirir ovos, legumes e outros produtos agrícolas.

Em dezembro de 1967, uma nova colônia japonesa foi instalada nas proximidades do Parque Dez de Novembro, em terras próprias, adquiridas por compra a particulares. A colônia agrupava 12 famílias, distribuídas por lotes, que cobriam 300 hectares. Agora Manaus tinha mais uma colônia para se somar a Bela Vista, Água Fria e Efigênio de Sales.

O Consul Geral do Japão, Sr. Sadao Kushida, esteve presente durante a comemoração do décimo ano de aniversário da Colônia Efigênio de Sales, ocasião em que houve diversas competições esportivas, inclusive uma partida de Baseball, além de concurso de canção popular e apresentação de peça teatral japonesa.

No ano de 1968, a safra de pimenta do reino atingiu 300 toneladas; as galinhas, 30 mil bicos, com produção diária de 10.000 ovos e a produção de legumes anual chegou a 500 toneladas.

A Colônia Efigênio de Sales como as demais colônias instaladas na capital amazonense contribuiu fortemente para o abastecimento do mercado de Manaus, juntas elas constituíram a base da sociedade Nikkei da Amazônia Ocidental.

Durante o mês de agosto, tradicionalmente acontecem os festivais anuais de verão naquela colônia e na Associação Nipo-Brasileira da Amazônia Ocidental (Nippaku), sempre regados a comidas típicas japonesas (sushiyakissobayakitori…) e doces (motimanju e kakigoori).

sobre o autor

Articulista-Durango-DuarteGaúcho amazonense, militante estudantil nos anos 1980, empresário nas áreas de Marketing e Comunicação, consultor político, autor de diversas obras literárias, articulista, blogueiro, diretor presidente do Instituto Durango Duarte, apaixonado por história do Amazonas e de Manaus, às vezes torce pelo Grêmio.

comentários

2 respostas para “A Colônia Japonesa Efigênio de Sales (Série 1960)”

  1. Walber Luiz de almeida Ribeiro disse:

    Pouco ou quase nada tem se falado da contribuição dos japoneses para o desenvolvimento da agricultura no amazonas. Boa matéria, nessa área muito ainda pode ser feito, hoje temos estufas de vidro fabricadas na Holanda, que produzem qualquer tipo de vegetais, deveríamos nos preocupar mais em produzir alimentos, já que o nosso Polo Industrial não produz tecnologias, no futuro, já próximo, seria uma grande saída.

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