A chegada dos pica-paus

Em 26 de outubro de 2018 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Parecia que ia ser um ano como outro qualquer aquele de 1972, ano que o Colégio Militar chegou a Manaus. A cidade era uma província, o censo demográfico do IBGE de 1970 (dois anos antes do início das atividades do CMM) registrava 314.197 habitantes, nós, descendentes de Ajuricaba, hibernávamos esparramados sobre o status quo da hereditariedade silvícola. Não estávamos preparados para as mudanças que adviriam nos anos subsequentes, afinal, a população feminina era maior que a masculina (ainda bem) e nós éramos “os caras”. Eu morava na Rua José Clemente e o contingente de alunos internos do CMM, vindos das mais distintas plagas desse País Continente, também.

Em meados dos anos 1990 eu estava em Lissenshousen, uma minúscula cidade nos arredores de Munique. Chamou-me atenção a reação do jovem Simon, um alemãozinho filho do meu estimado amigo Rolf Seiter que, após ouvir o meu relato do modo de vida dos jovens manauaras e cotejá-lo ao dos jovens da Bavária, escapou-lhe a seguinte exclamação: “Manaus is a paradise!” Se para o Simon a Manaus dos anos 1990 era um paraíso, o que dizer da Manaus dos anos setenta?

A chegada daquele bando de “pica-paus estrangeiros” aparentemente seria insignificante e, em tese, não abalaria nossa Taba, abalou. Quatro fatores, creio, responderam pelo abalo: muitos dos “pica-paus estrangeiros” eram vistos pelas nativas como o Nacib era visto pela Gabriela: moços bonitos. A estatura média deles era superior à nossa, os dialetos desses muitos Brasis aqui aportaram trazendo um diferencial que a elas encantava e essas, como que sob hipnose, esqueciam o encanto milenar dos botos do lugar e se extasiavam com as estórias de pica-paus.

Os japoneses, em ataque surpresa, bombardearam Pearl Habour com aviões e navios torpedeiros, os estrangeiros do CMM bombardearam nosso Porto de Lenha com seus moços bonitos de olhos matizados, dialetos e estórias de pica-paus. Foi avassalador. Os caras atacaram as tribos do Bancrévea, Cheik, BEASA, União Esportiva, Círculo Militar e outras menos populosas a conquistar, em profusão, os corações das cunhãs. Como pássaros, andavam em bando e era comum, quando do retorno das invasões às tribos antes mencionadas e com os ponteiros do relógio a passar da meia-noite, ouvir os pica-paus a contar suas conquistas, os corações arrebatados, os beijos arrancados, as carícias ousadas, os seios bolinados… Ouvir aquilo desde a janela ou o batente da minha casa era um golpe de morte, o cheiro de perfídia se espalhava pelos quatro cantos da cidade, a famosa desculpa do “vamos dar um tempo” virou epidemia, o caos se instalou. O quadro era desastroso, não era um caso de xenofobia, não, é que mexia com os nossos brios, com a nossa masculinidade, não havia hipótese de aceitação pacifica. Égua, que porra é essa! Nossa miscigenação não acolhe o sangue dos conterrâneos de Charles de Gaulle, mas precisávamos mostrar resistência, resistimos.

Vários foram os palcos de batalhas, com destaque para a Praça do Congresso e as esquinas das Ruas José Clemente com Lobo d’Almada. Algumas vezes, por conta do enorme número de “inimigos”, apelávamos para tribos vizinhas e, em nosso socorro, vinham guerreiros da Luiz Antony, Dez de Julho, 24 de maio e adjacências reforçar a nossa Tribo. Não há registros oficiais, contudo, arriscaria dizer que os moços bonitos sofreram muito mais revezes que nós, autóctones.

Eu mesmo, guerreiro colecionador de revezes em embates de lutas corporais, protagonizei a “Batalha da Calçada da Santa Casa”, não houve baixas, lembro que, de punhos cerrados, eu pulava que nem um macaco, no fundo no fundo torcendo para que o oponente mantivesse distância, felizmente assim foi.

Dos moços bonitos lembro os nomes: Marco Antônio, Peres, Emmanuel, Marco Canongia e Noronha, mas Leal foi o grande predador, abateu muitas cunhãs e dilacerou corações, Leal é um cara do bem, ele e eu firmamos boa amizade, Leal é meu face friend.

Com o passar dos anos as batalhas foram cessando e a paz foi selada. Os “pica-paus estrangeiros” deixaram de ser novidade, o encanto inicial foi decantando, perdendo sua intensidade; os olhos castanhos e pretos voltaram a reinar, os botos do lugar resgataram suas majestades, a beleza dos Barés retomou seu trono. Os moços bonitos foram se acomodando, namorando de porta, alguns casaram outros por aqui ficaram e, como o Leal, muitos se tornaram meus amigos, não que eu tenha sido cooptado com espelhos e canivetes, mas porque os tempos eram outros e eles, percebendo que jamais seriam um de nós, assumiram termos e expressões do amazonês; trocaram feijoada, churrasco, buchada e outras iguarias, pela caldeirada de peixe e a incomparável tartarugada, os “pica-paus estrangeiros” mimetizaram.

Das primeiras safras do Colégio Militar de Manaus homenageio os amigos nativos: Manoel Ribeiro, Hamilton Henrique, Claudio Barros Gomes, JoãoLitaiff, Pedro Araújo e Guilherme Sandoval.

Que tempo bom!

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.